Ao falar de Flávio, Haddad diz que ‘investigações sobre escândalos vão esclarecer que campanhas o Master financiou’
Pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT) afirmou, nesta quinta-feira (7), que as pessoas “não têm ideia” de quem é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente Lula (PT) na disputa ao Palácio do Planalto, e que espera que a campanha mostre “quem é o personagem e quem são os amigos dele”. Ao comentar sobre o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Haddad ainda citou o caso do Banco Master.
— Eu creio que as pessoas não têm ideia de quem seja o Flávio. Eu espero que a campanha mostre quem é o personagem, quantos mandatos ele teve, quantos projetos ele aprovou, como é que ele angariou esse patrimônio considerável que ele detém, quem são os amigos dele. As investigações estão sendo aprofundadas sobre os escândalos que o governo desbaratou, então tem havido uma compreensão maior de quem é responsável por esses desmandos, quando surgiram esses desmandos, quem foram os responsáveis. Isso tudo vai ajudar a esclarecer — falou o ex-ministro da Fazenda em coletiva de imprensa após dar uma palestra na Fundação Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo.
Ele havia sido indagado sobre como o governo poderia dialogar mais com a população, tendo em vista que Flávio aparece empatado ou até ultrapassando Lula numericamente em pesquisas eleitorais recentes. Haddad então citou o caso Master e acrescentou que é preciso “colocar as instituições para funcionar, cada um com a sua competência”, citando a Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público.
— Cada uma no que lhes compete, e esclarecer para a opinião pública para onde foi o dinheiro do Master, que campanhas o Master financiou, quem é amigo de quem, para a gente ter clareza do que aconteceu. Isso vai ajudar muito. Agora, o papel é dar transparência para isso. Nós já sabemos na gestão de quem, no Banco Central, diretores foram corrompidos. Estamos investigando parlamentares que podem ter envolvimento em beneficiar o Master, e vamos atrás — acrescentou, dizendo que esse caso “obviamente vai ter impacto eleitoral” na campanha.
Na manhã desta quinta, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do PP, foi alvo de uma operação da Polícia Federal que apura as ligações dele com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Indagado sobre a operação, Haddad disse que não havia tomado conhecimento.
Medidas econômicas
O ex-ministro da Fazenda negou que tenha havido aumento da carga tributária durante a gestão atual de Lula, e afirmou que isso só ocorreu significativamente no país durante a ditadura militar e após o Plano Real. Ele ainda justificou o aumento de gastos no governo por medidas tomadas na reta final da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
— O que aconteceu em 2022 foi grave. Diante do cenário de derrota iminente, houve uma sangria nas contas. E o legado para pagar no ano seguinte era de quase R$ 200 bilhões, de precatórios não previstos, porque o Supremo declarou inconstitucional a PEC do calote, e tinha o reajuste do Bolsa Família que não estava no orçamento — falou Haddad. – Eu não sou uma pessoa dogmática que acha que não pode gastar mais do que arrecada. Em que condições? Tem várias maneiras de fazer ajuste fiscal. E dependendo da sua visão de mundo, você faz o ajuste de uma forma ou de outra, penalizando quem ganha salário mínimo ou penalizando quem não paga para começar a pagar.
‘Preconceito com assalariados’
Haddad ainda reconheceu as dificuldades da esquerda no Brasil e no mundo, destacando que experiências passadas, como o bem-estar social e o nacional-desenvolvimentismo acabaram “perdendo o charme” nas últimas décadas e, ao mesmo tempo, houve uma ascensão da extrema-direita, que dificulta planos mais de longo prazo.
— Tem duas forças que restringem a imaginação institucional, na minha opinião: a gente se enviuvou de coisas que parecem não fazer tanto sentido, e a outra é o medo do que vem pela frente. Quando você teme o futuro, você não quer muito sair do lugar. A gente pode estar diante disso em outubro, de gente falando “ah, mas vai piorar”. Se nós não enfrentarmos o espantalho do futuro, nós não vamos sair do lugar — falou.
Para o ex-titular da Fazenda, “quando há duas forças competindo com a regra do jogo bem estabelecida e respeito mútuo, como perdurou no Brasil durante 30 anos”, há “muito mais liberdade para fazer as coisas”, mas este cenário seria diferente agora.
— Porque você sabe que, se você errar, o país vai ser dirigido por gente séria. Agora se você errar aqui, tomar voos maiores, vai jogar o país nas mãos de uma cleptocracia? A extrema-direita atrapalha muito, esse tipo de ameaça inibe você de pensar a longo prazo — acrescentou.
Ainda em relação à esquerda, Haddad comentou que existe uma parcela desse setor que tem “um certo preconceito” com trabalhadores que não são assalariados e que trabalham de maneira autônoma, lembrando que o PT nasceu entre sindicatos no ABC Paulista e que, hoje, as dinâmicas trabalhistas mudaram.
— Até para você vender um programa de país para uma diversidade tão grande de pontos de vista, isso ficou mais difícil. O PT nasceu num berço de pessoas que vendiam a carteira de trabalho. E ainda existe, nos partidos de esquerda, um certo preconceito com quem não é assalariado. O cara (trabalhador) precarizado, às vezes, não consegue interagir com o operário tradicional. Tem outra cabeça, tem outra visão. Nenhum desses atores são proprietários de dinheiro de produção. Então articular um projeto em torno de emancipação, de crescimento, em torno de visões tão díspares, se tornou um desafio maior – comentou.
Ele ainda comentou o encontro de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ocorrerá na Casa Branca nesta quinta.
— A expectativa é boa. Não tem ninguém no mundo que tenha a capacidade de diálogo que o presidente Lula, ele é hors concours, por isso todo mundo quer conversar com ele, porque é uma pessoa muito diferenciada. No mundo de hoje, o Lula é necessário – falou.
