Anotações de Flávio apresentam novo nome em Minas e mostram incerteza sobre palanque

 

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As anotações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) que sugeriam uma alternativa ao nome de Mateus Simões (PSD) como candidato ao governo de Minas Gerais apresentaram um novo ator na disputa regional: o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe. Em documento rascunhado por Flávio, o vice-governador do PSD, apoiado por Romeu Zema (Novo) e Nikolas Ferreira (PL-MG), é citado como uma pessoa que poderia "puxar para baixo" o projeto presidencial do filho de Jair Bolsonaro.

Após o vazamento, Flávio afirmou que as avaliações registradas no documento não refletem posições pessoais suas, mas opiniões e palpites apresentados por lideranças locais durante conversas políticas.

Dentro do PL, há três hipóteses para a disputa: embarcar nas candidaturas Simões, do senador Cleitinho (Republicanos) ou lançar um terceiro nome — entre esses, o mais citado é Flávio Roscoe.

Empresário do setor têxtil há mais de três décadas, Roscoe está em seu segundo mandato à frente da principal entidade de representação industrial do estado, cargo que ocupa desde 2018.

Sem trajetória eleitoral ganhou projeção pública ao atuar como interlocutor do setor produtivo junto à gestão do governador Romeu Zema, defendendo pautas de ajuste fiscal e melhoria do ambiente de negócios. À frente da Fiemg, posicionou-se contra o aumento do ICMS sobre produtos considerados supérfluos aprovado pelo governo mineiro em 2023, argumentando que a medida poderia reduzir investimentos e afetar a competitividade da indústria estadual.

Além da presidência da Fiemg, Roscoe ocupa a vice-presidência da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e preside o Conselho de Infraestrutura da entidade, ampliando sua atuação para o plano nacional.

Antes disso, comandou por 16 anos o Sindicato das Indústrias Têxteis de Malhas de Minas Gerais (Sindimalhas) e mantém participação em conselhos ligados a crédito, pesquisa e formação empresarial no estado.

Nos bastidores do PL mineiro, seu nome passou a circular como alternativa de candidatura própria capaz de funcionar como ponto de equilíbrio interno caso o partido não consiga convergir nem para o grupo ligado ao governo estadual nem para a candidatura de Cleitinho.

Dirigentes avaliam que o perfil empresarial poderia reduzir resistências entre diferentes alas da direita e evitar que a legenda fique subordinada ao projeto presidencial de Zema ou aprofunde disputas internas do bolsonarismo no estado.

A eventual candidatura, contudo, é tratada como plano alternativo e dependeria da manutenção do impasse político nas próximas semanas.

Integrantes do partido afirmam que Roscoe surge como opção de consenso caso fracassem as negociações em torno do apoio a Simões ou da entrada definitiva de Cleitinho na disputa pelo governo mineiro.

Fator Simões

Sem definições no estado, a divulgação das anotações explicitou uma divisão que já existia entre dirigentes e parlamentares do PL em Minas.

Parte do partido concorda com a avaliação atribuída ao senador e sustenta que Mateus Simões enfrenta dificuldades eleitorais e poderia comprometer o desempenho do bolsonarismo no estado.

Além do desempenho ainda limitado em levantamentos internos, aliados apontam como principal obstáculo sua ligação direta ao governador Romeu Zema, hoje tratado como possível presidenciável e, portanto, potencial adversário nacional de Flávio.

Outro grupo dentro da legenda, porém, reagiu à leitura. Para esses dirigentes, Simões ainda é pouco conhecido do eleitorado mineiro — fator que reduziria sua rejeição e abriria espaço para crescimento político. Pesaria a seu favor o fato de ter conduzido a articulação política da gestão Zema neste mandato, acumulando interlocução com prefeitos e lideranças regionais.

Aliados observam que o vice-governador iniciou movimento para fortalecer sua viabilidade eleitoral ao contratar o marqueteiro Paulo Vasconcelos, responsável por campanhas de Aécio Neves (PSDB).

A estratégia segue modelo já adotado em sucessões políticas mineiras, como as dos tucanos Aécio Neves, Antonio Anastasia e, mais recentemente, Fuad Noman em Belo Horizonte, baseado na melhora da avaliação da comunicação do governo para transferência de votos ao sucessor.

