Com apenas 17 anos, o estudante da rede púlica, Dionísio Miguel Martins Lima, transformou a própria história de superação em um movimento que já impactou milhares de jovens no interior de Goiás. Fundador do projeto Embaixadores da Democracia, ele mobilizou 3.801 alunos de 16 escolas públicas em Itumbiara e em municípios vizinhos (Cachoeira Dourada, Buriti Alegre e Bom Jesus) e contribuiu para a emissão de mais de 900 títulos de eleitor entre adolescentes de 15 a 17 anos, faixa em que o voto é facultativo no Brasil.
Nascido em Goiânia e criado em Itumbiara, cidade de cerca de 107 mil habitantes, Dionísio cresceu ao lado da irmã mais velha e do pai. A trajetória que hoje inspira outros jovens, no entanto, começou marcada por obstáculos.
Aos 6 anos, passou a sofrer ataques na escola; aos 10, desenvolveu humor depressivo e enfrentou crises de ansiedade e de pânico. Assumiu sua homossexualidade aos 13 e, no mesmo período, iniciou a militância política.
Em entrevista ao Jornal Opção, ele recordou como a educação se tornou o eixo de sua reconstrução pessoal: “Eu quero ser uma estrela para que as pessoas que eu amo não passem pelo que eu passei. Eu quero ser uma estrela para que as outras pessoas tenham esperança, para que elas reconheçam a sua própria história e transformem as histórias delas através da educação.”
A iniciativa nasceu de uma inquietação específica: por que os jovens estão tão desconectados da política? Segundo Dionísio, a resposta não está no desinteresse, mas na falta de letramento político acessível. A partir dessa constatação, ele estruturou um projeto com metodologias pedagógicas voltadas à formação de lideranças e à multiplicação de conhecimento dentro das escolas públicas.
A ideia do Embaixadores da Democracia amadureceu na cabeça de Dionísio Miguel desde as eleições de 2024, mas ainda não havia saído do campo das intenções. Segundo ele, o projeto só ganhou forma neste ano, quando ele percebeu a importância do pleito e decidiu transformar a preocupação com a distância dos jovens da política em ação.
Para tirar o plano do papel, Dionísio recorreu à experiência acumulada como ativista político desde os 13 anos e à rede de contatos construída ao longo de cerca de cinco anos. 1/2
Embaixadores da Democracia | Foto: Arquivo pessoal Com seu repertório, Dionísio buscou dados, pesquisas e relatórios, convidou professores, estudantes engajados e integrantes do Fórum Municipal de Educação e, por meio de construção coletiva, ampliou o projeto e firmou as parcerias que deram sustentação à iniciativa.
Assim, o que começou como uma pergunta sobre o afastamento dos jovens da política converteu-se em um programa estruturado de formação de lideranças e multiplicadores dentro da rede pública. O Embaixadores da Democracia funciona por meio de uma rede de alunos e professores.
Cada uma das 16 escolas participantes selecionou três estudantes e um professor orientador. Esses alunos, os chamados embaixadores, recebem um curso de letramento político e, posteriormente, orientam os demais colegas sobre a importância da emissão do título de eleitor.
Os professores mentores supervisionam as atividades e garantem os espaços necessários dentro das unidades escolares. Ao todo, o projeto conta com 48 alunos embaixadores, 16 professores mentores e 10 idealizadores.
A articulação institucional foi decisiva para o alcance do projeto. Dionísio destaca três parcerias centrais: a Coordenação Regional de Educação, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e a Prefeitura de Itumbiara.
A coordenadora regional Ana Flávia foi fundamental para ampliar a atuação às 16 escolas das quatro cidades. O TRE, por sua vez, ofereceu suporte ao atendimento dos estudantes no cartório eleitoral.
Já a prefeitura disponibilizou ônibus para transportar os alunos até o local. “A atuação da Coordenação Regional de Educação foi magnífica.
Foi ela que possibilitou essa expansão”, ressaltou o estudante. Outro eixo do trabalho é o enfrentamento à polarização política, especialmente sensível em uma cidade do interior goiano.
