Após sete anos, marquise do Ibirapuera será reaberta com polêmica sobre áreas delimitadas para esportes
A marquise do Ibirapuera será enfim reaberta. A cobertura de 27.000 metros quadrados, parte do projeto de Oscar Niemeyer para o parque mais visitado de São Paulo, estava parcialmente interditada desde 2019, após passar anos em estado crítico. Prometida para junho do ano passado, a obra será entregue no sábado (24) ao custo de R$86 milhões, bancados com recursos da prefeitura.
Tradicional palco de modalidades como o skate e os patins, a marquise fez parte de momentos icônicos de São Paulo. Ali teve início uma proibição do skate na cidade, imposta pelo então prefeito Jânio Quadros, em 1988. Na época, a sede da prefeitura ficava dentro do parque. O ato, porém, teve efeito contrário e impulsionou a popularização do esporte na metrópole.
— A marquise sempre foi muito democrática, um espaço público, a gente nunca teve restrição, a não ser na época do Jânio Quadros. Aquela proibição começou na marquise, depois no Ibirapuera e depois foi para a cidade — conta Fábio Britto Araújo, o Bolota, um dos membros do Ibiraboys, o grupo de skate que protagonizou o embate com o prefeito nos anos 1970.
Teto, iluminação e pisos restaurados no equipamento de 27.000 metros quadrados
Guilherme Queiroz/ O GLOBO
No ano passado, em meio às discussões sobre a reinauguração do equipamento, uma minuta de uma portaria da Secretaria do Verde e Meio Ambiente chegou a prever uma nova proibição do skate, patins, BMX e da prática de outros esportes no espaço da marquise. O plano, no entanto, não foi para frente.
A solução foi a criação de áreas demarcadas, onde as práticas esportivas serão permitidas. Um trecho de 3.600 metros quadrados poderá ser utilizado livremente pelos esportistas. Também foi desenhado um espaço de 700 metros quadrados para crianças. Os limites serão marcados com fitas, que serão coladas no chão.
Mapa da nova divisão da marquise do Ibirapuera
Reprodução/ Prefeitura de São Paulo
— É uma área razoavelmente grande. Vamos ver o andar da carruagem no dia a dia para ver como isso (a demarcação) vai ser absorvido pelos praticantes. Durante semana acho que tranquilo, agora no final de semana vamos ver como vai se comportar a demanda pelo espaço — diz Bolota.
O GLOBO visitou a marquise nesta quarta. O local ganhou iluminação mais potente, teve o piso restaurado e a cobertura, um dos pontos mais frágeis do passado, que chegou a desabar parcialmente em 2017, ganhou acabamento renovado em gesso.
Com a entrega da obra, a concessionária Urbia poderá usar o espaço para realizar eventos e ativações. A empresa também irá instalar um restaurante no local.
— Foi colocado pela secretaria do Verde (durante as reuniões junto a sociedade civil que discutiram os novos usos da marquise) que não tem pode ter uma ocupação que breque a fluidez das pessoas. A gente não conseguiu naquela reunião ter por parte da Urbia (concessionária que administra o parque) um pouco mais de descrição do que será feito no espaço que eles poderão explorar comercialmente — diz a vereadora Renata Falzoni (PSB).
Área ajardinada em meio a marquise: obra de R$84 milhões
Guilherme Queiroz/ O GLOBO
— A nossa ideia é que seja um lugar de instalações culturais, inclusive a gente já vai abrir a marquise com uma exposição de fotos subaquáticas. O processo para fazer um evento, para fazer uma ativação, passa por todos os riscos como qualquer outra atividade do Ibirapuera, passa pelos órgãos de proteção do patrimônio — afirma Samuel Lloyd, diretor comercial da Urbia.
Os vigias deverão orientar os visitantes sobre as regras de uso dos espaço. A manutenção do equipamento deve custar cerca de R$ 3,5 milhões anuais para a Urbia. A área contará com 27 câmeras de monitoramento, além de duas bases de segurança. O parque como um todo atualmente conta com 257 câmeras, sendo que dez delas, as que ficam nos portões de entrada, estão interligadas ao sistema de monitoramento da prefeitura, o Smart Sampa, e contam com o sistema de reconhecimento facial.
Em 2026, a concessionária completa cinco anos à frente da gestão do parque, que teve diversos espaços renovados, ao mesmo tempo em que os visitantes viram uma profusão de marcas aparecerem nos equipamentos de esportes e lazer.
Segundo Lloyd, até o final de 2025 a empresa investiu R$ 390 milhões na infraestrutura do pacote de concessão, que inclui não só o Ibirapuera, mas também os outros cinco parques que vieram no contrato: o Jacinto Alberto e o Jardim Felicidade, na Zona Norte; o Eucaliptos, na Zona Sul e o Tenente Brigadeiro Faria Lima, na Zona Leste. Fora o investimento em infraestrutura, os valores gastos com manutenção estão na casa dos R$100 milhões anuais.
Ao menos R$ 350 milhões foram arrecadados desde o início do contrato apenas com patrocínios. Quadras de tênis levam o nome de uma montadora francesa, as de basquete contam com aros com o nome de um isotônico e 60 painéis espalhados pelo parque exibem propagandas dos patrocinadores. Há também contratos de exclusividade: todo café servido no parque é apenas de uma marca, assim como as bebidas, todas da mesma empresa.
