Nos 65 anos desde que os Beach Boys começaram a espalhar suas melodias pioneiras e a iconografia do "sonho californiano", a banda manteve uma constante: o vocalista Mike Love esteve presente no palco em cada uma de suas mais de 7.500 apresentações. Ao iniciar a intensa agenda para a turnê do verão de 2026 no hemisfério Norte, o cantor de 85 anos passou a permanecer sentado durante partes do show. Com uma aparência visivelmente mais magra, sua voz de barítono vem soando um pouco debilitada. A formação atual da banda inclui Christian Love, filho de Mike, e conta frequentemente com o ator John Stamos na guitarra. Neste ano foram 38 shows antes de anunciar, no dia 23 de julho, o reagendamento da maior parte das datas restantes.
Quando o grupo retomou as atividades com dois shows, após um hiato de mais de 10 semanas, a aparência de Love despertou preocupações sobre sua saúde e gerou especulações a respeito do futuro da banda. Estamos assistindo a uma despedida? Ou Mike Love está reafirmando que continuará à frente dos Beach Boys, aconteça o que acontecer? Antes de uma apresentação no dia 11 de outubro, no Ryman Auditorium em Nashville, Tennessee, Stamos escreveu em suas redes sociais que Love “enfrenta sérios desafios de saúde. Esperamos que ele continue fazendo o que ama por muitos anos, mas não sabemos o que o futuro reserva. Temos esta noite”. Durante os shows, Love normalmente é vibrante e costuma circular por todo o palco, mas desta vez permaneceu praticamente imóvel em uma cadeira, posicionada no centro do palco. Ele falou com o público de maneira hesitante e limitou-se a fazer vocais de apoio.
Posteriormente, o saxofonista Randy Leago, que toca com os Beach Boys desde 2016, escreveu em um e-mail: “A apresentação no Ryman foi extremamente emocionante para todos. Apesar da fragilidade de Mike, sentimos intensamente sua presença no palco e percebemos que ele estava genuinamente feliz por estar ali. Ele só queria estar com sua turma!” Em resposta às preocupações sobre sua aparência, Love afirmou, por e-mail, que “estar no palco no último fim de semana nutriu minha alma e me deu um ânimo incrível”. Sem especificar o problema de saúde que enfrenta, ele acrescentou: “Estou dedicando toda a minha energia à reabilitação para poder retornar à música e aos melhores fãs do mundo”. Desde 1998, Love detém a licença para se apresentar sob o nome Beach Boys, concedida pelos acionistas (o próprio Love, o ex-integrante da banda Al Jardine e os espólios de Brian e Carl Wilson, por meio da Brother Records Inc.) em parceria com o Iconic Artists Group, que detém o controle da propriedade intelectual, direitos editoriais, direitos autorais e da marca Beach Boys. Essa licença permite que Love se apresente sob o nome Beach Boys acompanhado por músicos de sua escolha. Contudo, a autorização está sujeita a condições rigorosas, que estabelecem padrões de qualidade musical das apresentações e exigem a contratação exclusiva de promotores de eventos consolidados e de boa reputação. Mesmo que Love seja o único sócio a se apresentar, todos os demais parceiros obtêm lucros com o trabalho dele e de sua formação dos Beach Boys — ainda que não integrem a banda atualmente. Esse arranjo, somado às especulações atuais sobre o futuro dos Beach Boys, constitui um capítulo notável na complexa trajetória da banda. Foram anos de tragédias, conflitos internos e disputas judiciais, além das mortes prematuras dos membros fundadores Dennis e Carl Wilson, e dos conflitos amplamente divulgados de Brian Wilson, o principal arquiteto sonoro do grupo, com sua saúde mental (ele faleceu em junho de 2025). A confusão em torno dos detalhes da licença para apresentações da banda gerou a crença equivocada de que Love teria “demitido” Brian Wilson após a turnê de reencontro de 50 anos do grupo, em 2012 — uma alegação que perseguiu Love por muitos anos. Além disso, o estilo de performance de Love voltado para o espetáculo e para agradar o público, um discurso desconexo feito por ele na cerimônia de inclusão da banda no Rock & Roll Hall of Fame, em 1988, e seu apoio público ao presidente Donald Trump fizeram com que ele fosse visto como o oposto de Wilson, este último percebido como o artista sensível e criativo. A longa e peculiar história dos Beach Boys é marcada por esse tipo de tensão e mal-entendido — questões que, em grande parte, voltaram à tona este ano, à medida que surgiram dúvidas sobre o futuro da valiosa licença para apresentações que está sob o controle de Love. Não é segredo que Al Jardine, integrante dos Beach Boys de 1961 a 1998 (com uma breve saída em 1962), já almejou obter essa licença no passado. Após a concessão inicial da licença a Love, Jardine tentou realizar turnês com seu próprio grupo sob o nome “Beach Boys Family and Friends”, mas diversas decisões judiciais o proibiram de utilizar essas duas palavras fundamentais em qualquer nome de banda. Atualmente, Jardine apresenta-se regularmente com seu grupo, The Pet Sounds Band, que conta com muitos dos músicos que acompanharam Brian Wilson em turnês entre 1999 e 2022. Apesar de toda a repercussão online e na imprensa, fica claro que qualquer discussão sobre a continuidade dos Beach Boys sem a presença de Love é prematura. O site oficial do grupo ainda lista três shows em seu calendário, dois deles agendados para o início de novembro, na Flórida. Quanto à possibilidade de Jardine assumir o ritmo exaustivo de turnês dos Beach Boys, ele parece descartar a ideia. “É muito trabalho”, disse o músico, de 84 anos, rindo. “Aqueles caras tocavam quase todos os dias durante o verão, às vezes faziam dois shows por dia. O Mike é extremamente motivado — eu já sou um cara mais caseiro. E, com a minha banda, não preciso receber ordens de ninguém. Na verdade, detesto ser o chefe, para dizer a verdade.” Ele acrescentou: “O Mike é o epítome daquela mentalidade do mundo do espetáculo. E acho que é isso que o mantém no topo, custe o que custar.”
O Globo