Ao inaugurar monotrilho prometido para Copa de 2014, Tarcísio cita Fuleco, diz que obra atrasou por ‘má-gestão’ e promete extensão

 

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Prometida para a Copa do Mundo de 2014, a Linha 17 (Ouro) do Metrô de São Paulo enfim começou a funcionar. Ao inaugurar o monotrilho, que liga o Aeroporto de Congonhas até a estação Morumbi, da Linha 9 (Esmeralda), na Marginal Pinheiros, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que a obra atrasou por “má-gestão”, sem se referir nenhum político em específico, citou o Fuleco, mascote da Copa, e disse que está “resolvendo” um problema ao entregar a linha.

— A gente não está simplesmente entregando uma linha, estamos encerrando um ciclo de vergonha, de atraso. Qual era o cartão-postal dessa cidade? A pessoa desembarcava em Congonhas e via uma estrutura que as pessoas perguntavam “para que são essas vigas, vão para onde?” Nada. Quem conheceu essa obra como um elefante branco? Todo mundo. É a obra da Copa, uma das tantas que ficaram inacabadas pelo caminho, que constituem esse grande cemitério de obras marcadas pela má-gestão, ineficiência e corrupção — falou.

Monotrilho vai ser inaugurado

Editoria de Arte

No evento, o governador também autorizou a licitação do projeto para estender a linha por mais quatro estações, sendo elas Panamby, Paraisópolis e Américo Maurano no sentido oeste (São Paulo - Morumbi) e Vila Paulista no sentido leste (sentido Jabaquara). Entretanto, a ligação até a Linha 4 (Amarela) ainda não será concretizada nesta fase, só numa terceira etapa do projeto, disse o governador.

Tarcisio postou no Instagram mensagem com o Fuleco, mascote da Copa de 2014

Reprodução

— A Copa que tinha um mascote, o Fuleco, um tatu-bola, que vive 15 anos ou um pouco mais. Imagina que agora o Fuleco está bem velhinho — acrescentou. —A gente precisa dar outros passos, com firmeza, com responsabilidade. A gente esperou para autorizar o próximo projeto, a fase 2, e agora começamos a contratar o projeto de engenharia para fazer mais quatro estações.

Nos primeiros meses, a linha funcionará em operação assistida, de segunda à sexta, das 10h às 15h, sem cobrança de tarifa, e com trens passando a cada sete minutos. Gradualmente, o horário de funcionamento será ampliado. O ramal terá, neste primeiro momento, sete estações — a oitava, a estação Washington Luís, deve operar a partir de junho porque ainda não está finalizada.

Estação do monotrilho inagurada na terça (31) em Congonhas

Dilvulgação

O monotrilho é um símbolo de promessas da Copa que não foram cumpridas em São Paulo. A obra foi anunciada em 2011, pelo governador Geraldo Alckmin, então no PSDB, como uma alternativa de transporte sobre trilhos que ligaria o estádio do Morumbi até o Aeroporto de Congonhas, passando por Paraisópolis, a maior favela da cidade, e seguindo até o Jabaquara, com 18 estações. Em 2026, a linha abre com dez estações a menos, proporcionalmente duas vezes mais cara e com uma demanda de passageiros bem menor do que a prevista inicialmente.

O prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), aproveitou a oportunidade para elogiar o governador que “tira projetos do papel”, e chamou de “revolução no transporte sobre trilhos” os outros ramais que estão em obras atualmente, como a Linha 6 (Laranja) e a expansão da Linha 2 (Verde).

— Imaginem só, estava prometido para 2014, não é possível que a gente aceite uma coisa dessa com relação à ineficiência do serviço. O importante é que hoje é dia de alegria, a cidade comemora e a gente está aqui reunido para confraternizar esse momento histórico da cidade de São Paulo — falou.

