Após temporais, eficácia de obras de macrodrenagem viram foco de embate político em Niterói
As fortes chuvas que voltaram a atingir Niterói nas últimas semanas reacenderam um debate antigo na cidade: a eficiência das obras de drenagem e a capacidade do município de reduzir os impactos dos temporais. O tema, que costuma ganhar força a cada período de instabilidade climática, desta vez se transformou também em embate político, com críticas da oposição e de lideranças comunitárias, enquanto a prefeitura afirma que as intervenções têm funcionado e acusa adversários de espalharem desinformação.
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Entre os questionamentos está um vídeo publicado no ano passado pelo prefeito Rodrigo Neves, no qual ele afirmava que o entorno do Barreto não sofreria mais com alagamentos e chamava críticos das obras de “bobalhões”. Após novos episódios de acúmulo de água, opositores resgataram as imagens para contestar o discurso oficial.
Presidente da Comissão de Meio Ambiente e vice-presidente da Comissão de Urbanismo e Obras da Câmara, o vereador Daniel Marques (PL) afirma ter intensificado visitas técnicas a áreas que passaram por intervenções recentes. Segundo ele, um relatório elaborado com apoio de uma engenheira foi encaminhado ao Ministério Público e ao Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema), com pedido de vistoria do Grupo de Apoio Técnico (GAT).
— Estamos acompanhando de perto. O Maravista é um caso clássico de obra malfeita. Tenho visitado contenções de encostas e encontrei situações absurdas, como uma estrutura no Boa Vista que estaria direcionando água para áreas abaixo dela, com risco para as casas. Também tenho uma série de ofícios não respondidos sobre áreas de risco geológico. O último estudo citado pela prefeitura seria de 2016, mas não está disponível em nenhum portal — afirma o parlamentar, acrescentando que o Plano Municipal de Proteção e Defesa Civil previsto no Plano Diretor ainda não foi apresentado.
Prefeitura rebate críticas
No Barreto, moradores também relatam preocupação. Presidente da associação de moradores do bairro, Paulo Garcia questiona a efetividade de uma obra de macrodrenagem que recebeu investimento superior a R$ 70 milhões.
— Alagou muito, inclusive em um ponto onde houve a obra. É um investimento milionário que não era para apresentar esse resultado, mesmo com o volume de chuva. Tenho fotos e vídeos, e um deles viralizou porque, na época, quando reclamei de problemas na obra, o prefeito me chamou de bobalhão — afirma.
A administração municipal, por sua vez, sustenta que o volume de chuva registrado foi excepcional. De acordo com a Defesa Civil, a cidade enfrentou quase 30 dias de precipitações intensas e ininterruptas, e apenas na segunda-feira, 9 de fevereiro, o acumulado se aproximou da média histórica prevista para todo o mês.
Apesar disso, o órgão afirma que não houve ocorrências graves no período e rebate as críticas.
“ É absurdo o uso, em páginas da oposição, de um vídeo de inundação em Duque de Caxias como se fosse no Barreto”, afirmou a prefeitura, em nota.
Segundo o município, locais que receberam obras recentes — como Campo Belo e Maravista, na Região Oceânica; e a rotatória do Badu, em Pendotiba; além de Barreto, Engenhoca e Charitas — teriam demonstrado capacidade de resposta diante das chuvas.
A Empresa de Obras e Infraestrutura de Niterói (ION) acrescenta que, em Charitas, não houve regsitros de alagamentos nas áreas correspondentes às bacias onde foram executadas intervenções de macrodrenagem. Já no Maravista, a rede recém-implantada teria permitido o rápido escoamento da água após a redução da intensidade da chuva. Alagamentos pontuais, segundo a prefeitura, estariam ligados ao assoreamento do Rio João Mendes, cuja responsabilidade é do Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
No Barreto, o município reconhece registros pontuais, mas afirma que o volume foi inferior ao observado em anos anteriores e que o sistema mostrou capacidade operacional. O consórcio responsável pelas obras foi acionado para ampliar a captação em alguns trechos, e a prefeitura informou que também realizará a dragagem do Rio Maruí — ainda que a atribuição principal seja estadual — para reforçar a eficiência da drenagem.
A administração destaca ainda que o funcionamento adequado da rede depende da colaboração da população, sobretudo no descarte correto do lixo, evitando obstruções em rios e galerias.
Investimentos
Nos últimos dez anos, a prefeitura afirma ter investido cerca de R$ 2 bilhões em ações de prevenção, monitoramento meteorológico, contenção de encostas, drenagem e fortalecimento da resposta a emergências. Semana passada, foi anunciado um novo aporte, de aproximadamente R$ 70 milhões, para obras de contenção em outros 29 pontos da cidade.
O Centro de Monitoramento e Operações da Defesa Civil mantém acompanhamento em tempo real das condições climáticas, com plantão permanente e uso de radar meteorológico para ampliar a previsibilidade e acelerar decisões em situações de risco.
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