Durante as atividades, estudantes relataram que divergências ideológicas e discussões dentro de casa os levavam a evitar o tema. Para lidar com isso, o projeto apostou no combate às fake news e à desinformação, além de promover diálogos com professores de humanas.
“A gente conseguiu fazer um projeto suprapartidário, com diálogo, onde a gente conseguiu reunir jovens com diferentes posicionamentos políticos. A partir disso, a gente conseguiu fazer o que uma democracia de fato exige: diálogo, respeito, debate”, explicou.
A comunicação com os adolescentes também precisou ser repensada. Para despertar o interesse de um público habituado a linguagens rápidas e visuais, a equipe recorreu a memes, brincadeiras e vídeos curtos no aplicativo TikTok.
“Esse é um novo espaço para debater nossa democracia. Como conseguimos? Fazendo memes, um vídeo curto de 30 segundos no TikTok, são formas muito legais de discutir política”, disse Dionísio.
Uma das publicações produzidas por ele ultrapassou 25 mil visualizações. O envolvimento de Dionísio com a vida pública, aliás, vai além do projeto.
Ele atua como representante dos estudantes na elaboração do Plano Municipal de Educação de Itumbiara e, em 2023, foi o único jovem convidado a palestrar no seminário internacional Águas para o Futuro, realizado em Goiás. A experiência também inclui a participação na Academia Latino-Americana de Liderança e o título de Embaixador do Cerrado, concedido por um programa da Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc).
Sobre o futuro, o estudante, que está concluindo o 3º ano do ensino médio no Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás – Dionária Rocha, já traça planos ambiciosos. Ele foi aprovado duas vezes na Universidade Federal de Uberlândia e também em um curso de curto período na Universidade de São Paulo (USP).
O objetivo é cursar Relações Internacionais, seguir com mestrado em Direito Internacional e doutorado em Ciências Políticas. Questionado sobre a possibilidade de disputar cargos eletivos, Dionísio não descarta a ideia, mas trata o tema com cautela.
“A política é um serviço. Se de alguma maneira eu puder representar o meu país, as pessoas que moram dentro da minha cidade, do meu estado, algum dia em algum cargo político, eu estarei servindo a todas essas pessoas para que tenham melhores condições de vida”, afirmou.
A trajetória pessoal, segundo ele, segue indissociável da atuação política. “Sou um jovem homossexual, então desde sempre eu tive essa consciência de que seria necessário lutar para ter um espaço dentro da sociedade.” A frase que resume o propósito do projeto, aliás, ele repete com naturalidade: “Mudar o mundo a gente não consegue, mas consegue mudar pequenos mundos.
Esse virou meu propósito: conseguir ajudar outros jovens para que eles se reconheçam na sua história, para que consigam juntos impactar a sociedade de uma maneira melhor.” Dentro do Embaixadores da Democracia, os participantes compartilham uma crença que funciona como mantra.
“Nós somos multiplicadores e semeadores de espaços. Além do meu espaço, eu quero multiplicar outros espaços para que outras pessoas também tenham os seus espaços”, declarou.
E complementa: “O meu propósito político não é só ocupar o meu espaço, é poder possibilitar para que outras pessoas consigam multiplicar esses espaços.” Para ele, a juventude deve ser tratada como a solução do presente. “A juventude precisa ser vista como uma solução do agora, um retrato do agora.”
Com os números alcançados e a rede de multiplicadores formada, o projeto segue como uma frente de educação política e de fortalecimento do protagonismo juvenil em uma região marcada pela polarização. O estudante faz questão de dividir os créditos.
“Este prêmio é coletivo. Eu gostaria de agradecer os embaixadores da democracia, porque a gente não estaria aqui hoje se não fosse por eles”, afirmou.
Ele também lembra dos professores que o acompanharam na construção das metodologias, como Carol, Marcos e Thiago. Para Dionísio, o impacto dos Embaixadores da Democracia se mede pela capacidade de abrir portas para que outros jovens ocupem espaços de decisão e transformem, a partir da educação, as próprias realidades.
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