Após assinatura de memorando entre EUA e Irã, Netanyahu quer influenciar negociações para acordo final, diz TV
Depois da assinatura de um memorando entre EUA e Irã para encerrar a guerra lançada em fevereiro e abrir caminho para um acordo definitivo, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, pretende usar sua influência em Washington e o poderoso lobby israelense para influenciar o resultado final das negociações. De acordo com a rede americana CNN, ele quer deixar evidente que não concorda com os termos do plano, considerado um “desastre total” no meio político israelense.
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Segundo a CNN, o plano de Netanyahu é fazer com que figuras com espaço na mídia alinhadas a Israel tentem moldar o discurso a seu favor, atacando pontos específicos do memorando. Um deles é o plano para a reconstrução do Irã, estimado em US$ 300 bilhões e que contará com a participação de “atores regionais”, já na mira dos conservadores.
Na quarta-feira, Mark Levin, podcaster e comentarista da Fox News, afirmou que os EUA deveriam ter rejeitado qualquer demanda financeira de Teerã, dizendo que isso era “muito absurdo para entender”.
“Independentemente de como esse fundo secreto for arrecadado ou distribuído, aqui estamos nós, nos comprometendo a ajudar a reconstruir o regime terrorista que presumivelmente acabamos de destruir. Além disso, eu pensava que tínhamos atacado estruturas e alvos militares, não locais civis”, escreveu na rede social X.
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O também comentarista da Fox News Brian Kilmeade, conhecido por suas posições pró-Israel, questinou na quarta-feira se “ as pessoas que negociaram isso informaram o presidente (Donald Trump) sobre o conteúdo da página e meia que ele lerá publicamente na sexta-feira". Sua convidada, Rebeccah Heinrichs, do neoconservador Hudson Institute, concordou, e disse “que este memorando de entendimento é pior do que não tê-lo”.
A tarefa do premier não é simples. A opinião pública americana é majoritariamente contra a guerra — uma sondagem da própria Fox News mostrou que 64% dos entrevistados reprovam a forma como Trump conduziu o conflito —, e até mesmo a Casa Branca pareceu aliviada com o memorando, a alguns meses das eleições legislativas. As opiniões sobre Israel mudaram para pior em tempos recentes, especialmente por causa da guerra em Gaza, e muitos afirmam que a “Operação Fúria Épica” foi um conflito travado em nome do governo israelense. Neste cenário, a percepção geral de que a negociação com os iranianos está sendo influenciada por Netanyahu não seria exatamente positiva.
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Em outra frente, Netanyahu pretende, de acordo com a CNN, usar o poderoso lobby pró-Israel para que aliados no Congresso tentem influenciar os termos finais de um acordo com o Irã. Mais uma vez, a tarefa não será simples: nem mesmo nomes cuja fidelidade com o Estado de Israel jamais foi questionada, como o senador republicano Lindsey Graham, se levantaram contra as negociações, previstas para começarem nesta sexta-feira.
“Após essa discussão, é minha opinião que a assinatura do MOU (Memorando de Entendimento) será benéfica para os Estados Unidos, na medida em que o Estreito de Ormuz começará a se abrir, e as hostilidades com o Irã cessarão”, escreveu no X. “Se os Estados Unidos conseguirão ou não chegar a um acordo aceitável e verificável com o Irã sobre seu programa nuclear e outras questões ainda está por ser determinado, mas vejo pouca desvantagem em tentar.”
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O anúncio do memorando entre EUA e Irã, no momento mais tenso desde o anúncio de um cessar-fogo no início de abril, foi tratado como um desastre completo por Israel, seja por governistas, seja pela oposição. Ali, o argumento que reina é que os objetivos do conflito — eliminar a capacidade nuclear e os arsenais de mísseis balísticos do Irã e a mudança de regime — passaram longe de serem atingidos, e que os americanos quiseram se livrar de qualquer forma da guerra, e o fizeram sem ouvir os israelenses.
A inclusão de uma pausa nos combates no Líbano no plano foi outro golpe: os israelenses ocupam cerca de 20% do território do país árabe, sob alegação de criar uma “zona tampão” na fronteira, e não estão dispostos a interromper a ofensiva contra o Hezbollah. Em editorial, o jornal Times of Israel chamou o plano preliminar de “capitulação desastrosa”. Yair Lapid, líder da oposição e candidato ao emprego de Netanyahu nas próximas eleições, sugeriu que o premier permitiu que o país se tornasse um “protetorado completo”. Ao New York Times, Chuck Freilich, ex-conselheiro de segurança nacional, foi irônico ao dizer que o conflito conseguiu, afinal, o objetivo de “remodelar” a região.
— O Irã saiu fortalecido e acredito que agora é a potência hegemônica regional — acrescentou. — Eles enfrentaram os EUA, a superpotência global. Eles podem ter mísseis, e não há nada no acordo sobre a questão nuclear, exceto que conversaremos sobre isso. Esta é uma vitória iraniana sobre os EUA e Israel.
