Após um ano sob nova concessão, usuários das barcas Rio-Niterói reclamam sobre problemas no transporte e falta de ar-condicionado
As barcas completam nesta quinta-feira (16) um ano de funcionamento sob a administração da nova concessão, mas usuários têm visto poucas mudanças no serviço. Um dos poucos avanços apontados pelos passageiros foi a redução das tarifas, colocada em prática logo no início da vigência do novo contrato, com a Barcas Rio. Mas reclamações de atrasos na circulação persistem. Além disso, ainda há embarcações com banheiros e bancos quebrados e sem ar-condicionado. A refrigeração das barcas era, inclusive, uma das promessas da nova administração.
A Barcas Rio assumiu a gestão após uma série de problemas enfrentados com a CCR, que várias vezes manifestou o interesse de deixar o serviço por causa de dívidas. A concessionária administra seis linhas e oito estações. As críticas mais recorrentes são justamente em relação às mais movimentadas: as linhas de Niterói, Praça XV-Araribóia e Praça XV-Charitas; Praça XV-Cocotá, que atende à Ilha do Governador, e linha que faz o trajeto até a Ilha de Paquetá.
A analista de dados Amanda Costa é moradora da Ilha do Governador e reclama da falta de conforto nas barcas que atendem à região, principalmente numa embarcação que circula desde 1986, a Charitas.
"O serviço piorou substancialmente, principalmente referente às embarcações, eles colocaram uma barca de 1980, barca Charitas, uma barca extremamente desconfortável, deteriorada, quente e quando chove, quando tem os temporais, extravasa água para dentro, então acaba molhando os passageiros. Então assim, o serviço é péssimo, de 0 a 10 eu dou 0. Não tem ar-condicionado, eu não lembro de ter pego uma barca com ar-condicionado, é extremamente quente no verão".
A reportagem da CBN conferiu de perto os problemas relatados pela Amanda na linha Cocotá. São barcas muito velhas, bancos antigos e duros, além de atrasos frequentes. Nesta quarta-feira (11), os moradores que aguardavam a barca das 8 da manhã ficaram cerca de uma hora e vinte esperando. Isso porque a embarcação, que havia seguido para a Praça XV, quebrou no caminho de volta.
Já na linha de Paquetá, há relatos de superlotação e até água entrando pelo teto quando chove. Foi o que aconteceu durante o temporal do início da semana. Outra reclamação é com a grade horária, com poucas viagens. Recentemente, o governo anunciou uma nova programação de viagens, que ainda desagrada os moradores.
"Não melhorou o serviço. O serviço continua péssimo. O desencontro de horário. Não cumpri o horário que é vigente, que deveria ser obrigatório cumprir. E, mesmo assim, as barcas não são boas. As barcas são muito insalubres. Elas não possuem ar-condicionado, em sua maioria. As que foram adquiridas muitas vezes dão prioridade para outros trajetos e não dão prioridade às barcas com ar-condicionado para Paquetá. Mesmo mudando o horário, eu continuo pegando barca atrasada, mesmo com o horário que muda. Barca de sete e meia da manhã, que foi para sete e cinquenta, às vezes só sai oito e dez, oito e quinze".
A Secretaria estadual de Transporte afirma que já adotou medidas emergenciais e que trabalha para resolver a questão da climatização. Segundo a secretária Priscila Sakalem, há um processo para contratação de ar-condicionado definitivo nas embarcações, com previsão de instalação ainda em 2026.
"A grade horária de todos os ramais, especialmente de Cocotá e de Paquetá, estão em constante aprimoramento. A nossa ideia é, justamente baseado na demanda, desenhar uma nova grade. Então, o que eu posso te dizer hoje é que a gente vai fazer esse estudo novamente para entender se realmente precisa de mais barca para a gente poder ter essa rota de Cocotá. Mas, em geral, a gente está atendendo justamente a demanda. Óbvio que a barca que não é climatizada, a gente acaba sofrendo mais com ela no verão. Ela não é climatizada de fábrica, mas a gente já instalou climatizadores. Foram 71 climatizadores em estações e em embarcações. E o próximo passo agora é a gente colocar o ar-condicionado nelas. Mas aí, para isso, a gente está fazendo estudos".
A reportagem da CBN também entrou em contato com a Agetransp e aguarda um posicionamento sobre as fiscalizações nas estações e nas embarcações. Segundo a Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana, a média diária é de 47 mil passageiros transportados nas barcas. A linha mais movimentava é a Praça XV–Arariboia, que liga o Rio a Niterói. Na linha Charitas, a média é de 6 mil embarques por dia.
Quem mora em Niterói e usa o serviço diariamente reclama da estrutura das embarcações. A esteticista Luciana Vitória, que mora na cidade, contou que desde mudança de gestão das barcas, os problemas continuam os mesmos.
"A diferença é nenhuma, é a mesma coisa. Sem ar-condicionado. A única coisa que realmente mudou foi o valor da passagem. Eles colocaram aquele ventiladorzinho, mas não é em todos os cantos, é só na parte central. Então quem senta dos lados , mesmo com a janela aberta, sente o calor, né".
O diretor da FGV Transportes, Marcus Quintella, avalia que a troca da concessionária trouxe avanços, como a redução da tarifa, mas destaca que a qualidade do serviço precisa de fiscalização constante por parte da agência reguladora.
"Esse contrato do consórcio Barcas Rio, um contrato de prestação de serviços com o Estado do Rio de Janeiro, que é o contratante, ele proporcionou a redução das tarifas públicas para o usuário, isso é fundamental porque é a figura do subsídio paga pelo Estado, e a fiscalização cabe à Agência Reguladora Estadual, à Agetransp, porque ela é fundamental para acompanhamento das metas, da qualidade, de todos os índices de performance e de qualidade. Então, esse contrato tem um prazo definido de cinco anos, com possibilidade de extensão, e ele precisa ser monitorado permanentemente, não só pela Agetransp, mas também pelo governo do Estado".
Nesta semana, a tarifa foi reajustada de R$ 4,70 para R$ 5. Ainda assim, o valor segue abaixo do cobrado na época da CCR, quando a passagem custava R$ 7,70. No caso da linha Charitas, o preço chegou a R$ 21.
A redução só foi possível com o aumento do subsídio do governo estadual: hoje, apenas 25% do custo do sistema é pago pelo passageiro. Os outros 75% vêm de recursos públicos. O contrato do atual consórcio vai até 2029.
Em nota a CBN, a secretaria de transporte afirmou que a frota conta com 10 embarcações com ar-condicionado. Outras sete não têm o equipamento, mas cinco receberam climatizadores, que são grandes ventiladores que ficam na parte central da embarcação, mas que não dão vazão pra toda barca. Ao todo, foram instalados 76 climatizadores em embarcações e estações.
A secretaria afirmou também que o processo ainda está em andamento para a contratação de ar-condicionado, com previsão de início da instalação em 2026. Entre as melhorias anunciadas no último ano também estão ajustes no sistema de refrigeração da estação Arariboia, nova cobertura na ponte de embarque de Paquetá, novos assentos preferenciais, reforço na frota com uma embarcação que ficou oito meses em manutenção e a redução da tarifa da linha Charitas, que pode gerar economia mensal de até R$ 580 para quem utiliza o trajeto diariamente.
