Antônio Gois: lições do fracasso
De tempos em tempos, surgem programas ou tecnologias que prometem revolucionar a educação. Há 20 anos, a novidade mais badalada globalmente era a iniciativa Um Laptop por Criança, idealizada por Nicholas Negroponte, pesquisador do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Governos ao redor do mundo — especialmente em nações em desenvolvimento — adotaram o programa, que prometia entregar computadores pessoais de baixo custo aos estudantes, equipados com softwares educativos que acelerariam sua aprendizagem. O programa hoje é um dos mais bem documentados casos de fracasso educacional, com lições que servem — ou deveriam servir — de alerta sempre quando surge uma nova promessa de revolução no setor.
Em novembro passado, saiu mais um estudo sobre os resultados do programa, de autoria de Santiago Cueto (Pontifícia Universidade Católica do Peru) e coautores, publicado pelo NBER (National Bureau of Economic Research). Desta vez a avaliação focou em 531 escolas rurais do Peru, e acompanhou a trajetória de estudantes beneficiados ao longo de sete anos, comparando com um grupo de controle (de mesmas características, mas que não foi beneficiado). Os resultados não diferem muito do verificado, em geral, em outros estudos sobre o impacto do programa. O efeito estimado no desempenho acadêmico dos estudantes foi nulo, e chegou a ser observado até um pequeno impacto negativo nas taxas de aprovação. De positivo, foram encontradas algumas evidências de melhoria nas habilidades digitais dos alunos, mas nenhum efeito nas habilidades digitais dos professores, que receberam treinamento para o uso pedagógico dos computadores.
Logo depois do Um Computador por Aluno, a bola da vez foi a Khan Academy. Fundada em 2008, a plataforma nasceu a partir de vídeos postados no YouTube com lições de conteúdos escolares. A missão da Khan Academy era bastante ousada: proporcionar educação de classe mundial para qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo. Seu criador, Sal Khan, foi eleito uma das pessoas mais influentes pela revista Time, e publicou um best-seller (“Um mundo, uma escola”), onde apresentava os conceitos de uma “educação reinventada”. Bill Gates, entusiasta do projeto, dizia na época que era o “início de uma revolução”.
Não foi. Alguns estudos chegaram a demonstrar impacto positivo, mas com uma ressalva importante, alertada pelo pesquisador Laurence Holt em artigo para a revista Education Next, em 2024. Em geral, os ganhos mais robustos na aprendizagem eram restritos a um pequeno grupo de alunos que utilizava a plataforma na frequência recomendada. No caso de um estudo da Khan Academy citado por Holt, esse percentual era de 4,7%. Um otimista muito convicto pode interpretar essa conclusão como prova de que, se todos os alunos fizessem o mesmo, os ganhos em escala seriam robustos. Em se tratando de política pública, porém, a questão mais relevante é entender por que 95% do público-alvo não se adaptou à solução proposta. Ainda que conteúdos da plataforma possam até ser de qualidade e úteis a professores e alunos, a revolução não ocorreu nos termos prometidos.
Agora é a vez da Inteligência Artificial aplicada à educação. Não há dúvida de que estamos diante de uma inovação com potencial disruptivo, em todas as áreas. Não dá para ignorar seu potencial, bem como seus riscos. Mas, antes de comprarmos de novo a ideia de que dessa vez a revolução na aprendizagem finalmente ocorrerá, o passado sugere cautela ao analisarmos as soluções que surgirão a partir desta nova tecnologia.
