Após o boom da COP 30, período chuvoso atrapalha vendas na Nova Doca
Seis meses após a inauguração dos cinco quiosques construídos no canteiro central da Nova Doca, três fecharam as portas. Os motivos são dois, dizem os permissionários que permaneceram: a baixa frequência de clientes e o medo da violência urbana.
Todos os estabelecimentos sofreram arrombamentos e furtos. No entanto, os que mantiveram os quiosques funcionando, acreditam que logo que o período chuvoso passar, o movimento de consumidores volta a melhorar. Na noite chuvosa da última sexta-feira (10), a reportagem ouviu pessoas que passeavam pela avenida, elas disseram frequentar pouco o local, mas quando vão, gostam.
Pela primeira vez, em seis meses após a inauguração da Nova Doca, o casal Fernanda Nunes e Lucas Pantoja foram passear na avenida, e gostaram (Cristino Martins / O Liberal)
Fernanda Nunes trabalha como esteticista no shopping que funciona na avenida, e tirou a noite de sexta-feira (10) para curtir a Doca. Em seis meses, desde a reinauguração da via pelos governos estadual e municipal, era a primeira vez que ela andava no canteiro central.
"Sim, só hoje, eu nos dei esse direito. Pela primeira vez, eu dei essa oportunidade para gente sair da correria do dia a dia e parar um pouquinho para desestressar, conversar, sair da rotina", disse ela, na companhia do noivo, o eletricista Lucas Pantoja.
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Perguntados se estavam gostando do ambiente, em um dos quiosques abertos, Fernanda respondeu: “Eu achei bom, vale pelo ambiente, o local em que nós estamos, achei legal”, disse ela, e Lucas completou: “Hoje em dia, a gente se sente bem mais à vontade para estar aqui, o ambiente, a qualidade sonora, a gente passa a se sentir mais confortável”.
Quiosque do canteiro central da avenida Doca de Souza Franco sem clientes na noite de sexta-feira (10) em Belém (Cristino Martins / O Liberal)
Dificuldades financeiras
A satisfação com o passeio na Doca mostrada pelo casal Fernanda e Lucas é justamente o que Cristiane Nery quer ver no maior número de pessoas, pois ela reclamou do fraco movimento no quiosque que adquiriu. “Quando fui selecionada pelo chamamento público, foi um sonho para mim, eu nunca tinha tido um espaço físico, essa é a minha primeira vez, e devo isso ao Sebrae, por toda a orientação e apoio que recebi. Mas, agora estou com dificuldades. A chuva atrapalha demais quem vive de lanches nas ruas”, disse a empreendedora, que vende pratos e salgados com camarão rosa, sucos e água.
"Tenho despesas com dois funcionários de carteira assinada, meu produto é altamente perecível, perco com facilidade se não vendo no prazo. Já pensei várias vezes em entregar o ponto porque ainda não consegui alívio, tenho dívidas, mas estou segurando por acreditar que o movimento voltará a crescer, de novo”, afirmou Cristiane Nery.
Ela defende que o Município por causa das fortes chuvas, isente do pagamento da taxa municipal, de janeiro a abril, quem trabalha com alimentação fora de casa. “Não tem como a gente ficar em dia. As despesas superam a receita”, enfatizou Cristiane, que disse ter de pagar R$ 2.700, mensalmente, à prefeitura de Belém, pelo quiosque.
Público aumentou no quiosque, após a venda de bebida alcóólica e o incremento de música ao vivo. "É a aptidão da Doca", diz empreendedor Rudival Torres. (Cristino Martins / O Liberal)
Rudival Torres é o proprietário do outro único quiosque em funcionamento na Nova Doca. Perguntado sobre como conseguiu o quiosque, ele acredita que foi em razão de sua experiência como empreendedor e pelo volume de cursos de qualificação feitos junto ao Sebrae Pará.