Racha interno

O episódio ocorre em meio a uma disputa interna no PL mineiro entre alas representadas pelo deputado federal Nikolas Ferreira e pelo deputado estadual Bruno Engler, historicamente aliados, mas hoje em posições distintas sobre a sucessão estadual. Procurado, Nikolas não comentou.

Ao GLOBO, Engler afirmou que qualquer candidatura ao governo apoiada pelo partido precisa assumir compromisso explícito com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

— A condição para qualquer candidato é apoiar o Flávio presidente. Hoje o padrinho político do Mateus é pré-candidato à Presidência e ele tem que apoiar o Zema. A não ser que ele seja vice do Flávio ou abra mão da candidatura, não tem como caminhar com o Mateus — disse.

Segundo o deputado estadual, o senador Cleitinho desponta como alternativa mais viável dentro do campo da direita.

— Hoje o Cleitinho lidera as pesquisas e está disposto a caminhar conosco — afirmou.

Aliados de Engler negam rompimento com Nikolas, mas admitem incômodo dentro do partido com o fato de o deputado federal estar percorrendo o estado ao lado de Simões. Apenas na última semana, os dois participaram de quatro agendas conjuntas no interior de Minas.

No entorno de Nikolas, interlocutores afirmam que o movimento busca manter aberta uma ponte com o governo estadual enquanto o partido ainda não define sua estratégia eleitoral. No último sábado, o deputado esteve na Papuda para conversar com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e, segundo relatos, o cenário mineiro esteve entre os temas discutidos.

Um palanque para Flávio

O principal fator de resistência a Simões dentro do PL é justamente sua associação política a Zema. Entre dirigentes da legenda, a avaliação predominante é que o governador resolveria o impasse caso integrasse a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro.

A hipótese chegou a ser bem recebida inclusive pelo entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas perdeu força nas últimas semanas. Integrantes da pré-campanha de Flávio passaram a defender a escolha de uma mulher do Nordeste como vice, sob o cálculo de ampliar a penetração eleitoral em regiões onde o bolsonarismo enfrenta maior resistência e melhorar o desempenho entre o eleitorado feminino.

O presidente do PL em Minas Gerais, Domingos Sávio, afirma que todas as alternativas seguem em análise, mas condicionadas à construção de um palanque presidencial sólido no estado.

— Imagina eu fazer campanha para o Senado apoiando um candidato a governador que não apoia o meu candidato a presidente. Esse assunto realmente é uma questão e estamos vendo se há solução — afirmou.

Segundo ele, o partido também não descarta candidatura própria.

— Existe a hipótese de termos candidatos próprios. Temos o Roscoe e ainda há tempo para discutir outros nomes. Temos um mês para filiações — disse.

Fora do PL, o vice-presidente nacional do Novo, Fred Papatella, afirmou que o impasse é acompanhado como uma disputa interna da legenda, mas destacou o peso político de Nikolas Ferreira no processo.

— Entendemos que essa é uma disputa deles. O PL é um partido muito grande, mas o Nikolas tem feito gestos e falas importantes — afirmou.

Papatella também fez ressalvas sobre uma eventual candidatura de Cleitinho ao Executivo estadual.

— O Cleitinho corre o risco de perder o capital político que construiu — disse.

Corrida pelo Senado

Um dos cenários envolve candidatura de Cleitinho ao governo, com Domingos Sávio ao Senado e disputa pela segunda vaga entre Carlos Viana (Podemos) ou outro nome do PL, como o deputado Caporezzo.

Outro desenho mantém aberta a hipótese de candidatura de Mateus Simões, tendo como aliado o secretário estadual Marcelo Aro — movimento que enfrenta resistência dentro do PL por já reduzir o espaço de indicação da legenda nas chapas majoritárias.

Dirigentes resumem que o vazamento das anotações antecipou um debate que vinha sendo conduzido de forma reservada e expôs o principal dilema da direita mineira: optar entre a continuidade administrativa do governo Zema ou a construção de um palanque integralmente alinhado à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026.