ANP confirma petróleo em sítio no Ceará; agricultor que fez empréstimo para abrir poço em busca de água pode receber até 1%
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) confirmou que é petróleo cru a substância encontrada por acaso pelo agricultor Sidrônio Moreira enquanto tentava perfurar um poço artesiano em seu terreno no interior do Ceará. O achado ocorreu em uma propriedade rural em Tabuleiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, e agora abriu caminho para estudos que vão avaliar se existe viabilidade econômica para exploração comercial da área. Caso isso aconteça no futuro, o dono do terreno poderá receber uma compensação financeira prevista em lei, que varia entre 0,5% e 1% do valor da produção.
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Os testes físico-químicos concluídos pela ANP no último dia 19 apontaram que o líquido preto, viscoso e com odor semelhante ao de combustível encontrado na propriedade é, de fato, petróleo. O resultado foi comunicado nesta quarta-feira ao agricultor e também encaminhado à Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará, que poderá definir medidas ambientais relacionadas à área.
A história começou em novembro de 2024, quando Sidrônio decidiu usar as economias da aposentadoria para perfurar um poço em busca de água para abastecer a casa da família, que enfrenta dificuldades de acesso hídrico. Em vez de água, porém, jorrou um líquido escuro e espesso.
Petróleo encontrado em Tabuleiro do Norte, no Ceará
Divulgação/IFCE
— Quando eu cheguei aqui sem água, disse que ia furar um poço. Peguei o dinheiro da aposentadoria, fiz empréstimo e mandei cavar. Mas não saiu água. Saiu foi esse material — contou o agricultor.
O caso chamou a atenção de pesquisadores do Instituto Federal do Ceará, que passaram a acompanhar a situação. Análises iniciais indicaram que o material era uma mistura de hidrocarbonetos com características muito próximas às do petróleo extraído na Bacia Potiguar, região produtora localizada entre Ceará e Rio Grande do Norte.
Depois da primeira perfuração frustrada, a família decidiu abrir um segundo poço, cerca de 50 metros adiante. O resultado se repetiu: novamente surgiu a substância semelhante a petróleo.
Com a confirmação, a ANP abriu um processo administrativo para estudar a formação geológica da área, o tamanho potencial das reservas e a possibilidade de exploração comercial. O órgão, porém, ressalta que não há prazo para conclusão dessa etapa e que a confirmação da presença de petróleo não significa, necessariamente, que haverá exploração econômica.
Os técnicos da ANP visitaram a propriedade em março deste ano, após a repercussão do caso. Segundo a agência, o achado surpreendeu os especialistas porque o material foi encontrado em profundidade considerada rasa, em torno de 40 metros. Embora os técnicos não tenham coletado diretamente amostras no local, a análise utilizou material previamente separado pelos pesquisadores do IFCE.
Segundo o engenheiro químico Adriano Lima, que ajudou a família a comunicar o caso às autoridades, o processo pode levar anos. Primeiro, a agência precisa mapear tecnicamente a região e avaliar fatores como qualidade do óleo, tamanho do reservatório, impacto ambiental e custo da operação. Só depois disso a área pode ser transformada em bloco de exploração e eventualmente ofertada em leilão para empresas do setor.
A legislação brasileira estabelece que os recursos minerais do subsolo pertencem à União, mesmo quando localizados em propriedades privadas. Ainda assim, a lei prevê compensações financeiras aos proprietários das áreas exploradas. O percentual varia conforme critérios definidos pela ANP e depende da viabilidade comercial da jazida.
Enquanto o futuro da área segue indefinido, Sidrônio mantém um desejo aparentemente mais simples do que encontrar petróleo: garantir água para a família. Após a repercussão do caso, a residência voltou a ser abastecida por uma antiga adutora da região.
Mesmo assim, especialistas alertam que muitas áreas com indícios de petróleo nunca chegam a ser exploradas comercialmente. Em alguns casos, o volume encontrado é pequeno; em outros, o custo de extração torna o projeto inviável.
— O que eu queria mesmo era água. Mas agora espero que eles venham aqui, olhem isso direito e vejam se pode trazer alguma melhoria para a gente — diz o agricultor.
