Apesar de queda de 13% no ano, preço do maracujá continua pesando no bolso de consumidores de Belém

 

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Apesar de registrar queda de 13,41% no primeiro trimestre de 2026, o preço do maracujá continua pesando no bolso de feirantes e consumidores em Belém, segundo dados do Dieese Pará. Em março, o quilo da fruta foi vendido, em média, a R$ 9,17 — ainda abaixo dos R$ 10,59 de dezembro, mas considerado alto por comerciantes do Complexo do Guamá, que relatam aumento no custo de compra, redução na margem de lucro e repasse ao consumidor, com a polpa chegando a R$ 15. 


Segundo a Central de Abastecimento do Pará (Ceasa), a maior parte do maracujá comercializado no estado é de origem local, enquanto especialistas apontam entraves estruturais — como logística, clima e organização da cadeia produtiva — para explicar por que a queda nos preços médios não chega com a mesma intensidade ao consumidor final.


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(Foto: Carmem Helena)


Queda nos indicadores não alivia bolso


De acordo com o Dieese Pará (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o preço médio do quilo do maracujá em Belém caiu 3,37% de fevereiro para março de 2026. No acumulado do ano, a retração chega a 13,41%, enquanto em 12 meses a redução é de 6,05%.


Mesmo assim, o economista e supervisor técnico do departamento, Everson Costa, explica que o cenário de safra — que normalmente ocorre entre o fim do ano e maio — ajuda a pressionar os preços para baixo, mas não garante alívio uniforme.


“A gente tá nesse momento no pico da safra do maracujá [...] então isso justifica essas reduções que a nossa pesquisa tá apontando”, afirma. 


Ele pondera, no entanto, que a redução não é sentida por todos. “Essas quedas percentuais talvez não consigam chegar a todos os cantos do estado por conta de fatores estruturais.”


(Foto: Carmem Helena)


Entre esses fatores, Costa destaca os custos logísticos e as dificuldades de escoamento.


“O custo do transporte e da distribuição é um grande entrave [...] aliado às condições climáticas da nossa região amazônica”, diz, citando o impacto das chuvas no preço final.


Produção regional domina mercado


Dados da Ceasa (Central de Abastecimento do Pará) reforçam que o Pará depende pouco de outros estados para abastecimento. Segundo o diretor técnico do órgão, Denivaldo Pinheiro, 95% do maracujá comercializado é produzido localmente.


“Em 2025, foram mais de 5 mil toneladas comercializadas, sendo 4.875 toneladas apenas da produção regional”, detalha.


O restante, segundo ele, veio principalmente da Bahia, Pernambuco e São Paulo.


(Foto: Carmem Helena)


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Cadeia desorganizada encarece produto


Para Everson Costa, um dos principais problemas está na falta de organização da cadeia produtiva.


“Quando você não tem grandes cooperativas ou centros de distribuição, e há muitos atravessadores, isso diminui o impacto da safra e pode até potencializar aumentos”, explica.


O engenheiro florestal Ben Hur Borges também aponta dificuldades históricas na estrutura produtiva do estado. Segundo ele, iniciativas anteriores para fortalecer a cadeia do maracujá não avançaram por falta de comprometimento e organização.


“Faltou maturidade para os produtores paraenses, que acabaram buscando outros mercados em vez de consolidar a produção local”, afirma.


(Foto: Carmem Helena)


Feirantes sentem aumento no custo


Na prática, quem trabalha diretamente com a venda relata aumento no custo de aquisição e redução da margem de lucro.


O vendedor João Dantas afirma que precisou reajustar os preços para continuar operando.


“A polpa a gente tá vendendo a R$ 15 (meio quilo). Era R$ 10, mas tivemos que aumentar pra continuar vendendo”, diz.


Segundo ele, o quilo da fruta chega a R$ 15 na feira, o que dificulta a comercialização in natura. “A gente evita vender só a fruta porque sai muito caro. A pessoa leva mais casca do que produto”, explica.


João Dantas. (Foto: Carmem Helena)


Ele também relata queda nas vendas. “A nossa margem diminuiu bastante e a venda caiu um pouco.”


Já o vendedor Luiz Pereira aponta o impacto das chuvas na oferta. “Como tá chovendo muito, tá em falta o maracujá. Quando falta, o preço sobe”, afirma.


Luiz Pereira. (Foto: Carmem Helena)


Ele observa ainda uma mudança no comportamento do consumidor.


(Foto: Carmem Helena)


“Hoje é mais fácil vender a polpa. As pessoas querem praticidade, não querem ter o trabalho de preparar a fruta.”


Consumidor muda hábitos


Do lado de quem compra, a sensação é de aumento contínuo. A professora Marly Leal afirma que não percebeu a queda apontada nas pesquisas.


Marly Leal. (Foto: Carmem Helena)


“Maracujá tá caro. Não teve queda nenhuma. Eu pagava R$ 7 ou R$ 8 e agora tô pagando até R$ 12”, relata.


Ela diz que tem buscado alternativas. “Eu substituí por acerola, mas ela também aumentou”, completa.


(Foto: Carmem Helena)


Mesmo assim, Marly continua priorizando as feiras. “Ainda é mais barato do que no supermercado.”


Preço médio do maracujá (kg) em Belém – últimos 12 meses (Fonte: Dieese/PA) 


Março de 2026: R$ 9,17

Fevereiro de 2026: R$ 9,49

Janeiro de 2026: R$ 9,42

Dezembro de 2025: R$ 10,59

Março de 2025: R$ 9,76


Variações


No mês (mar/fev 2026): -3,37%

No ano (jan a mar de 2026): -13,41%

Em 12 meses (mar/2025 a mar/2026): -6,05%