Aos 94 anos, Ruy Guerra lança filme com planos no cinema e na literatura: 'como vou viver até os 117, estou tranquilo'
Um dos remanescentes da geração do Cinema Novo, Ruy Guerra mantém viva uma das principais marcas do movimento que revolucionou o cinema brasileiro nas décadas de 1950 e 1960: refletir na tela sobre as questões que afligem o país. O cineasta luso-brasileiro está em cartaz nos cinemas com seu mais novo projeto, “A fúria”, codirigido com Luciana Mazzotti, que conclui uma trilogia iniciada com “Os fuzis” (1964) e “A queda” (1978). Na trama, Mário (vivido por Nelson Xavier nos dois primeiros longas e agora interpretado por Ricardo Blat) volta do mundo dos mortos para se vingar do empresário Salatiel (Lima Duarte) e o deputado Feijó (Daniel Filho), homens gananciosos que se pensam no poder e no benefício próprio.
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— A política não é um dado externo à vida e ao comportamento humano. Uma história de amor é política. Para mim, não há cinema que não seja político — destaca Guerra, em conversa com O GLOBO em seu apartamento em Laranjeiras, Zona Sul do Rio. — Minha trilogia não foi programada, mas sempre tive interesse em lutas de poder. Você vai vivendo e passando por experiências, e as histórias vão se apresentando. Vendo este movimento de arrancada do fascismo no mundo, senti a vontade de falar sobre isso.
Em “A fúria”, o diretor reencontra contemporâneos do Cinema Novo, como Paulo César Pereio (1940-2024), Maria Gladys, Antonio Pitanga, Lima Duarte e Daniel Filho. Nelson Xavier também estava escalado para o projeto, mas faleceu, vítima de um câncer, dois meses antes do início das gravações, em 2017.
Daniel Filho e Lima Duarte em cena de "A fúria"
Divulgação
— Ruy Guerra foi a primeira grande direção que tive no cinema, foi a lição maior que tive de como dirigir um ator e ser dirigido — lembra Daniel Filho, que volta a trabalhar com o cineastas seis décadas após o clássico “Os cafajestes” (1962). — O reencontro, 60 anos depois, foi impressionante, porque vi que ele não perdeu a vibração. Ele é um nome muito importante do nosso cinema e, para mim, um grande professor.
Se em “Os fuzis” o diretor refletia sobre a violência institucional de militares em meio a uma população pobre no Sertão nordestino, e em “A queda” tratava da exploração de operários nas metrópoles, em “A fúria” adiciona um pouco de fantasia em seu realismo. Guerra conta que o projeto foi influenciado pela amizade com Gabriel García Márquez (1927-2014), escritor colombiano grande expoente do realismo fantástico.
Ruy Guerra, aos 94 anos, em seu apartamento em Laranjeiras
Ana Branco / Agência O Globo
— O cinema americano estabeleceu este modelo de histórias em três atos, com início, meio e fim, em que tudo deve estar inserido num sistema de casualidade, em que uma situação explica a outra. Me interessa cada vez mais romper com essa casualidade. Cresci em uma família católica tradicional, mas sou um ateu convicto, sem nenhum preconceito religioso. Apesar de meu personagem ter morrido, sempre achei uma coisa natural que ele pudesse voltar para se vingar, sem seguir um modelo redutor da realidade.
Lançando novo projeto aos 94 anos, Guerra não quer nem saber de aposentadoria. Possui planos para pelo menos mais dois filmes antes de se dedicar a escrever um romance. No momento, também começa a organizar um livro com poesias escritas ao longo de toda vida.
— Me sinto com energia e disposto. Me sinto não fazendo nada quando não estou fazendo cinema e não sei fazer mais nada. Quando eu era jovem, eu sonhava em ser escritor, mas o cinema acabou tomando a frente. Decidi que vou me dedicar a escrita a partir dos 100 anos, então ainda tenho seis anos para fazer um ou dois filmes — se diverte o artista, que também estabeleceu uma meta ousada de vida. — Tinha decidido viver até os 116 anos, mas desisti. Lembrei que não gosto de números pares, então me dei mais um ano, até os 117. Tudo me inspira. Acho a vida maravilhosa. Tive medo da morte a vida inteira, mas hoje não penso mais nela.
