Apesar do governo Trump, cientistas do Brasil e dos EUA mantêm cooperação para transição energética de pé
Se a parceria para a transição energética com os Estados Unidos anunciada em 2024 pelo governo Biden não vingou com a gestão de Donald Trump, iniciativas de cooperação entre cientistas dos dois países continuam em vigor. Há mais de quatro anos, pesquisadores do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e colegas da Universidade de Maryland trabalham juntos desenvolvendo cenários climáticos e energéticos para dar subsídio a análises sobre impactos do aquecimento global e a políticas para o uso de energia limpa no Brasil e no mundo.
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Baseados em modelos computacionais, os pesquisadores da UFRJ e do Centro para Sustentabilidade Global (CGS, na sigla em inglês) traçam projeções para a evolução das emissões de gases de efeito estufa até o ano 2100.
—Com a análise de trajetórias como crescimento econômico, crescimento populacional, desenvolvimento tecnológico, avaliamos como o sistema energético vai migrar para um sistema menos carbono intensivo diante de diferentes cenários — diz o professor André Lucena, do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ.
O resultado dos trabalhos ajuda climatologistas do chamado Grupo 1 do IPCC, o painel do clima da ONU, a analisar aumento da temperatura global e seus efeitos futuros sobre regimes de chuva, eventos extremos e a elevação do nível do mar.
Na etapa seguinte, cientistas do chamado Grupo 2 têm subsídios para projetar como as mudanças climáticas podem afetar a agricultura, a biodiversidade, a vida nas cidades, a disponibilidade de água e a segurança alimentar, entre outros tópicos.
Por fim, o Grupo 3 analisa caminhos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, com, por exemplo, medidas para redução do uso de combustíveis fósseis, adoção de tecnologias de baixo carbono e mudanças no uso da terra.
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Acordo com a Califórnia
Com a integração de dados, a parceria de brasileiros e americanos colabora para ambos os lados.
—Nós os ajudamos a compreender as particularidades das emissões do Brasil, especialmente em áreas como agropecuária, uso da terra e desmatamento, que têm peso central aqui — conta André Lucena.
Para calibrar as próprias modelagens, o grupo brasileiro utiliza os cenários globais produzidos pelos pesquisadores de Maryland.
As equipes realizam reuniões mensais e publicam conjuntamente estudos em revistas científicas internacionais. Um deles, ao analisar diferentes caminhos para o Brasil atingir emissões líquidas zero de CO² até 2050, compara cenários baseados em eletrificação do transporte e no uso de biocombustíveis. A conclusão é de que o país tem vantagens competitivas na bioenergia, especialmente em etanol e biocombustíveis avançados, que podem reduzir os custos da transição energética.
O estudo destaca o papel de processos de captura de carbono na geração de bioenergia. E afirma que zerar o desmatamento ilegal e recuperar pastagens degradadas são condições essenciais para cumprir as metas climáticas brasileiras.
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Assinada em novembro de 2024 na esteira da reunião do G20 no Brasil, no fim do mandato do presidente Joe Biden, a chamada Nova Parceria Brasil-EUA para a Transição Energética saiu do radar com a chegada de Donald Trump à Casa Branca e a retirada dos EUA do Acordo de Paris.
— Trump está dando marcha a ré no que Biden fez (em relação às medidas de descarbonização da economia) — diz Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do ClimaInfo, integrante da rede Observatório do Clima.
Em Brasília, o Ministério das Relações Exteriores confirma que as negociações não avançaram. O Ministério de Minas e Energia não respondeu aos questionamentos do Valor. Do lado americano, a nota divulgada na ocasião do fechamento da parceria não está mais disponível no site da Casa Branca.
Na assinatura, o documento previa três pilares para atuação: produção e implantação de energia limpa; desenvolvimento da cadeia de suprimentos de tecnologias de energia limpa; e industrialização verde.
Em meio ao recuo da Casa Branca, o Ministério do Meio Ambiente e o governo da Califórnia assinaram, em setembro passado, um memorando de entendimento para intercâmbio técnico e troca de experiências em áreas como mercado de carbono, energia limpa, transporte sustentável, adaptação de cidades às mudanças climáticas, economia circular e outras ações voltadas à mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
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Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o plano de ação para implementar o memorando vem sendo discutido entre as duas partes e está “em vias de finalização”.
“Enquanto o plano de trabalho é finalizado, deverão ser realizados em breve diálogos sobre a redução de emissões de metano, gestão de resíduos e economia circular”, diz o órgão em nota.
As conversas sobre a experiência do mercado regulado de carbono criado pelo governo californiano vêm sendo conduzidas pela Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono no Ministério da Fazenda.
