Apesar de interdições em minas, ações da Vale valorizam 20% no ano. Analistas minimizam riscos
Dez e sete anos depois dos acidentes de Mariana e Brumadinho, a Vale vem enfrentando, desde o fim de janeiro, problemas em duas minas na região central do estado de Minas Gerais.
Pelo menos dois extravasamentos dentro de cavas com 24h de diferença causaram a paralisação operacional das atividades de dois complexos minerários em Ouro Preto (Fábrica e Viga), por determinação da Justiça.
Entenda: rompimento que levou à paralisação das operações da Vale em Ouro Preto
Danos significativos: MPF pede bloqueio de R$ 1 bilhão da Vale após vazamentos em Minas Gerais
Apesar dos incidentes, o mercado não parece prever o risco de uma eventual escalada do problema. As ações da mineradora registram valorização de 20% só nos primeiros 40 dias de 2026. Apenas nesta segunda-feira, o papel subiu quase 2%.
Analistas que acompanham de perto as ações da mineradora afirmam que a situação é pontual e não apresenta riscos à integridade de moradores ao redor, a funcionários e ao meio ambiente. Consequentemente, os papéis não refletem a preocupação de uma possível escalada dos problemas, avaliam os especialistas.
— Os riscos são pequenos e por isso o mercado não reagiu — avalia Frederico Nobre, líder da área de análise de ações da Warren Investimentos. Ele vê a valorização da ação no ano como reflexo do ímpeto estrangeiro, que tem comprado passivamente fundos investidores em ações brasileiras.
Entre os Três Poderes: Qual paga mais supersalários? Spoiler: foram R$ 6,7 bi fora do teto só em 2024
Como a Vale possui grande participação nos índices por conta do seu tamanho no mercado brasileiro — no Ibovespa, a mineradora sozinha representa cerca de 12% —, a valorização da empresa vai à reboque do apetite dos investidores estrangeiros à Bolsas de países emergentes.
Eles vêm, ao longo do ano, diminuindo o investimento em ações de tecnologia nos Estados Unidos em busca de diversificação para ativos da economia real, como commodities, caso da Vale.
Procurada, a Vale afirmou que adotou medidas emergenciais de controle, monitoramento e mitigação ambiental e que vai se manifestar sobre as ações demandadas e colaborar com as autoridades, prestando esclarecimentos necessários.
'Situações diferentes'
Igor Guedes, da Genial Investimentos, afirma que a situação atual não se compara à tragédia de Mariana, em 2015, nem de Brumadinho, em 2019. Segundo ele, o rompimento de uma estrutura dentro de uma cava de mineração por conta do forte volume de chuvas se difere em três pontos dos rompimentos de barragens passados:
— As situações são diferentes: não teve envolvimento de rejeitos de mineração, não tiveram vítimas e não teve impacto em comunidades locais. São três situações que distinguem fortemente do que aconteceu agora de 2019 e 2015 — afirma ele, que não vê a escalada do problema. — É como uma caixa d'água em que se faz um corte, e vaza até a caixa ficar vazia. Não tem risco de ampliar aquilo que já está feito. Era uma estrutura de contenção que não aguentou.
Relatório do banco americano Citi afirma que as minas de Fábrica e Viga, que tiveram a suspensão, produzem, juntas, cerca de oito milhões de toneladas por ano de minério de ferro, cerca de 3% da produção total da Vale.
Uma paralisação durante todo o primeiro trimestre, avaliam os analistas do banco, representaria um impacto de cerca de 1,5 milhão de toneladas de produção. Em 2025, a mineradora produziu 336 milhões de toneladas de minério e, mesmo com a pausa nas atividades por conta do incidente nas duas unidades, não revisou seu guidance (projeção de produção).
A valorização das ações da mineradora em 2026 vai em linha com pares internacionais. A BHP e a Rio Tinto registram valorização semelhante, subindo, respectivamente, 18 e 20%. As commodities de referência da empresa, o cobre e o minério de ferro, registram performance mais modesta. Essencial para a indústria de inteligência artificial, o cobre registra valorização de 4,6% nos 40 dias do ano, enquanto a tonelada do minério de ferro é praticamente estável, em leve alta de 0,06%.
Após as tragédias de Mariana e Brumadinho, as ações da Vale registraram forte queda e demoraram meses para recuperar o patamar imediatamente anterior ao do rompimento.
No caso da Samarco, joint venture entre a companhia brasileira e a anglo-australiana BHP responsável pela tragédia de Mariana, os papéis da empresa demoraram 119 dias para recuperar o valor do dia anterior à tragédia de Mariana, em 5 de novembro de 2015.
Pouco mais de três anos depois, em janeiro de 2019, a tragédia de Brumadinho foi a de maior tempo de recuperação ao patamar de valor da companhia, com os investidores devolvendo o valor de mercado 353 dias após o rompimento.
