Aos 85 anos, ator com Alzheimer volta ao palco para interpretar peça sobre um homem assombrado pelas próprias lembranças:

Aos 85 anos, ator com Alzheimer volta ao palco para interpretar peça sobre um homem assombrado pelas próprias lembranças: 'Tive que aceitar'

Fonte: Bandeira da fonte

Aos 85 anos, o ator britânico Peter Marinker, que interpretou o conselheiro do presidente dos Estados Unidos em “Simplesmente Amor”, vai subir ao palco para viver um homem obcecado pelas próprias lembranças.
Há dois anos, porém, ele recebeu o diagnóstico de Alzheimer.
Agora, prepara-se para encenar sozinho “Krapp’s Last Tape”, de Samuel Beckett, em Londres, numa peça que ganha um significado particular diante de sua própria relação com a memória.
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Na peça, Krapp é um escritor idoso que escuta antigas gravações e revisita episódios de sua trajetória, entre lembranças, arrependimentos e oportunidades que ficaram para trás.
Marinker conhece bem o personagem: interpretou o papel pela primeira vez em 1983.
Para a nova montagem, a produção recuperou as gravações feitas pelo ator naquela época e vai incorporá-las à encenação.
A própria voz de Marinker de mais de quatro décadas atrás estará no teatro enquanto ele interpreta, no presente, um personagem confrontado com suas memórias.
O desafio é especialmente grande porque a doença já afeta sua capacidade de reter informações recentes.
Durante a preparação para a montagem, por exemplo, Marinker chegou ao local dos ensaios durante quatro dias consecutivos em datas nas quais não havia ensaio.
Ainda assim, ele aceitou o convite sem hesitar.
A proposta partiu de Dave Wybrow, diretor do Cockpit Theatre, em Londres, que trabalhou com o ator no passado.
— Dave perguntou se eu gostaria de fazer.
E eu simplesmente disse: “Sim.
Ah, sim, sim, sim, sim!” — contou Marinker à BBC.
Os ensaios começaram no fim de junho e foram estendidos para que o ator tivesse mais tempo de preparação.
A montagem também terá uma estrutura de apoio pouco convencional: haverá telas com o texto espalhadas pelo teatro, um profissional ficará próximo ao cenário durante as apresentações e Marinker usará um pequeno ponto eletrônico para receber as falas caso precise de uma deixa.
Para Wybrow, os recursos não diminuem o desafio artístico.
Ao contrário, fazem parte de uma tentativa de mostrar o que ainda é possível depois de um diagnóstico de demência.
Uma carreira construída com a voz
Marinker tem uma longa relação com a interpretação, especialmente com trabalhos de voz.
Ao longo da carreira, participou de peças de rádio, videogames e produções cinematográficas.
Está em filmes como “Labirinto” e “Paddington no Peru” e interpretou o conselheiro do presidente americano em “Simplesmente Amor”.
Também aparece em “United 93”, sobre os acontecimentos de 11 de setembro de 2001.
Em 2023, porém, sua relação com o palco mudou.
Ele interpretava Gandalf em uma adaptação teatral de “O Senhor dos Anéis” quando começou a perceber que estava perdendo a concentração e “desligando”.
Um substituto precisou assumir o papel pelo restante da temporada.
Vieram então exames de ressonância magnética e outras avaliações.
O diagnóstico de Alzheimer chegou dois anos atrás.
Marinker diz que, depois da confirmação, passou a encarar com mais humor alguns dos esquecimentos cotidianos.
— Eu simplesmente tive que aceitar.
Isso explicava por que eu continuava perdendo coisas e comecei a rir de mim mesmo, de todas as outras coisas bobas que faço repetidamente — afirmou.
O diagnóstico não significa, necessariamente, que todas as lembranças e capacidades desapareçam no mesmo ritmo.
Segundo Tara Spires-Jones, professora de neurodegeneração da Universidade de Edimburgo, memórias antigas e habilidades repetidas durante muitos anos podem permanecer acessíveis mesmo quando a pessoa começa a ter dificuldade para guardar acontecimentos recentes.
É uma das razões pelas quais algumas pessoas com Alzheimer ainda conseguem cantar músicas conhecidas, executar tarefas que praticaram durante décadas ou reproduzir textos muito ensaiados.
No caso de Marinker, a experiência acumulada no teatro se mistura justamente com uma peça sobre memória.
‘Meu canto do cisne’
A temporada terá quatro dias e toda a renda será destinada à Alzheimer's Society, organização que ajudou o ator depois do diagnóstico.
A iniciativa também pretende chamar atenção para o estigma associado à demência.
Uma pesquisa da entidade realizada em 2025 mostrou que 42% das pessoas que vivem com demência disseram sentir vergonha dos sintomas.
Entre aquelas que apresentavam problemas de memória, uma em cada cinco afirmou não ter procurado um médico por receio da reação de familiares e amigos.
Taiyaba Zeria, responsável por serviços de apoio a pessoas com demência da Alzheimer's Society em Londres, considera que a experiência de Marinker ajuda a desafiar a ideia de que um diagnóstico encerra a vida profissional ou criativa de alguém.
— O estigma ainda está muito presente.
O que Peter está fazendo destaca que um diagnóstico não é o fim e que uma pessoa vivendo com demência ainda pode fazer muitas coisas de que gosta e pelas quais é apaixonada — disse.
Marinker, que afirma estar nos estágios iniciais da doença, não esconde que enxerga a montagem como uma despedida.
Ele chama a nova experiência de seu “maravilhoso canto do cisne”.
A escolha da peça torna essa despedida particularmente simbólica.
Em “Krapp’s Last Tape”, um homem velho passa o tempo diante das gravações de quem um dia foi, confrontando aquilo que restou de sua própria história.
Quarenta e três anos depois de interpretar Krapp pela primeira vez, Marinker estará novamente diante do personagem.
Desta vez, porém, algumas das vozes que ecoarão no palco serão também dele.
— Estou no estágio inicial da doença, então preciso aproveitar ao máximo essa fase e me preparar da melhor maneira possível para a fase intermediária — afirmou.
E, fiel ao humor que mantém diante da doença, completou:
— Talvez eu simplesmente sobreviva à apresentação.
Ou talvez simplesmente caia morto.