"Nós inauguramos pouco tempo antes da COP30 - 30ª Conferência Mundial sobre Mudança do Clima, realizada em Belém, em novembro de 2025 -, foi uma operação apertada porque com as obras na Doca, nós tivemos pouco tempo para nos mobilizar para funcionar", disse Rudival.
‘Nesse período de chuva a clientela cai mesmo’, diz empreendedor
Ele salientou: "Aceitamos o desafio do governo municipal, e contamos com a curadoria do Sebrae para abrir e conseguimos inaugurar. Tivemos o boom da COP, um movimento fantástico, em novembro, dezembro, e em um pedacinho de janeiro, mas no final de ano sai muita gente da cidade, aí vêm as férias, a chuva, o carnaval. Quem trabalha com lanches de rua, em Belém, sabe, nesse período a clientela cai mesmo", disse Rudival Torres, que vende pizzas artesanais feitas na hora, e sucos regionais, água e, há pouco tempo, incluiu no cardápio a bebida alcoólica, o que até então era proíbido.
Rudival contou que, na época da COP, foi proibida a venda de bebidas alcoólicas nos quiosques, o que foi aceito pelos permissionários em regras firmadas em contrato. "Mas, a Doca tem essa aptidão, você tem um chopinho, uma música ao vivo, um petisco, sempre foi assim aqui na Doca. A gente não vendia bebida ao público, aí, as pessoas vinham para as mesas com suas caixas coolers de bebidas e bebiam mesmo. Então, fomos à Secretaria Executiva de Desoneração e Parcerias, e o secretário foi acessível, entendeu e liberou para gente. E aí a gente botou a música, às sextas-feiras. É tradição aqui, toda sexta-feira, a gente faz violão, e está muito legal", contou Rudival Torres.
Empreendedor experiente, ele também já providenciou um toldo para o quiosque, que deve chegar nas próximas semanas."Foi a última reivindicação ao secretário. Ele nos deu aval essa semana para colocar o toldo e isso vai nos ajudar. Todo dia aqui em Belém chove e todo dia faz sol, também", disse ele sorrindo.
"Eu acredito que a gente vai melhorar. Muitos amigos, parceiros, de outros negócios que pegaram quiosques, não esperaram o momento, nem sentaram na mesa de negociação (com a secretaria) e fecharam. Inclusive, hoje eu tive uma reunião com o Sebrae, que faz a curadoria daqui, e eu falei para eles: 'olha, o pessoal está desistindo, eu vou pegar'. Eu brinquei dizendo isso, mas é verdade, é um espaço que vai se desenvolver”, aposta Rudival.
Se depender do casal Fernanda e Lucas, Rudival está com a razão. Os dois jovens aprovaram a nova configuração da Doca. “Eu acho bacana porque eu vejo as pessoas fazendo exercício, correndo, andando naquela bike elétrica, jogando basquete. Então eu acho bastante interessante”, disse ela. Lucas assinalou: "É uma avenida acolhedora, a pessoa pode sair do trabalho, sair da escola, sair de qualquer canto e marcar um ponto de encontro aqui e sentar para conversar, interagir”.
NOTA DA PREFEITURA DE BELÉM
Procurada sobre os pontos apresentados pelos permissionários, a Prefeitura de Belém enviou a seguinte nota ao Grupo Liberal: "A Prefeitura de Belém informa que os espaços da Nova Doca passam por um cronograma regular de manutenção no mobiliário e nos equipamentos públicos instalados, como bancos e bebedouros, além de receber reparos de iluminação pública e serviços de limpeza do canal. Em relação à segurança, embora seja uma atribuição também da Polícia Militar, a Prefeitura informa que o perímetro da Nova Doca conta com rondas periódicas realizadas pela Guarda Municipal de Belém (GMB), com o objetivo de reforçar a segurança e coibir práticas criminosas na área. Sobre os quiosques, a Prefeitura informa ainda que finaliza um planejamento estratégico para que esses espaços sejam reocupados. Detalhes serão divulgados em breve nos canais oficiais da Prefeitura."
