Um dia após afirmar que os Estados Unidos lançariam a "maior ofensiva financeira já mobilizada" contra o Irã, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou a "Operação Pária Econômico" contra a República Islâmica do Irã e seus apoiadores, mas reconheceu que se tratava sobretudo um "aviso" seguido por um período de "diplomacia discreta" com outros governos.
Não ficou claro, porém, o que exatamente o governo de Donald Trump poderá fazer para desestabilizar ainda mais a economia iraniana, já em dificuldades, nem se será algo severo o suficiente para levar o país a encerrar seu programa nuclear e permitir a livre circulação de petróleo pelo Estreito de Ormuz.
Teerã, por sua vez, respondeu que o país tem um "plano de dois anos" para combater as sanções americanas e previu "nova derrota" para Washington.
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A campanha, explicou Bessent, visa pressionar outros países, incluindo potencialmente a China e a Rússia, que continuam a negociar com o Irã ou a ajudá-lo a burlar as sanções americanas.
— Em todo o mundo, nosso objetivo é cortar todas as linhas de sobrevivência econômica que sustentam esse regime tirânico até que Teerã fique sozinho — disse o secretário em entrevista coletiva na sede do departamento, acrescentando que o Irã enfrenta uma escolha clara entre dois caminhos: — [O] isolamento global completo e uma economia de subsistência, ou um caminho de volta à normalidade, com a oportunidade de se reintegrar à economia global.
Segundo Bessent, o Tesouro americano “mapeou cada elo, cada facilitador e cada rede que o Irã usou para contrabandear petróleo e driblar as sanções”.
Ele afirmou que o Tesouro vai sancionar mais de 60 entidades, pessoas e embarcações em todo o mundo que permitem ao Irã obter tecnologia nuclear e de mísseis.
Disse, ainda, que a pasta vai impor sanções adicionais relacionadas aos setores de ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo no Irã.
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O secretário do Tesouro afirmou também que os EUA não têm um cronograma definido para essas negociações, mas que não possuem “paciência infinita”.
A mais complexa delas será com a China, maior compradora de petróleo iraniano e cujo sistema financeiro está amplamente imune à ameaça de sanções americanas.
Perguntado sobre o assunto, Bessent afirmou que "ninguém está acima do alcance das sanções americanas", mas não mencionou a China especificamente.
— Esta é uma campanha contínua para destruir todas as opções do Irã — disse.
— A campanha que iniciamos hoje ganhará força a cada dia que se seguir e não terminará até que este regime esteja sozinho.
Com os esforços para pôr fim à guerra com o Irã patinando, as declarações representam uma mudança de estratégia de Washington, que passa a priorizar sanções mais duras após ameaças de ataques militares.
Novas ondas de sanções, incluindo contra uma grande instituição financeira, serão anunciadas nos próximos dias e semanas, disse o secretário.
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Pouco depois, o ministro da Economia iraniano, Ali Madanizadeh, debochou dos anúncios e previu "mais uma derrota" para os EUA, afirmando que a República Islâmica tem um "plano de dois anos" para combater as novas investidas americanas.
— Eles fizeram tudo o que podiam para testar a determinação do povo iraniano e das autoridades do país, mas falharam todas as vezes.
Parece que desejavam sofrer mais uma derrota — disse Madanizadeh à televisão estatal.
“Os Estados Unidos não estão em uma posição econômica que lhes permita restringir ainda mais suas relações com outros países”, escreveu, por sua vez, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e principal negociador do Irã, nas redes sociais minutos antes da coletiva de Bessent.
Ao classificar a iniciativa americana como “retórica vazia”, ele afirmou que os parceiros comerciais do Irã “deixaram claro”, em mensagens enviadas ao governo iraniano, que “não levam essas declarações em consideração”.
Pequim, por sua vez, afirmou que quaisquer sanções dos EUA apenas agravarão as tensões com o Irã e não servirão aos interesses de nenhum dos lados.
O país, que compra a maior parte do petróleo iraniano, “tomará as medidas necessárias para proteger seus direitos e interesses legítimos”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian.
Em contrapartida, os Emirados Árabes Unidos disseram na semana passada que haviam cortado todos os laços econômicos com Teerã, enquanto os aliados dos EUA no Golfo dão impulso à estratégia de Washington.