Catracas da nova estação do monotrilho em Congonhas

Divulgação

Histórico de atrasos e redução no projeto

A linha vai inserir o Aeroporto de Congonhas no mapa do transporte sobre trilhos paulista, conectando-o até a estação Morumbi da Linha 9 (Esmeralda), na Marginal Pinheiros. Trata-se de um trajeto relativamente curto, de 6,7 km de extensão, e as oito estações cruzarão os bairros do Campo Belo, Brooklin e Vila Cordeiro, com a expectativa de transportar 100 mil passageiros por dia — demanda menor do que qualquer outra linha do metrô paulista.

Originalmente, o plano era que a linha fosse do Jabaquara até o Estádio do Morumbi, na Zona Sul, conectando-se a estações das linhas 1 (Azul) e 4 (Amarela), e passando por Paraisópolis, a maior favela de São Paulo (que não conta com nenhuma estação de metrô). O custo seria de R$ 3,1 bilhões para 18 estações, com 17,7 km de extensão. Mas, desde então, o projeto foi sendo reduzido. Além da Linha 9, agora só vai se conectar com a Linha 5 (Lilás), por meio de conexão na estação Campo Belo.

Cabine do monotrilho entregue ontem em SP

Divulgação

A promessa era de que, por ser um monotrilho, com uma estrutura aérea que não exige obras subterrâneas, seria construído mais rapidamente e com menos custos do que uma linha de metrô tradicional. Na prática, porém, o modal atravessou cinco governadores, foi marcado por sucessivos atrasos e rompimentos de contratos, alguns em decorrência da Operação Lava-Jato.

Considerando as oito estações dessa primeira fase, a linha custará o total de R$ 5,8 bilhões. Mesmo considerando a inflação do período, ela sai proporcionalmente mais cara, já que será entregue menor —a um custo de cerca de R$ 698 milhões/km, considerando os 8,3 km totais de implantação. Por conta do pátio de manobras, a extensão total da linha é maior do que o trecho onde os trens circulam. Na prática, trata-se de um valor muito próximo ao de um metrô convencional (de R$ 700 milhões a R$ 1 bilhão/km), que tem capacidade muito maior. A Linha Vermelha do metrô, por exemplo, leva uma média de 870 mil passageiros/dia, mostram dados de fevereiro deste ano.

Quando a nova linha foi concebida, havia a expectativa de que o estádio do São Paulo fosse receber jogos da Copa, mas as partidas foram transferidas para a Arena Corinthians (atual Neoquímica Arena), em Itaquera. Alckmin estimava que o trecho entre Congonhas e a Marginal ficaria pronto em 2013, e o restante em 2015.

Em 2011, o consórcio formado por Andrade Gutierrez, CR Almeida e Scomi venceu a licitação para executar a estrutura do monotrilho e o fornecimento de trens. O consórcio também ficou responsável por construir três das oito estações e do pátio de trens, enquanto as outras paradas foram divididas entre outros dois consórcios.

Não demorou muito para os primeiros problemas aparecerem. A Scomi, empresa da Malásia, faliu, enquanto Andrade Gutierrez e CR Almeida foram alvos da Lava-Jato por suspeitas de corrupção em contratos públicos. As empresas passaram a ter dificuldades de investimento, e os canteiros de obras foram abandonados.

Em 2016, o Metrô alegou que houve “abandono de obra” e anunciou a primeira rescisão contratual. Em 2019, o então governador João Doria (PSDB) anunciou novo rompimento do contrato principal devido ao ritmo lento das obras. Com isso, abriu-se nova rodada de licitações. Em 2021, a KPE e a Coesa foram contratadas para retomar a obra.

Em 2023, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) rescindiu o contrato com a KPE e Coesa, por causa do atraso nas obras. A Ágis Construção S.A., que havia participado da licitação de 2019, foi convidada a assumir e aceitou.

De olho na reeleição, Tarcísio busca faturar politicamente com a inauguração do monotrilho, dentro da estratégia de se apresentar como o governador que entregou grandes obras de infraestrutura e mobilidade prometidas há décadas. Além da Linha 17, ele pretende inaugurar neste ano o último trecho do Rodoanel Norte e a Linha 6 (Laranja) do metrô, além de iniciar as obras do túnel Santos-Guarujá, planejado há um século, e que sairá do papel em parceria com o governo federal. Tudo sob o mote “coragem para fazer o impossível”.