Robôs humanoides Divulgação / UBTech Robotics
Depois de anos desenvolvendo robôs capazes de correr, dançar e dar cambalhotas, empresas chinesas agora investem bilhões para criar o "cérebro" para os humanoides, com sistemas de inteligência artificial que permitam a essas máquinas aprender novas tarefas, compreender o ambiente ao redor e agir sem precisar ser programadas para cada atividade.
À medida que a concorrência reduz os preços dos equipamentos, as empresas de robótica concluíram que "a margem de lucro não virá do hardware, mas do cérebro", afirmou à Reuters Dermot McGrath, fundador da consultoria de tecnologia ZenGen Labs, sediada em Xangai. Isso faz abrir uma nova frente na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.
Empresas americanas lideram em alguns sistemas avançados de IA para robôs, enquanto desenvolvedoras chinesas apostam que sua força industrial e o acesso a dados de treinamento do mundo real poderão ajudá-las a competir, segundo avaliação baseada em entrevistas da Reuters com fundadores e altos executivos de cinco empresas chinesas de robótica, além de analistas do setor.
O país que conseguir combinar melhor inteligência artificial e máquinas poderá conquistar vantagem na automação de fábricas e operações logísticas, com potencial para transformar a produtividade industrial e o mercado global de tecnologias robóticas. Corrida pela inteligência dos robôs
Startups americanas estão desenvolvendo softwares destinados a ensinar diferentes habilidades aos robôs sem a necessidade de treiná-los novamente de forma extensiva a cada nova tarefa. A Generalist, por exemplo, diz que seu modelo GEN-1.5 conseguiu concluir cerca de 60% de tarefas simples depois de assistir a demonstrações com duração de três a 12 segundos.
Já a chinesa X Square publicou pesquisas que mostram robôs adquirindo habilidades de manipulação de objetos a partir de um único vídeo de uma pessoa realizando a atividade, sem que o modelo precise ser treinado novamente para cada tarefa. "Queremos que os robôs deixem de ser comandados por códigos e passem a ser guiados pelo bom senso", afirmou Yang Qian, cofundador e diretor de operações da X Square.
Enquanto as desenvolvedoras americanas se beneficiam de pesquisas avançadas em IA e de maior acesso a chips de processamento potentes, as empresas chinesas podem trabalhar diretamente com fabricantes de robôs e clientes industriais para testar e aprimorar seus sistemas. Para serem treinados, os robôs precisam de exemplos de interações físicas, desde segurar objetos até manusear fios flexíveis.
"O cérebro é, de fato, o elo mais fraco de todo o conjunto de tecnologias que compõem um robô", afirmou Gao Yang, cofundador da Spirit AI. As empresas chinesas estão, então, adotando diferentes estratégias para coletar essas informações.
Segundo a Reuters, algumas contratam pessoas para demonstrar tarefas, outras recorrem a simulações em computador, enquanto há também aquelas que combinam os dois métodos. A Spirit AI, por exemplo, contratou cerca de mil pessoas para registrar atividades cotidianas e industriais.
Já a ACE Robotics utiliza sensores vestíveis para capturar os movimentos dos trabalhadores e a força aplicada pelas mãos em lojas e hotéis. A Robbyant, divisão de robótica do grupo Ant, informou que treinou um modelo com 160 mil horas de material, incluindo 50 mil horas de movimentos de robôs orientados por humanos.
A empresa também treinou seu software com 20 configurações de robôs de 17 marcas, com o objetivo de utilizar a mesma IA em diferentes máquinas. A DexForce segue outra abordagem, utilizando ambientes gerados por computador para ensinar os robôs.
Segundo Nicole Yang, diretora de operações da empresa, algumas tarefas industriais podem ser preparadas para implementação em um período de seis a oito horas. A companhia também relatou à Reuters índices de sucesso superiores a 99,9% em operações específicas que exigem precisão.
As simulações, porém, não conseguem reproduzir perfeitamente as interações físicas, afirmou à Reuters Jerry Wang, da empresa de inteligência espacial Manycore Tech, que desenvolve ambientes simulados para treinamento de IA. "A qualidade dos dados é mais importante do que a diversidade dos dados e do que simplesmente coletar informações em grande escala", disse Yang, da X Square.
De acordo com a Reuters, startups chinesas especializadas, incluindo X Square, Galaxea e Spirit AI, já alcançaram avaliações de mercado próximas de US$ 3 bilhões cada, segundo informações divulgadas pelas próprias empresas. Fabricantes já estabelecidas também estão investindo nessa área.
A UBTech, listada na Bolsa de Hong Kong, anunciou uma vaga para cientista-chefe responsável pelo desenvolvimento de modelos de IA, com remuneração de até 124 milhões de yuans (US$ 18 milhões), incluindo participação acionária e benefícios. A Unitree, sediada em Hangzhou e uma das maiores fabricantes de robôs humanoides do mundo em volume de entregas, tem cerca de 30 pesquisadores desenvolvendo IA capaz de prever o comportamento de objetos, segundo uma fonte.
Mas empresas chinesas de robótica também enfrentam outros obstáculos, incluindo a escassez de chips avançados da Nvidia, provocada pelas restrições americanas à exportação. O objetivo de longo prazo é desenvolver softwares capazes de aprender novas atividades sem precisar de adaptações extensivas.
O sucesso, porém, dependerá de como a mesma IA se comporta em diferentes empresas e ambientes de trabalho. Para isso, será necessário treinar modelos cada vez mais potentes, que exigem chips avançados.
Além de tentar reduzir suas necessidades de processamento por meio de modelos mais eficientes, fabricantes nacionais de chips, incluindo a Huawei, estão desenvolvendo alternativas aos equipamentos da Nvidia. Ainda não está claro, porém, até que ponto esses esforços conseguirão compensar a escassez de componentes.
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