A moeda iraniana também atingiu uma mínima histórica em relação ao dólar.
O rial caiu 4,5% desde que Trump anunciou, na semana passada, que pretendia ampliar a pressão econômica sobre Teerã.
A inflação anual está acima de 80%, aumentando a pressão sobre a população.
Até agora, os esforços americanos para isolar o Irã se concentraram em atores de menor destaque no setor petrolífero, com sanções contra pequenas refinarias privadas, portos e agentes.
Resiliência
A nova ofensiva ocorre enquanto Washington tenta pressionar Teerã a aceitar o fim da guerra nos termos americanos, após uma ampla campanha militar não ter alcançado esse objetivo.
A economia iraniana já enfrenta forte pressão, com um bloqueio naval dos EUA restringindo as exportações de petróleo.
Na semana passada, o presidente do Banco Central do Irã, Abdolnaser Hemmati, afirmou que as exportações de petróleo bruto do país “praticamente pararam”.
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O Irã, no entanto, já demonstrou no passado ser capaz de resistir às sanções, e a medida dos EUA corre o risco de ser respondida com uma nova rodada de ações militares.
Teerã, que bombardeou aliados dos EUA no Golfo Pérsico com milhares de mísseis e drones após o início da guerra, no fim de fevereiro, prometeu retaliar contra qualquer país que apoie os planos de Washington.
“O Irã considerará a participação ou o apoio de qualquer país à guerra econômica dos Estados Unidos contra o povo iraniano como um ato de guerra”, escreveu Mohsen Rezaee, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, no X no domingo.
O resultado será que “nem uma única gota de petróleo será exportada, nem pelo Estreito de Ormuz nem de qualquer outro ponto do Golfo Pérsico”, acrescentou ele.
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O Ministério das Relações Exteriores iraniano também já havia advertido os países a se absterem de aderir à campanha econômica dos EUA.
Em entrevista coletiva, o porta-voz da pasta, Esmail Baqai, disse que “qualquer cumplicidade com os EUA na execução de suas ações agressivas contra o Irã terá suas próprias consequências”.
Esforços diplomáticos
Bessent publicou no X que as sanções contra o Irã ocorrem depois de os EUA terem “desmantelado as capacidades militares do Irã, destruído quase 100% de suas fábricas militares e enterrado seu programa nuclear”.
Em resposta, o vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Kazem Gharibabadi, afirmou que “a narrativa não se sustenta”, indicando que a ação contra o Irã exige a mobilização de “todas as instituições e poderes” dos EUA.
“Isso é uma vitória ou o reconhecimento da derrota dos Estados Unidos?”, escreveu.
Enquanto isso, a Marinha britânica disse que um navio-tanque foi atingido por um projétil de origem desconhecida nesta segunda-feira, a cerca de 63 milhas náuticas a oeste de Yanbu, porto saudita no Mar Vermelho, provocando um incêndio no convés principal.
Segundo o comunicado, toda a tripulação está em segurança e não houve impacto ambiental.
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Em paralelo, os esforços diplomáticos para reduzir as tensões continuam.
O chefe do Exército do Paquistão, Asim Munir, um dos principais interlocutores nas negociações para pôr fim à guerra, visitou Teerã nesta segunda-feira para conversas com autoridades locais de alto escalão, informou o setor de comunicação das Forças Armadas em comunicado.
Munir esteve acompanhado pelo ministro do Interior, Mohsin Naqvi.
O ministro das Relações Exteriores de Omã visitará Teerã no dia seguinte para negociações entre os dois países que fazem fronteira com o Estreito de Ormuz, disse o porta-voz do ministério iraniano.
EUA e Israel desencadearam a guerra no Oriente Médio com uma onda de ataques contra o Irã em 28 de fevereiro, provocando retaliações iranianas em toda a região.
Um cessar-fogo iniciado em 8 de abril pôs fim a quase 40 dias de intensos bombardeios, mas o controle do Estreito de Ormuz logo surgiu como um ponto crítico central do conflito.
O Irã controla essa via vital para o comércio desde o início da guerra.
A reabertura do estreito tornou-se uma prioridade para os Estados Unidos, mas Teerã insiste que ele permanecerá fechado até que Washington suspenda o bloqueio naval aos portos iranianos, elimine as sanções ao petróleo e descongele os ativos iranianos no exterior.
Com New York Times e AFP.
