Após perder o neto, Deborah Colker estreia sua segunda ópera no Metropolitan Opera House de NY

 

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É o Día de Los Muertos no México, e o ano é 1957. O pintor Diego Rivera ainda lamenta sua viuvez, ocorrida três anos antes. Convencido pelo povo das ruas, ele é lembrado de que a data é celebrada para invocar aqueles que se foram, e assim Diego clama pelo retorno de Frida Kahlo, também pintora. Depois de cair, tomado pela vertigem, uma mulher misteriosa o ajuda a se levantar. Katrina, a guardiã dos mortos, tem uma mensagem para ele: ainda há tempo para um reencontro. Uma árvore está presente o tempo inteiro, remetendo ao corpo da amada.

“O último sonho de Frida e Diego”, ópera de realismo fantástico cuja primeira encenação é de 2022 e já apresentada em teatros de Chicago, Los Angeles, Santiago e outras partes, marcará a segunda incursão de Deborah Colker como diretora cênica numa produção do Metropolitan Opera House, em Nova York, a partir desta quarta-feira.

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Depois de ter levado “Ainamadar” ao palco do Met, produção que fora concebida para teatros ingleses e depois contratada pelo teatro nova-iorquino, agora a diretora e coreógrafa carioca encara o projeto de levantar do zero uma nova visão para a ópera criada pela compositora americana Gabriela Lena Frank, 53, e pelo poeta e dramaturgo cubano-americano Nilo Cruz.

Autores premiados

É uma dupla de peso: se Cruz ganhou em 2003 o Pulitzer com a peça “Anna in the Tropics”, Gabriela Lena Frank conquistou a versão musical do mesmo prêmio há exatamente uma semana, com “Picaflor: Um mito do futuro”, obra que remete a cosmologias peruanas (origem de sua mãe) para abordar uma catástrofe ambiental.

— Mesmo assim, eu pedi ao Nilo Cruz para mudar o último verso de uma canção do segundo ato. — conta Deborah, que, neste caso, remete a uma camada pessoal de sentimento em relação a essa obra. — Esse espetáculo é dedicado ao Theo (neto que a diretora perdeu neste ano, após todos seus 16 anos lidando com uma doença rara, a epidermólise bolhosa, feridas na pele e dor). Ele me levou a fazer esse espetáculo, me dando a mão e me dizendo: “Vovó, você tem que fazer isso”. Passei a acreditar fortemente que a vida continua, na eternidade da vida e do amor.

Deborah conta que esse sentimento a fez iluminar a morte de Rivera no segundo ato por um aspecto positivo.

— Ele quer se encontrar com Frida, ele está cansado disso tudo, e minha intenção foi marcar essa força de como as memórias vivem dentro de nós. Peter Gelb (diretor do Met) falou que essa ópera deu a Diego e Frida a possibilidade de finalmente estarem juntos e em paz.

Para isso, a diretora convenceu Nilo Cruz a mudar um pouco os versos entre o segundo e o terceiro ato.

— Para mim, trabalhar com teatro é importante justamente pelo senso de colaboração. Deborah me disse que gostaria que eu falasse dessa mudança de dimensão em termos de eternidade e de amor, uma vez que a morte já tinha ocorrido e estava no passado — conta ele. — A parte do amor não me convenceu tanto, e eu até estava bem satisfeito com o que já tinha escrito, mas ela me convenceu a levar as coisas para um lado mais positivo. Para mim, o que me encanta em Deborah é que ela não é da habitual escola realista de teatro dos EUA. Em vez disso, ela está muito mais preocupada em criar imagens, e nunca mudou a essência do que estava escrito. Isso eleva a palavra a um outro nível muito mais operístico, criando uma união perfeita entre palavra, imagem e som.

Sua parceira na autoria do espetáculo endossa:

— O que me impressiona demais na Deborah é que as pinturas estão ali em cena. Ela trouxe o colorido das pinturas e dos murais de uma forma muito natural, e nenhum palco parece muito pequeno para ela — diz a compositora Gabriela Lena Frank, filha de lituano com peruana que se diz impactada pelas obras do casal mexicano desde os 5 anos.

Deborah também conta que traz marcas de Rivera e Frida desde o início da carreira. Salienta que o caráter político de Diego Rivera sempre a impressionou, enquanto a estética sem filtros de Frida Kahlo abriu seus olhos, mesmo com a pintora tendo vivendo a maior parte dos seus anos num corpo repleto de lesões, causadas pela poliomielite na infância e pelas fraturas advindas de um grave acidente de ônibus. O espetáculo não se pretende biográfico, segundo Deborah, mas é calcado numa pesquisa estética que a levou a locais como a Casa Azul, museu de Frida na capital mexicana, e nos murais de Rivera sobre a indústria de Detroit.

Mostra no MoMA

Diferentemente de “Ainadamar”, as dimensões em “Frida e Diego” são bem maiores. São 64 cantores, em vez de 18 vozes, com regência do titular do Met, o francês Yannick Nézet-Seguin. As dificuldades técnicas vieram da ambição de construir um cemitério e altares cheios de objetos pequenos trazidos do México, sem colagens. Jon Bausor, cenógrafo e figurinista britânico, apostou em tecidos e texturas da estética mexicana.

— A chegada ao mundo dos mortos é sempre a partir de fendas, esse mundo dos mortos que a gente não sabe como é, mas que remete aos desertos craquelados dos desenhos de Frida e também ao corpo craquelado de Frida. — diz Deborah, que se apoia muito na experiência adquirida na casa — É muito bom criar algo do zero já tendo mais intimidade com essa gigantesca fábrica de ópera. Agora eu já conheço esse palco, sei como fazer a luz, conheço os departamentos, toda uma gente muito boa. Eu pedi dez ensaios com o coro, quando ia ter só três, e o Peter Gelb me deu a maior moral.

São diversos os abraços que a artista carioca recebe de Nova York. O programa do Met Opera foi integralmente abraçado por uma exposição no MoMA com o mesmo nome da ópera.