Anna Maria Maiolino dá forma sensual e política à argila, sem ser panfletária: 'Se o outro não vê, não é arte'
Longos espaguetes em tons terrosos, avermelhados ou clareados em bege. Uma baguete cuja massa se alonga em voltas sucessivas. Cobras ou minhocas inanimadas, em repouso. O trabalho de Anna Maria Maiolino desperta múltiplas interpretações a cada olhar. A artista, de 84 anos, com uma das produções mais aclamadas da cena latino-americana, refere-se às obras de argila, em cores variadas, como comida ou massinhas de modelar — dessas que as crianças brincam na escola. Ou, simplesmente, esterco.
Atualmente em cartaz na exposição “Terra poética”, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, a artista concebeu uma espécie de jardim que, em vez de árvores e flores, reúne esculturas formadas por esses mesmos rolos e outras peças. Trabalhando com o barro desde a década de 1980, Maiolino recorre hoje a uma máquina industrial, a extrusora, para dar essa forma à argila.
Exposição de Anna Maria Maiolino no MAAT, em Lisboa
Pedro Tropa/Divulgação
Em certos momentos, no entanto, o processo pede a intervenção das mãos, ajustando cada peça até atingir o tamanho certo. Resultado: formas sensuais — não no sentido erótico. São superfícies que convidam o olhar a percorrer curvas e volumes. Frequentemente associado a dimensões feministas, o trabalho remete às memórias da artista dos momentos em família no preparo da massa. Para ela, “a argila e a forma do pão é a mesma coisa”. Já o contato com a terra também lhe lembra o gesto de arar o terreno para plantio.
— A argila é um elemento fantástico. Possibilita qualquer elaboração e forma. Qualquer elemento que você utiliza pode ser arte, poesia — observa Maiolino, que contou com a ajuda de dez pessoas para a montagem da exposição em Portugal. — Trabalhar a argila não exige necessariamente o coletivo. Mas as metáforas aqui são possíveis, porque a terra muitas vezes é trabalhada coletivamente por várias pessoas.
Obra de peso
Ao todo, o MAAT reúne 8,5 toneladas de argila, somando todas as esculturas. O peso das obras, aliás, já foi motivo de preocupação para a artista, que chegou a ouvir um alerta do dono do apartamento onde vivia, no Rio: “Para de fazer isso porque o prédio ainda vai vir abaixo”.
A obra de Maiolino carrega marcas dos lugares por onde passou. Nascida na Itália, ela viveu a infância na Venezuela e ainda passou por Argentina e EUA, até se estabelecer no Brasil nos anos 1960. Hoje, tem coração brasileiro, diz. Ao longo das décadas, trabalhou com diferentes suportes: pintura, desenho, xilogravura, fotografia, vídeo e performance, além das já famosas esculturas em barro.
A longa trajetória a projetou mundo afora. Nos últimos anos, a artista foi homenageada na Bienal de Veneza, em 2024, onde recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da obra, e ganhou grande exposição no Museu Picasso, em Paris, encerrada há alguns meses.
— Mas é um reconhecimento tardio. Não se percebia bem para onde aquilo ia ou de onde vinha. Esse reconhecimento, como ela diz, é o que permitiu-lhe fazer, como qualquer imigrante, uma casa e pensar nos filhos — afirma João Pinharanda, diretor do MAAT e curador da mostra ao lado de Sergio Mah. — Seu trabalho é delicado e sensível, mas ela é muito forte.
Trabalhando com Maiolino desde 2014, Luisa Strina afirma que se surpreende com a força da artista em continuar dedicada à sua obra:
— É um momento muito forte. Ela segue produzindo, viajando para montar exposições e, ao mesmo tempo, recebendo um reconhecimento importante. Impressiona esse ritmo e sua presença — diz a marchande, cuja galeria em São Paulo deve abrir uma individual de Maiolino em agosto.
Obra sem título, da série 'Terra modelada', de Anna Maria Maiolino
Pedro Tropa/Divulgação
A artista, por sua vez, considera este momento um período em que colhe frutos depois de muito trabalho.
— É sobre toda a minha vida, porque eu tenho 65 anos de produção. Chega o momento em que o trabalho fica mais maduro e realmente nós fazemos uma colheita.
Mas longe de achar que ela procura produzir algum trabalho “perfeito”:
— Se utiliza o pincel, é um comportamento. Se utiliza o lápis, é outro. Trabalho também com mídias contemporâneas: faço fotos, mas não sou fotógrafa. Faço vídeo, mas não sou videomaker. Vou, na minha ignorância, me juntando a pessoas que me ajudam. Mas, agora com o digital, faço até sozinha a minha própria fotografia — conta Maiolino. — E tem uma coisa: não sou uma artista que quer perfeição. Incorporo o erro no meu trabalho. Então, se a fotografia não é 100%, tudo bem. O importante é a ideia, mais do que aquilo que é fotografado.
‘Para compartilhar’
Na exposição no MAAT, fica claro que Maiolino não se prende a erros. Seu trabalho passa por uma sucessão de rabiscos, nos quais testa formas e imagina os contornos das esculturas. Ao todo, são 106 desenhos — realizados entre 1990 e 2025 — da série “Tempestade de ideias”. As figuras funcionam como esboços, um campo de experimentação que antecede a elaboração em argila. E há um cuidado na concepção dos trabalhos, revelado até nas anotações das medidas que cada peça ocupará no espaço.
Logo depois de chegar ao Brasil, a artista enveredou por temas políticos. Durante a ditadura militar, apresentou “Entrevidas”, em 1981, performance em repúdio à tortura e uma celebração da vida. A cena é revisitada em “KA”, que ela apresenta no Museu do Amanhã, no Centro do Rio, nesta quinta-feira (6), às 15h — é a terceira apresentação, após passar pelo Masp, em São Paulo, e pelo próprio MAAT.
Anna Maria Maiolino faz performance de 'KA' no MAAT
Joana Linda/Divulgação
Na apresentação, a artista e convidados caminham entre ovos, com as mãos levantadas — agora como um manifesto contra a violência, das guerras à insegurança nas grandes cidades. A performance integra um conjunto de obras de caráter político, sem, no entanto, assumir um tom “panfletário”, de acordo com João Pinharanda.
— A obra de arte só é realmente arte quando se tem o outro. Se o outro não vê, não é arte. Primeiro o artista faz (um trabalho) pelo prazer que dá, que é infinito. Mas também para compartilhar. E isso é um ato político — diz Maiolino. — Que sorte a minha. Tive sorte: trabalho naquilo que gosto. Isso é uma bênção.
Serviço
“Terra poética”
Onde: Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT). Avenida Brasília, Central Tejo, Lisboa. Visitação: quarta a segunda, das 10h às 19h. Até 30 de agosto. Quanto: 15€ para residentes em Portugal e 20€ para residentes de fora (valores a partir dos 13 anos). Classificação: livre.
“KA”
Onde: Museu do Amanhã. Praça Mauá, 1 - Centro, Rio de Janeiro. Quando: nesta quinta (7/5), às 15h. Quanto: grátis. Classificação: livre.
* Alan Souza viajou a convite do MAAT
