Após polêmica sobre apropriação cultural, Prada lança sandálias indianas feitas por artesãos locais; cada par custa R$ 4,4 mil
Quase um ano depois de enfrentar críticas por apresentar um calçado tradicional indiano sem reconhecer sua origem, a Prada voltou ao tema. A grife italiana lançou uma linha limitada de sandálias inspiradas nas tradicionais Kolhapuri, agora fabricadas na Índia por artesãos locais e acompanhadas de um programa de capacitação voltado à preservação do saber artesanal.
A nova coleção, vendida por cerca de 750 euros o par (cerca de R$ 4,4 mil), está disponível em 40 lojas da Prada ao redor do mundo e também online. Segundo a empresa, cada par é feito à mão por artesãos dos estados de Maharashtra e Karnataka, regiões historicamente ligadas à produção das Kolhapuri.
O movimento marca uma mudança de discurso da marca italiana após a controvérsia de junho do ano passado, quando modelos semelhantes desfilaram em Milão descritos apenas como "sandálias de couro", sem menção à raiz cultural indiana do design. A omissão gerou reação negativa e alimentou o debate sobre apropriação cultural na moda de luxo. Depois da repercussão, a Prada reconheceu publicamente a origem indiana da peça.
Agora, a marca tenta reposicionar essa narrativa.
Em apresentação da coleção, a Prada afirmou que a linha "combina técnicas tradicionais com design contemporâneo e materiais premium", criando "um diálogo entre a herança indiana e a expressão moderna do luxo".
Entre tradição artesanal e luxo global
Além da coleção, a empresa anunciou um programa de formação de três anos para 180 artesãos ligados à produção das sandálias Kolhapuri, distribuídos por oito distritos da Índia, segundo reportagem da BBC. Desenvolvida em parceria com dois institutos de design do país, a iniciativa terá módulos de seis meses, com possibilidade de alguns participantes seguirem formação na Prada Group Academy, na Itália.
Segundo Lorenzo Bertelli, chefe de responsabilidade social corporativa do Grupo Prada, o objetivo é fortalecer habilidades, preservar conhecimento tradicional e ajudar comunidades locais a manter o ofício.
Tanu Kashyap, diretora-geral do Instituto Nacional de Tecnologia da Moda, uma das instituições parceiras, afirmou que o programa poderá ampliar a presença de artesanatos tradicionais indianos nos mercados globais.
As sandálias Kolhapuri carregam séculos de história. Originárias da cidade de Kolhapur, no estado de Maharashtra, elas remontam ao século XII, são tradicionalmente feitas de couro e muitas vezes utilizam corantes naturais, características adaptadas ao clima quente da região. Em 2019, receberam do governo indiano o status de Indicação Geográfica, certificação que reconhece sua origem regional e autenticidade.
Sandálias tradicionais Kolhapuri
Nurphoto via AFP
Na Índia, porém, um par costuma custar entre 500 e 1.000 rúpias — algo entre R$ 26 e R$ 53, valor muito distante dos 750 euros cobrados pela versão da Prada.
É justamente nessa diferença que mora o debate. Há anos, estilistas e especialistas indianos discutem o uso de desenhos tradicionais por marcas internacionais, em meio a preocupações recorrentes sobre reconhecimento limitado aos artesãos e baixo retorno financeiro para quem, de fato, mantém viva a tradição.
