António Zambujo faz uma ‘oração ao tempo’ para marcar os seus 50 anos

 

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Um dos nomes de grande sucesso da música de Portugal, ponte entre o fado e a canção brasileira, o cantor e compositor António Zambujo está de volta ao país, com o show de seu novo álbum, “Oração ao tempo” (intitulado a partir de canção de Caetano Veloso, gravada no disco em dueto com o próprio baiano).

Lançada em março, a nova coleção de faixas levou Zambujo a passar abril percorrendo Portugal (apresentou-se nos Coliseus do Porto e de Lisboa) e rapidamente chegou com a turnê ao Brasil.

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Após se apresentar em Ilhabela, São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, ele chega ao Rio de Janeiro para um show este sábado, no Circo Voador. Depois, segue para Campinas (dia 20, no Teatro Oficina do Estudante Iguatemi), Brasília (21, no Centro de Convenções Ulysses – Sala Planalto) e a Cidade de Goiás (23, no Cine Teatro São Joaquim).

— É a primeira vez que nós estamos a iniciar a turnê de um disco novo por aí, porque normalmente a gente vai com o projeto meio consolidado, a coisa mais rodada. Desta vez, vai ser o contrário. Vai ser para consolidar o projeto no Brasil e depois regressar para a Europa e continuar — dizia o artista português, a alguns dias de partir para o Brasil, em uma entrevista por Zoom. — E esta turnê agora vai ser a maior que eu já fiz por aí, tem muitas cidades onde eu nunca toquei, como Goiás... vai ser divertido!

‘O mundo parou de repente’

“Oração ao tempo” é um disco que surgiu por influência de vários fatores. A pandemia, em primeiro lugar, diz Zambujo.

— O mundo parou de repente e veio a ideia de escrever uma música em que eu valorizasse aquilo que, de fato, tinha importância para mim, as coisas mais simples — explica ele, que naquele momento compôs, com a escritora portuguesa Maria do Rosário Pedreira, “Pequenos prazeres”, que acabaria sendo a música inaugural de “Oração ao tempo”. — À medida em que o tempo foi passando, foram surgindo novas ideias, sendo a principal a de cantar “Oração ao tempo”. Fizemos uns arranjos e numa das minhas idas ao Brasil surgiu a hipótese de gravá-la com o Caetano. A partir daí, foi-se construindo o resto do disco.

Um tanto dessa reflexão sobre o tempo veio, admite António Zambujo, do fato de no ano passado ter completado 50 anos de idade.

— É aquela idade em que a gente sabe que, se tudo correr bem, ainda vai ficar um tempinho cá, mas só com muita sorte é que se vai conseguir dobrar — observa.

Em “Oração ao tempo”, além de velhos parceiros e colaboradores, somaram-se novos. Na verdade, novas.

— A Mimi Fróes (autora de “Prescrição” e de “Perguntas difíceis”) é compositora e cantora também, uma portuguesa super talentosa, de quem sou muito fã. Ela lançou um disco novo há pouco tempo. A Carolina Deslandes (letrista de “Nossa alma é siamesa”) é talvez a grande referência desta nova geração, talvez seja a principal impulsionadora destas novas autoras e novas escritoras que tão surgindo na música na música portuguesa — diz. — E a Rita Dias (letrista de “Contradança”) é, curiosamente, muito brasileira, ela tem uma forma de escrever que me faz lembrar muito a de Chico Buarque.

E “Oração ao tempo” tem outras músicas brasileiras, além daquela de Caetano Veloso. “Três da madrugada”, composição do poeta tropicalista Torquato Neto (1944-1972) e Carlos Pinto, havia sido celebremente gravada por Gal Costa (1945-2022) — com quem Zambujo chegou a gravar um dueto de “Pois é” (Tom Jobim e Chico Buarque).

— Essa eu descobri matando saudades da Gal, coisa que faço com alguma com alguma frequência. A música que me tinha passado assim meio ao largo, decidi gravar porque fazia todo sentido dentro da temática da ordem do tempo — conta o português, que também celebrou no disco “Foi a noite”, de Newton Mendonça e Tom Jobim. — Era uma música que estava lá meio escondida, talvez porque ainda pré-bossa, e, curiosamente, eu escutei o Caetano cantando um trechinho dela num vídeo. Fui procurar e vi que era uma música meio bolero, meio standard jazz.

Em sua última passagem pelo Circo Voador, em março do ano passado, Zambujo conheceu a cantora Maria Luiza Jobim, filha de Tom. Eles se apaixonaram, foram viver juntos em Portugal em setembro, e, há alguns dias, se separaram. Foi amor breve, mas que rendeu música de Marcelo Camelo, amigo do ex-casal, que Maria Luiza prometeu incluir no seu novo álbum, “Rosa no céu”, a ser lançado no dia 2.

Aberto a recitação de poemas (como “Poética”, de Vinicius de Moraes), “Oração ao tempo” é um disco no qual Zambujo não se furtou nem mesmo a incluir algumas conversas entre os músicos durante as gravações.

— Nunca me identifiquei muito com uma produção muito rigorosa, no sentido de que tudo tem que ser limpo, de que não pode ter uma corda de violão mal pisada. Gosto mais do oposto, acho que isso dá um sentido mais humano ao registro, então decidimos manter algumas coisas que são, de fato, a gravação do disco — explica ele. — Porque depois de uma boa pré-produção, quando entramos em estúdio, fazemos muito poucos takes de cada música. A gente vai para o estúdio praticamente para curtir.

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Com direção musical de André Santos, guitarrista que Zambujo conheceu na Ilha da Madeira (e que cuidou da produção do disco), o show chega ao Brasil com a banda completa, que inclui André, Bernardo Couto (guitarra portuguesa), João Salcedo (piano), Francisco Brito (contrabaixo), José Conde (clarinete) e João Moreira (trompete). Junto com eles, vêm Diogo Zambujo, filho do cantor, de 27 anos, que também tem uma música no disco, “Espera vã” (parceria com o pai).

— Diogo também é muito influenciado pela música brasileira. Estou muito feliz por ele poder viajar comigo e ele também está muito feliz de poder apresentar a música dele aí no Brasil — orgulha-se o artista, que ainda recebe no palco, no Rio, a participação especial de Chico Chico.