Após episódios nos EUA e na China, professor da USP explica falhas dos robôs autônomos: 'Erro também é humano'
Robôs estão falhando, ou estamos apenas vendo, pela primeira vez, os limites de uma tecnologia que ainda aprende a lidar com o mundo real? Nas últimas semanas, vídeos de máquinas autônomas em pane circularam pelas redes sociais e chamaram atenção em diferentes países.
Vídeo: Pane em táxis sem motorista deixa passageiros presos dentro de veículos na China
Deu a louca nos robôs? Após falhas e ataques, moradores de Chicago fazem abaixo-assinado contra entregas autônomas
Em Wuhan, na China, veículos autônomos da Baidu ficaram parados no meio da rua após uma falha no sistema, deixando passageiros presos. Em outra cidade chinesa, um robô atingiu o rosto de uma criança durante uma apresentação pública. Já em Chicago, um robô de entregas destruiu um ponto de ônibus, cena que viralizou e desencadeou uma reação direta da população.
Nos Estados Unidos, o episódio impulsionou abaixo-assinados e pressão política contra a expansão desses equipamentos. Levantamento conduzido pelo gabinete do vereador Daniel La Spata apontou que mais de 83% dos moradores consultados rejeitam a ampliação do serviço. Um movimento liderado por residentes reúne milhares de assinaturas e cita riscos à segurança, obstrução de calçadas e falhas recorrentes.
Assista: Robô 'dançarino' acerta criança durante apresentação na China, e vídeo viraliza nas redes
O que está por trás das falhas
Ao GLOBO, o professor Thiago Boaventura, da Universidade de São Paulo, explicou que os episódios não devem ser interpretados como um descontrole das máquinas, mas como resultado direto das limitações técnicas atuais e da complexidade do ambiente urbano.
— Quando a gente vê um robô falhando, muitas vezes não é uma única causa. É uma combinação de fatores: sensores, interpretação do ambiente e tomada de decisão.
Com formação em engenharia e doutorado em robótica na Europa, o pesquisador lidera o Grupo de Robôs com Pernas na Escola de Engenharia de São Carlos e coordena projetos com empresas e instituições, incluindo um consórcio com a Petrobras para uso de robôs em inspeções industriais.
Assista:
'Cão robô' da USP caminha pelo campus e interage com criança
Segundo ele, o funcionamento desses sistemas depende de uma cadeia sofisticada de processos: sensores que captam o ambiente, algoritmos que interpretam essas informações e sistemas de decisão que definem o comportamento do robô em tempo real.
— O vidro, por exemplo, é um grande desafio. Muitas vezes a câmera não consegue identificar e o sensor a laser simplesmente atravessa o material. Para o robô, aquilo pode parecer um espaço livre.
Ele explica que, no caso de Chicago, a decisão tomada pela máquina pode ter sido coerente dentro da lógica do sistema.
— Ali, provavelmente, o robô tomou uma decisão lógica com base nos dados que tinha, entre meio fio e o restante da calçada. Ele só não viu o vidro.
Vídeo viraliza: Robô de entregas 'fora de controle' destrói ponto de ônibus em Chicago
Quando o erro da máquina é humano
Boaventura destacou que, por trás de cada falha, existe sempre um componente humano. Os robôs operam a partir de regras, limites e previsões estabelecidas por engenheiros, e não possuem entendimento próprio sobre o mundo.
— Tudo que o robô faz foi programado. Então, quando ele falha, muitas vezes é porque houve uma limitação ou uma decisão humana no desenvolvimento daquele sistema.
Segundo ele, empresas tentam prever praticamente todos os cenários possíveis antes de colocar essas máquinas em operação. Ainda assim, o ambiente real impõe situações novas.
— É muito raro aparecer algo totalmente inesperado, mas acontece. O mundo real sempre traz situações que não estavam previstas.
O pesquisador explica que, nesses casos, o comportamento padrão dos sistemas é conservador.
— Quando o robô não sabe o que fazer, ele para e pede ajuda. Aí entra o humano, remotamente, para resolver.
Ele compara o estágio atual da robótica com o histórico da aviação, que se tornou altamente segura após décadas de aprendizado com falhas.
— Cada erro deixa um legado. Você aprende com aquilo e melhora o sistema. A robótica está passando por esse mesmo processo de amadurecimento.
Medo, rejeição e percepção pública
A reação negativa observada em Chicago também revela um aspecto social importante. Ao GLOBO, o professor afirmou que há uma tendência de intolerância maior ao erro quando ele vem de uma máquina.
— A gente aceita que o ser humano erre. Mas a máquina não pode errar. Existe uma expectativa de perfeição.
Segundo ele, o desconhecimento sobre o funcionamento desses sistemas intensifica a sensação de insegurança.
Vídeo: Mulher hospitalizada após se assustar e discutir com robô humanoide em Macau passa bem, diz polícia
— Para muitas pessoas, isso é uma caixa-preta. Elas não entendem como funciona, então qualquer comportamento inesperado gera medo.
O pesquisador também aponta que o impacto simbólico dessas falhas amplia a repercussão.
— Uma pessoa pode bater em um vidro e ninguém comenta. Mas quando um robô faz isso, vira notícia.
Onde a tecnologia já é realidade
Boaventura destacou que, em países desenvolvidos, o uso de robôs já deixou de ser tendência e passou a ser necessidade. Segundo ele, fatores demográficos têm impulsionado essa adoção.
Faxina high tech: China lança primeiro serviço de limpeza doméstica com robôs
Nem humanos nem câmeras: gigantes da tecnologia recorrem a cães robôs para proteger dados
— Em muitos países, já existe escassez de mão de obra. A população está envelhecendo, e não tem gente suficiente para assumir todos os trabalhos.
Ele explica que, nesses contextos, a automação não substitui necessariamente trabalhadores, mas preenche lacunas.
Empresas australianas criam robô em formato de aranha que constrói casas em um dia: 'velocidade de 100 pedreiros'
— Vai chegar um momento em que não vai ter gente suficiente para fazer certas atividades. O robô não entra para tirar alguém, mas para suprir uma falta.
Galerias Relacionadas
r
E o Brasil?
No Brasil, a adoção desse tipo de tecnologia ainda é limitada e enfrentaria obstáculos adicionais. O professor aponta que a infraestrutura urbana representa um desafio relevante.
— Nossas calçadas são muito ruins para robôs. Tem buraco, desnível, obstáculos. Muitas vezes o robô simplesmente não conseguiria operar.
Ele também menciona questões culturais e de segurança.
— Dependendo do contexto, existe até o risco de alguém pegar o robô. Isso precisa ser considerado.
O futuro entre humanos e máquinas
Boaventura afirmou que a tendência é de expansão do uso de robôs, impulsionada por fatores econômicos, tecnológicos e sociais.
— A expectativa é que, daqui a alguns anos, a gente veja esses sistemas com muito mais frequência, em várias atividades do dia a dia.
Esse processo, no entanto, será gradual e acompanhado de adaptação social.
— A primeira vez assusta. Depois você se acostuma. Isso é natural.
Para ele, uma das principais funções desses sistemas será assumir atividades consideradas perigosas, repetitivas ou insalubres para humanos.
— O ideal é que os robôs sejam usados em tarefas que colocam pessoas em risco, como inspeções industriais ou limpeza de estruturas complexas, como tanques de petróleo.
Entre panes, vídeos virais e reações públicas, o avanço dos robôs pelo mundo parece menos um sinal de descontrole e mais um retrato de uma tecnologia que começa, de fato, a sair do laboratório para enfrentar seu maior desafio: conviver com pessoas.