Nelson Xavier em "Os fuzis", de Ruy Guerra
Divulgação
Recém-recuperado de um câncer na próstata, Guerra diz que, apesar de tudo, se considera um otimista. Ele, no entanto, não romantiza as dificuldades da vida.
— Não é como se eu estivesse dando saltos mortais, né? Há dias que as pernas estão péssimas e não tenho uma organização econômica de vida. Minha aposentadoria hoje dá para pagar meu ajudante. Estou me programando para ir para o Retiro dos Artistas — confessa.
No momento, Guerra revela que uma de suas maiores vontades é adaptar a peça “Calabar: O elogio da traição” (1973), escrita em parceria com Chico Buarque, para os cinemas, mas que o projeto ainda precisa de mais um tempo para ganhar vida.
Ruy Guerra e Chico Buarque, em 1986
Antonio Nery / Agência O Globo
— O Chico me falou que quer fazer umas novas canções para o filme e que, para isso, ele precisa de um ano — fala Guerra. — Tenho a ideia para um filme antes e “Calabar” deve vir em seguida. Mas como vou viver até os 117 anos, estou tranquilo.
Nos palcos, nas telas, na música
Ruy Guerra é mais lembrado como cineasta. Mas seu trabalho no teatro e na MPB também estão entre os marcos de sua carreira. Relembre abaixo alguns destes marcos.
‘Os cafajestes’ (1962): Com Jece Valadão, DanielFilho e Hugo Carvana, o retrato de dois jovens golpistas de Copacabana exibiu o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, de Norma Bengell correndo na praia.
‘Esse mundo é meu’ (1963): Sucesso na voz de Nara Leão e parte de um dueto clássico de Elis Regina com Jair Rodrigues, a música virou o título do filme dirigido pelo parceiro de Guerra: Sérgio Ricardo. Em que Guerra trabalhou como montador.
‘Os fuzis’ (1964): Primeira parte da trilogia que Ruy está fechando com seu novo filme, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim, com a história de um pelotão destacado para impedir saques a armazéns pela população esfomeada de uma cidade no interior do Nordeste.
‘Reza’ (1965): Parceria com Edu Lobo, conhecida pela versão com Elis Regina, teve seu refrão adaptado em “You don’t know me “, por Caetano Veloso, em 1972.
‘Calabar, o elogio da traição’ (1973): A peça de Guerra e Chico Buarque foi proibida pela ditadura militar, que não queria revisões históricas de um aliado dos holandeses na invasão de Pernambuco no século XVII. As parceiras musicais dos dois para a montagem incluem “Não existe pecado ao sul do Equador” e “Tatuagem”.
‘A queda (1978): Guerra dividiu com o ator Nelson Xavier o roteiro e a direção deste drama que gira em torno da morte de um operário nas obras do metrô do Rio de Janeiro. Também premiado com o Urso de Prata em Berlim.
‘Erêndira’ (1983): A produção estrelada por Claudia Ohana, com quem ficou casado de 1981 a 1984, foi a primeira adaptação por Guerra de uma obra de Gabriel García Márquez. Com roteiro do próprio autor de “Cem anos de solidão” e Nobel de Literatura, amigo do cineasta. As outras adaptações foram “A fábula da bela palomera”, de 1987, também com Ohana, e “O veneno da madrugada”, de 2005.
‘Ópera do malandro’ (1985): Guerra também levou para as telas o musical de Chico Buarque, com Edson Celulari e Cláudia Ohana à frente do elenco. Ele voltaria a filmar um texto de Chico, mas o romance “Estorvo”, com o cubano Jorge Perugorría e Bianca Byington.
‘Kuarup’ (1989): Adaptação do romance de Antônio Callado, com Taumaturgo Ferreira no papel do padre que abandona a batina para lutar pelos indígenas na ditadura.
‘Quase memória’ (2015): Outra adaptação de um marco da literatura brasileira contemporânea — desta vez, das líricas recordações de Carlos Heitor Cony sobre o pai.
