Anos sem sair do quarto: o que é ‘hikikomori’, isolamento japonês que começa a aparecer no Brasil

Anos sem sair do quarto: o que é ‘hikikomori’, isolamento japonês que começa a aparecer no Brasil - Foto
Fonte da notícia: CBN CBN

Existe um tipo de silêncio que começa atrás de uma porta que não abre mais. Quem convive com ele descreve assim: "Antes mesmo do meu dia começar, eu checo se ele dormiu, se ele está com fome, se ele está com sede, e se ele tiver, checo se tem água no quarto dele, porque eu sei que se eu não der comida ou água, ele simplesmente não vai comer ou beber." O relato é de uma mãe, publicado nas redes sociais. Outra descreve o filho assim: "De 2019 até agora, ele tem jogado e passado o tempo no computador, dia e noite. Ele não quer ver ninguém." Relatos como esse circulam na internet em várias línguas e descrevem a mesma cena: pessoas que pararam de sair do quarto. O nome disso é hikikomori. O termo é japonês e descreve um isolamento social extremo e prolongado. Foi popularizado nos anos 1990 pelo psiquiatra Saito Tamaki, que descreveu o quadro como uma espécie de “adolescência sem fim”, uma recusa das exigências da vida adulta. O Ministério da Saúde do Japão fixou um critério objetivo em 2010: pelo menos seis meses sem ir à escola, sem trabalhar e sem convívio social, quase sempre dentro de casa. Mas há casos que se arrastam por anos. A dimensão do fenômeno no Japão só ficou clara recentemente. Uma pesquisa do governo japonês estimou 1,46 milhão de pessoas entre 15 e 64 anos vivendo em algum grau de isolamento, quase 2% dessa faixa etária. O motivo mais citado foi o abandono do emprego, seguido pela pandemia. Depressão e bullying na escola ou no trabalho também aparecem entre as causas. Não é depressão A confusão mais comum é com a depressão, mas não é a mesma coisa. Quem explica a diferença é a psicanalista Carine Sayuri Goto, mestre em psicologia e integrante do Amae Institute. A brasileira mora no Japão desde 2019, na cidade de Higashine, na província de Yamagata, e atende a comunidade brasileira no país. A especialista ainda integra o Open Dialogue Network Japão, grupo japonês que discute o tema. Para ela, a diferença aparece na vitalidade. "No caso da depressão, a pessoa fica muito mal, às vezes ela não quer levantar do lado da cama, ela não tem vontade pela vida, então é tudo cinza, não tem nada que a move na vida. A gente vê claramente que falta vitalidade, que falta energia na pessoa." No hikikomori não é assim. A pessoa pode estar bem no quarto dela, fazendo o que gosta, muito voltada para videogames, internet, animes e mangás. Pode até gostar bastante do que faz ali dentro. O que define o quadro, segundo Carine, é o corte radical de qualquer relação, ou seja, menos o sofrimento e mais a recusa de viver no mundo que as outras pessoas compartilham: "Talvez seja mais uma questão de se recusar a viver num mundo que as pessoas compartilham, muito mais do que o estar no quarto porque não consegue se levantar da cama". Isolamento sem nenhum outro diagnóstico A depressão pode estar junto, e frequentemente está, assim como ansiedade social e transtornos do espectro autista, mas não necessariamente.

O psiquiatra e neurocientista Thiago Roza, professor da Universidade Federal do Paraná, onde coordena um laboratório que pesquisa saúde mental e tecnologia, explica que os japoneses separam o quadro em duas formas. No hikikomori secundário existe uma doença psiquiátrica anterior, ligada por nexo de causalidade ao isolamento. No primário, o isolamento existe por si só: "E existe o hikikomori primário, que ele existe por si só. O indivíduo até, consequentemente, pode desenvolver solidão, depressão, outros fenômenos patológicos, mas inicialmente isso não existia”. Segundo Roza, tratar apenas a comorbidade não resolve: "Muitos pacientes com hikikomori até melhoram, por exemplo, num quadro de depressão, mas eles continuam em isolamento social patológico. Por isso que é importante a gente também ter intervenções específicas para o fenômeno”. O hikikomori não é reconhecido como doença nos manuais de diagnóstico, nem na Classificação Internacional de Doenças, nem no manual americano de psiquiatria. Cenário brasileiro Roza foi o primeiro pesquisador a publicar no país o relato de um caso tratado até a recuperação completa. Em artigo de 2022, ele e colegas mapearam os casos descritos na literatura brasileira e encontraram apenas três. Ele é o primeiro a questionar o número: "Eu calculo que o número seja muito, muito, muito maior. Primeiro, os pacientes não chamam tanta atenção. Segundo, eles não buscam ajuda. Terceiro, eles deliberadamente fogem da ajuda em muitos dos casos, porque tem que sair de casa, tem que procurar tratamento, tem que buscar o auxílio de um profissional de saúde”.

