Apartamentos construídos com subsídios públicos para moradia popular em SP viram 'hotéis informais'
Moradores de apartamentos construídos com subsídios públicos para moradia popular em São Paulo relatam que os edifícios estão se tornando "hotéis informais". À reportagem da CBN, eles dizem que os prédios passaram a atrair investidores que compram unidades para aluguel de curta temporada e colocam em plataformas como o Airbnb, transformando essas áreas residenciais em pontos de hospedagem temporária.
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Pela regra, esses imóveis só poderiam ser ocupados por famílias com renda entre seis e dez salários mínimos, mas moradores afirmam que os prédios viraram "alvos" de investidores, transformando vizinhanças residenciais em áreas de locação temporária.
No Today Augusta, empreendimento enquadrado na modalidade de HPM, a Justiça de São Paulo acatou um pedido dos moradores e proibiu a locação de imóveis por curta temporada.
Uma moradora, que vive no prédio desde 2023 e prefere não se identificar, relata que mesmo assim existe alta rotatividade de visitantes, que transformou a rotina do condomínio:
"Aconteceu de tentarem entrar no apartamento, tentar digitar a senha, porque a gente tem fechadora eletrônica, né? Provavelmente porque era algum hóspede perdido no andar e tentando entrar no apartamento errado. Isso é um relato muito comum aqui no prédio. Aqui a gente tem umas placas que estão em inglês e português. São, tipo assim, elevador do... 'Fale com o porteiro, somente o necessário', 'saída de moradores'. Tudo isso está em inglês e português. Qual a necessidade disso num prédio residencial?", diz.
Rua Augusta em São Paulo
Reprodução
No Today Perdizes, com parte de moradias HMP, a moradora Maristela Ana Lusa afirma que o residencial virou um "hotel" sem regras:
"Recentemente, eu estava na academia e entraram em três moças. Aí, quando eu questionei se elas eram novas moradoras, elas me falaram com todas as letras: 'somos influencers, contratadas por uma empresa para filmar o hotel e divulgar nas redess. Quando eu falei para elas que era um condomínio residencial e que isso não era permitido, eu registrei no livro de ocorrência da portaria, enviei um e-mail para a administração. A resposta que eu recebi da consultoria jurídica foi que eu não deveria mais abordar pessoas dentro do condomínio", relata.
Moradia social
O modelo de moradia social, criado no Plano Diretor de 2014 para reduzir o déficit habitacional, oferece isenções fiscais e bônus de construção para as incorporadoras. Enquanto os prédios subiam, não houve monitoramento sobre quem estava comprando os apartamentos, segundo a pesquisa do Cebrap, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento,
A falta de transparência e o desvio de finalidade já estão na mira do Ministério Público, que investiga possíveis fraudes.
Em 2023, o Plano Diretor chegou a permitir o aluguel dessas unidades, com a ideia de trazer mais "claridade" às regras, mas a gestão Ricardo Nunes voltou atrás no ano passado e proibiu a locação de curta temporada em Habitações de Interesse Social, HIS, e de Mercado Popular, HMP.
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Na ponta deste problema estão os moradores, que dividem as áreas de lazer do condomínio com hóspedes e enfrentam conflitos com representantes das empresas e síndicos.
Até agora, a Prefeitura de São Paulo não aplicou nenhuma multa contra proprietários que usam moradias populares como hotéis informais. A gestão municipal tem cobrado que plataformas, como o Airbnb, freiem as irregularidades.
A gestão municipal disse ter aplicado 7 milhões de reais em multas às construtoras suspeitas de descumprir regras da política de Habitação de Interesse Social. A Secretaria de Habitação disse ter atualmente 763 processos em andamento relacionados às apurações e 24 deles finalizados com a aplicação das multas.
Mas por que a fiscalização não avança? Para a coordenadora da pesquisa e professora de Direito da FGV, Bianca Tavolari, o problema está na falta de um banco de dados eficiente.
"Empreendimentos que eu tenho mistura de usos, que é o grande problema, porque foi esses empreendimentos que usaram um percentual de HIS para pagar menos e construir mais, eu não consigo saber, porque nem sempre a unidade de HIS é a unidade estúdio, é a unidade pequena, é a unidade barata. Quem vai conseguir fazer esse nível de detalhe é a prefeitura, e eles não têm esses dados sistematizados. Muita parte disso ainda é em papel, porque a gente está falando do retroativo de 2014 até agora. Acho que tem muita coisa para ser feita. A primeira coisa é um marco regulatório dessas plataformas em São Paulo e os dados. Hoje, a gente não sabe qual é o bairro de São Paulo mais demandado num Airbnb", explica.
CPI das HISs
Durante a CPI das HISs na Câmara Municipal na semana passada, uma representante do Airbnb prometeu remover os anúncios de moradias populares assim que for notificada pela Prefeitura, que garantiu o envio desta listagem com as unidades irregulares. O documento ainda é aguardado.
A CPI, instaurada no ano passado para investigar fraudes na venda desses apartamentos, já ouviu 33 pessoas.
A CBN aguarda posicionamento da construtora Canopus, today Augusta e Perdizes. E também aguarda nota da Prefeitura de São Paulo.
