Após ‘química’, Lula e Trump devem ir à ONU com visões antagônicas

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Fonte da notícia: Valor Valor

Discurso de Lula pode não citar Trump, mas aposta é que haverá referências ao relacionamento de Brasil e EUA Ricardo Stuckert/PR Em meio a eleições no Brasil e nos Estados Unidos e à crise do multilateralismo, a comunidade internacional estará de olho nos discursos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nos debates da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22). A expectativa é que Lula, que fará o primeiro discurso, e Trump, que falará em seguida, levem à tribuna visões antagônicas do mundo. “É irônico que a ONU seja o local onde Lula e Trump fizeram as pazes brevemente no ano passado. Afinal, é onde suas divergências são, talvez, mais evidentes”, diz Benjamin Gendan, pesquisador sênior e diretor do programa para a América Latina do Stimson Center. Ele se refere ao encontro dos líderes em 2025, quando Lula e Trump se esbarraram rapidamente no corredor entre seus discursos e o presidente americano falou que teve uma “excelente química” com o brasileiro, em meio ao clima tenso imposto pelo tarifaço. “Lula é um defensor de longa data da cooperação internacional. Já Trump vê a ONU como um desperdício de dinheiro - e guarda ressentimento pela decisão da organização de não contratar sua empresa para uma reforma décadas atrás”, afirma Gedan. O calendário eleitoral, diz, não ajudará a superar essa divisão. As falas dos presidentes ocorrerão a menos de duas semanas da eleição presidencial de 4 de outubro no Brasil, com pesquisas indicando empate entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Os americanos também vão às urnas, em novembro, quando o partido de Trump, provavelmente, perderá o controle da Câmara e, talvez, do Senado. “Será uma plataforma para os dois presidentes falarem sobre eleições, direta ou indiretamente”, afirma Lucas de Souza Martins, professor de política americana e relações internacionais na Universidade Temple. Para Bruna Santos, diretora do Brazil Program no Inter-American Dialogue, será “praticamente impossível” separar completamente o discurso de Lula na ONU da comunicação política doméstica, mesmo que ele esteja falando de política externa. Como mostrou o Valor, Lula deverá reforçar a defesa da soberania e da democracia em seu discurso na ONU e dar um recado contra interferências externas na eleição brasileira, mas sem mencionar nominalmente autoridades ou países. “Lula pode não citar Trump diretamente, mas críticas ao unilateralismo, a sanções, ao protecionismo e a tentativas de interferência política serão facilmente entendidas como referências aos EUA”, afirma Santos. Interlocutores do governo brasileiro veem tentativas de interferência dos EUA na eleição em favor de Flávio Bolsonaro, mas observam que Washington tem calibrado seus movimentos diante da disputa acirrada. Uma nova sanção com base na Lei Magnitsky, por exemplo, poderia produzir efeitos eleitorais desfavoráveis a Flávio, na avaliação desses interlocutores. O entorno do candidato nos EUA tenta vender exatamente o contrário. Seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro esteve em Washington na semana passada para pedir, em reuniões no Departamento de Estado e na Casa Branca, não só o retorno das sanções da Magnitsky ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, como a inclusão de seus colegas Flávio Dino e Gilmar Mendes entre os alvos. É nesse ambiente que Lula subirá pela décima vez como presidente à tribuna da Assembleia Geral. O Brasil abre o debate desde 1955. Os discursos ocorrerão em meio à percepção, entre interlocutores brasileiros, de retrocesso global nas áreas de paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos. A avaliação é que esse diagnóstico deve atravessar as falas dos diferentes países, mas as causas apontadas e as soluções defendidas serão distintas. No caso de Brasil e EUA, fontes brasileiras esperam que o contraste seja evidente. “É inevitável que você tenha duas visões diferentes sobre a ordem internacional”, afirma um interlocutor do governo federal. Santos têm a opinião de que Lula buscará defender o multilateralismo e apresentar o Brasil como um ator responsável nos grandes temas globais, enquanto Trump deverá falar em um “registro muito mais nacionalista e transacional”. O próprio Lula antecipou que pretende fazer um discurso sobre “o mundo”. Entre os assuntos citados por ele estão economia global, guerras, representatividade no Conselho de Segurança e o que classificou como “falta de liderança” para “tomar decisões”. Já Trump pode retornar com suas costumeiras críticas a organizações internacionais e defender seu legado como suposto “agente da paz”, diz Martins. “Não espero nada muito diferente do que foi no ano passado”, afirma. Apesar disso, afirma, pode ser que Trump mencione seu engajamento com governos latino-americanos - região que não costuma aparecer nos discursos recentes de presidentes americanos -, principalmente no combate ao narcotráfico, em uma cooperação que não inclui o Brasil. “Seria uma forma também de Trump tentar falar com a sua base”, afirma Martins. O tema do crime organizado ganhou importância na comunidade internacional do ano passado para cá, o que justificaria uma abordagem pelo Brasil. Mas a área, em que a atuação brasileira recebeu críticas dos EUA na semana passada, também é vista como um terreno mais favorável a Flávio e com potencial de desgaste para Lula. “Lula pode se sentir tentado a usar seu discurso para enfatizar, além da soberania brasileira, seu desconforto com a ‘Doutrina Donroe’, de caráter intervencionista [dos EUA sobre a América Latina]”, afirma Gedan. Caso Lula e Trump voltem a se encontrar nos bastidores, diz, uma nova reaproximação é possível, apesar de todas as tarifas e da tensão diplomática. Os dois governos mantêm aberto o diálogo para tentar superar o tarifaço imposto pelos americanos aos produtos brasileiros, mas interlocutores do Palácio do Planalto não esperam resultados no curto prazo e avaliam que Washington evitará concessões que possam ser apresentadas como uma vitória de Lula antes da eleição. Há duas tarifas, uma de 25% e outra de 12,5%, impostas sobre produtos brasileiros. Fontes do governo brasileiro avaliam que os EUA adotam postura unilateral e usam as tarifas não só como instrumento de pressão, mas como política econômica industrial. Por isso, mesmo uma maior disposição brasileira a fazer concessões não garantiria a retirada das barreiras. Se Lula vencer, interlocutores esperam uma postura pragmática de Trump, mas consideram que a relação com os EUA será o maior desafio da política externa brasileira a partir de 2027. Leia mais em ONU abre Assembleia Geral em crise existencial e sem sucessor para Guterres

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