Ano começa com aumento de roubos de veículos no estado: 5.344 ocorrências nos dois primeiros meses
No fim do ano passado, a empresária cearense Bruna Fernandes, de 32 anos, e o marido decidiram comprar um carro para vir de Fortaleza ao Rio passar alguns dias com parentes. Investiram R$ 150 mil numa Range Rover 2013, gastaram com revisão e pneus novos e pegaram a estrada com os dois filhos. Na noite de 8 de janeiro de 2026, o casal e o filho de 6 anos foram rendidos por dois bandidos na Rua Rocha Fragoso, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio. Ameaçado pelos ladrões armados, o marido de Bruna ainda teve de dar aos criminosos orientações sobre como ligar e dirigir o veículo. A família de Bruna entra numa estatística que aumentou no início deste ano, após uma queda em 2025: a do roubo de veículos.
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— Foi muito rápido. Estava pegando a maçaneta do lado do carona para fechar a porta, e o bandido bateu no vidro do lado do meu esposo. Eram dois caras numa moto. Vi a pistola e entendi que era um assalto. Peguei meu filho, desci do carro e um deles gritou: “Não corre, não” — conta Bruna. — Com meu filho no colo, um deles me revistou e pediu meu celular.
No primeiro bimestre de 2026, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), foram 5.344 veículos roubados, entre carros e motos, o equivalente a 90 ocorrências por dia, em média. O número representa um aumento de 5% em relação aos primeiros dois meses do ano passado. Em 2025, o índice havia tido uma queda de 18% na comparação com o ano anterior.
Sem seguro, Bruna e o marido começaram uma caçada ao carro. Ficaram duas semanas escavando grupos e perfis em redes sociais, até chegarem a uma pessoa que se dispôs a negociar com os traficantes do Morro de São Carlos, no Estácio, para onde a Range Rover foi levada. Nesse meio tempo, conta Bruna, o casal recebeu um sem-número de trotes. Um dos golpistas chegou a criar a imagem de um carro igual usando inteligência artificial para pedir um resgate:
—Eles (os traficantes) estavam pedindo R$ 20 mil pelo carro, mas queriam que o dinheiro subisse para depois o carro descer. A gente não achou uma boa proposta, porque ninguém ia subir (o São Carlos) e ninguém ia mandar o dinheiro para perder o carro e os R$ 20 mil.
Região Metropolitana
Os dados mostram forte concentração de ocorrências na Região Metropolitana. As áreas atendidas pela 59ª DP (Duque de Caxias) e pela 74ª DP (Alcântara, em São Gonçado) lideram o ranking do primeiro bimestre, com 330 e 320 registros, cada. Na sequência, aparecem áreas como Vilar dos Teles, em São João de Meriti, Madureira e Pavuna, na Zona Norte do Rio, todas com números elevados.
Fora o volume absoluto, chama atenção o ritmo de crescimento. O aumento em Alcântara foi de 158,1% em relação ao mesmo período do ano passado, o maior do estado. Outras localidades do Leste Fluminense, como Rio do Ouro e Itaboraí, também aparecem entre as maiores altas, com variações superiores a 130%.
Das 137 áreas de delegacia do estado, houve aumento nos registros em 47, enquanto 45 tiveram queda e outras 45 permaneceram estáveis. Em 38 delas — a maioria no interior — não houve sequer um caso no primeiro bimestre. Na capital, apenas duas regiões ficaram sem registros: Rocinha e Copacabana.
Douglas (nome fictício), de 45 anos, trabalhava como motorista de aplicativo na noite de 28 de janeiro. Ele havia acabado de pegar um passageiro em Guadalupe, na Zona Norte, e estava prestes a entrar na Avenida Brasil quando um carro o fechou. Sem entender o que estava ocorrendo, tentou dar ré para sair da situação, mas, ao se afastar do outro veículo, um homem desceu e anunciou o assalto.
— Depois que eu desci, ele me revistou inteiro e levou não só o meu carro, como também meu celular e o aparelho telefônico do passageiro — conta.
Segundo ele, o carro usado na emboscada havia sido roubado menos de uma hora antes. O trio de criminosos circulava havia 30 minutos com o homem como refém. Ele também trabalhava como motorista de aplicativo e havia sido abordado no Méier, na Zona Norte.
A Secretaria de Polícia Militar informou, por meio de nota, que faz o policiamento ostensivo em todo o estado e realiza desde o ano passado a Operação Impacto, voltada para a redução dos roubos de rua e de veículos. A PM também destacou o trabalho conjunto com a Polícia Civil no combate aos desmanches de veículos e o uso da tecnologia no enfrentamento ao crime, com sistemas de videomonitoramento e de reconhecimento facial e de placas.
Operação Torniquete
Já a Secretaria de Polícia Civil destacou que “a análise isolada de recortes pode gerar distorções na interpretação dos dados” e que houve queda de 14% nos roubos de veículo quando se analisa apenas o mês de fevereiro. “Esse resultado é reflexo do trabalho técnico, baseado em inteligência e planejamento estratégico”, diz a nota. A secretaria disse também que entre as principais frentes de combate ao crime está a Operação Torniquete, “que atua diariamente no combate a roubo, furto e receptação de cargas e veículos”, o que levou, desde 2024, a mais de 860 prisões e à recuperação de cargas e veículos avaliados em mais de R$ 50 milhões.
Para especialistas em segurança, o avanço, embora ainda modesto, ocorre num contexto de intensificação de ações contra facções, que pressionam recursos e podem afetar o policiamento de rotina, além de expor o papel estratégico desse tipo de crime na dinâmica das quadrilhas, como base para deslocamento, prática de outros delitos e manutenção do controle territorial.
Uma das hipóteses para explicar a alta está no impacto indireto das recorrentes incursões armadas realizadas pelas polícias em áreas dominadas por facções. Com efetivo e recursos limitados, a priorização dessas ações tende a concentrar esforços em territórios específicos, reduzindo a capacidade de policiamento ostensivo em outras regiões e abrindo espaço para o avanço de crimes como o roubo de veículos, especialmente em áreas já historicamente vulneráveis.
— O cenário criminal é muito flexível e, quando você prioriza ações especiais, pode acabar faltando para o patrulhamento diário. Hoje, o que se vê é uma atuação muito reativa das forças de segurança, com impacto imediato, mas sem produzir mudanças consistentes— analisa o ex-coronel da PM Robson Rodrigues.