O número verdadeiro, calcula, pode estar na casa dos milhares. Ele vê ainda uma ponte com um fenômeno já conhecido no Brasil: os NEET, sigla em inglês para quem não estuda, não trabalha e não está em qualificação, os jovens chamados aqui de “nem-nem”. E avalia que a tendência é de aumento, sem que existam políticas públicas ou intervenções de larga escala para lidar com isso. Não é só coisa de adolescente A imagem do adolescente trancado com o videogame já não dá conta do fenômeno. Na pesquisa do governo japonês com pessoas de 40 a 64 anos, apenas 2,1% se isolaram antes dos 20 anos, enquanto quase 40% começaram depois dos 50. O motivo mais citado nessa faixa foi a aposentadoria. O Japão hoje discute o que chama de problema 8050: pais na casa dos 80 anos sustentando filhos na casa dos 50, e o que acontece quando esses pais morrem ou adoecem. Segundo levantamento da associação KHJ, que reúne familiares, a idade média de quem cuida de uma pessoa em isolamento já chega a 66 anos. Carine observa que, entre os brasileiros que vivem no Japão, o isolamento extremo aparece pouco entre quem está em idade produtiva, porque quem migrou para trabalhar em fábrica não tem essa possibilidade, e porque, quando o sofrimento se agrava, a pessoa costuma voltar ao Brasil. O que ela vê é outro perfil: "São pessoas que vieram quando eram jovens, trabalharam por muito tempo em fábrica. Se aposenta, passa a viver com uma renda muito pequena, porque a aposentadoria no Japão é muito baixa, e acabam se isolando”. Para ela, é esse grupo que aparece com mais frequência entre os brasileiros, e é também o que leva às mortes solitárias, comuns no país. A psicanalista pondera, no entanto, que parte desses casos pode ser depressão, e não hikikomori. As telas nos dois sentidos A relação com a tecnologia é bidirecional, explica Roza. Alguém com vulnerabilidade ao trauma ou dificuldade de lidar com estresse tende ao comportamento evitativo e usa jogos, streaming e redes sociais como estratégia de enfrentamento. Isso alimenta o uso problemático de tecnologia, que por sua vez torna ainda menos necessário sair de casa. "Quanto mais tempo ele fica em casa, mais ele se engaja com tecnologia. E quanto mais ele se engaja com tecnologia, menos ele sai de casa." Carine acrescenta um dado de época: quando Saito Tamaki descreveu o fenômeno, redes sociais não existiam. Hoje, o nível de interação por elas é inédito, e ela considera isso um complicador. Papel da família Como o hikikomori não é uma doença catalogada, não existe medicamento para ele. O que se trata é o que está por baixo e o ambiente em volta. O psiquiatra Alfredo Maluf Neto, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que o primeiro passo é identificar os fatores de risco e as condições associadas: quadros de ansiedade, experiências traumáticas na infância, perdas importantes, bullying, estresse pós-traumático. Se há uma depressão moderada ou grave, um transtorno ansioso ou uma dependência digital por trás, é isso que precisa ser tratado. Ele usa uma imagem para explicar o que o isolamento prolongado provoca: "Se você não faz conexões, não tem afeto, troca de experiências, isso vai se tornando cada vez mais um núcleo fechado, sem crescimento. Como se tem atrofia muscular, a personalidade também pode atrofiar”. A família costuma entrar na conta. Segundo Maluf, o ambiente familiar às vezes é pouco funcional, com excesso de proteção ou traços de evitação social entre os próprios parentes, e por isso a terapia familiar entra com frequência no tratamento. As intervenções podem ser feitas na própria casa ou por telemedicina, e a terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens centrais. É um processo longo. O que não funciona, e nisso os três especialistas concordam, é a pressão. "Diante de uma situação que já está instalada, não adianta bater de frente. É buscar ajuda psicológica, psiquiátrica, para ir mudando determinados comportamentos. Quais são os canais e as brechas para você ir entrando nesse mundo tão fechado, e ir abrindo frestas para abrir essa situação", diz Maluf. Carine faz o mesmo alerta e vai além: tirar alguém do isolamento à força pode piorar muito o quadro: "Já tem uma questão forte envolvida no isolamento. Não se trata da gente pegar a pessoa à força e tirá-la do isolamento. Isso pode provocar uma situação muito pior”.

O que ajuda, resume ela, é não banalizar: "Se uma pessoa está isolada, não é porque está tudo bem, seja psiquicamente, seja das questões sociais, seja das questões familiares. Essa pessoa está dando a ver alguma coisa, porque o ser humano é um ser de relações”.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site CBN