A falta de público em 2024 levou Angel Ferreira a fazer um apelo nas redes sociais para o público conhecer Sidarta, monólogo que ele criou a partir do livro de Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura.
Esse cenário mudou e a atual montagem da peça, que está em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, já estreou com ingressos esgotados e temporada prorrogada.
Em conversa exclusiva com a Quem, o ator, de 38 anos, fala sobre o espetáculo e também sobre especulações envolvendo sua vida pessoal, incluindo a decisão de morar em um ônibus "no meio do mato", a sua mudança de nome e o rótulo de "ex-namorado" da atriz Camila Pitanga.
Em Sidarta, o personagem-título deixa a casa dos pais em busca de autoconhecimento.
No caminho, ele se depara com vários mestres, incluindo Buda, mas entende que, para se conhecer de fato, ele não precisa de conselhos, mas, sim, de vivências próprias.
É justamente essa temática que, na visão de Angel, tornou seu espetáculo um sucesso.
“Sinto que as pessoas estão com uma necessidade muito grande de ver uma peça que fale de olhar para dentro e de se reconectar com a natureza num mundo tão acelerado e hiperestimulado.
A peça tem sido um refúgio para muitas pessoas”, afirma.
Angel
Andy Santana/Brazil News
Nos últimos anos, o ator optou por ficar longe da TV e essa decisão veio justamente como uma necessidade de se reencontrar, seguindo a mesma premissa de Sidarta.
“Ninguém prepara a gente para a fama.
Ninguém te fala o que que vai acontecer quando você começar a ser reconhecido.
Para uma pessoa muito jovem, isso pode ser desafiador mesmo, porque o tempo inteiro atrelam a tua existência ao seu trabalho e você não consegue dissociar isso”, pontua o artista, que ganhou grande reconhecimento ao atuar em Babilônia (2015) e O Outro Lado do Paraíso (2017–2018).
Nesse processo, ele se aproximou da natureza e decidiu passar temporadas morando em um ônibus, que foi transformado em uma casa, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás.
“Morar no meio do mato é parte daquilo que eu acredito que é fundamental para um artista hoje em dia.
Morar num ônibus é pegar uma sucata e reciclá-la.
Isso é um ato político e uma afirmação daquilo que eu sou e da arte que eu faço.
Algumas coisas se distorcem nesse caminho.
Não moro sem energia, eu tenho placa solar e tenho conforto ali.
Também tenho saneamento.
Não é um saneamento ligado à rede municipal, mas eu tenho um biodigestor ligado a uma fossa de bananeira.
Tenho uma vida confortável.
Eu quero o melhor da vida e não quero viver de privação ou escassez.”
Angel
Andy Santana/Brazil News
O estilo de vida de Angel gerou curiosidade e o ator viralizou recentemente nas redes sociais.
Com isso, um rótulo voltou à tona: o de ex-namorado de Camila Pitanga.
O relacionamento durou de 2015 a 2017 e eles seguem amigos.
“Quando eu penso que a gente não é mais namorado há quase 10 anos, é chocante que essa ainda seja uma maneira de se referenciar a mim.
Óbvio que uma parte de mim fica muito orgulhosa.
Camila é um mulherão, uma atriz maravilhosa, uma pessoa que é uma amiga minha.
A gente tem nossa amizade, nosso carinho, nos acompanhamos e agora ela vai casar com o Patrick [Pessoa], que também é um cara absolutamente maravilhoso e querido”, comenta.
Vale lembrar que Angel ficou conhecido como Igor Angelkorte e sua mudança de nome aconteceu em 2024.
À Quem, ele ressalta que antigamente era comum os artistas adotarem nomes artísticos.
“A nossa geração, salvo exceções, colou muito a nossa persona artista ao nosso eu físico e isso é perigoso”, enfatiza.
No entanto, sua principal motivação para a mudança foi outra.
“Aconteceu tanta coisa na minha vida nos últimos anos que eu sentia que eu precisava de algum ritual que me ajudasse a firmar os meus valores de agora e o que eu tô vivendo.
Eu não imaginava que eu fosse mudar de nome, mas foi o que se revelou para mim como necessário e eu só respeito.”
Você está há dois anos em cartaz com Sidarta e, dessa vez, a peça já estreou esgotada e com a temporada prorrogada.
Ao que você atrela esse sucesso?
A gente está em um novo momento do teatro.
As estratégias mudaram muito.
Quando a gente começou, a gente colava cartaz em boteco, em faculdade e, hoje em dia, esse tipo de estratégia não funciona.
Tive um intervalo de uns cinco anos sem fazer teatro e o mundo mudou muito nesse período.
Eu e a produtora da peça precisamos fazer um alinhamento de estratégia para incluir as redes sociais na divulgação e entender como a gente poderia fazer postagens e articulações dessa natureza.
Outra coisa é o boca a boca.
Sinto que as pessoas estão com uma necessidade muito grande de ver uma peça que fale de olhar para dentro e de se reconectar com a natureza num mundo tão acelerado e hiperestimulado.
Sinto que a peça tem sido um refúgio para muitas pessoas.
Angel
Andy Santana/Brazil News
É uma peça inspirada em um livro.
Qual o desafio de tirar uma história das páginas e colocar no palco?
O livro tem umas 6h se você fizer uma leitura corrida dele.
Então, o que você escolhe [colocar em cena]? A maneira como eu lidei com isso foi contando a história.
Eu nunca decorei o texto, nunca fiz uma adaptação escrita, que geralmente é o caminho tradicional.
Eu li ele durante muitos anos e, depois, comecei a contar de memória.
Sabe como quem viveu uma história? Uma coisa que você viveu na sua infância e conta para as pessoas? Cada vez que vai repetindo, você vai encontrando coisas que gosta de falar.
Fui pegando o jeitinho de contar essa história e fui deixando que a minha memória fizesse esse trabalho de edição.
Deixei que a minha memória revelasse para mim que adaptação seria essa.
Todo esse processo durou quanto tempo?
Uns cinco anos.
Teve uma época que eu já estava achando que eu não ia mais fazer essa peça.
Achei que seria um projeto de gaveta, que me inspirou durante um tempo, mas não ia acontecer.
Aí teve uma cigana que falou para mim assim: “Você não vai montar essa peça enquanto levar a espiritualidade a sério e tiver medo da tua santidade e de perder o profano.
Você tem que lembrar que a vida é uma brincadeira”.
Ela tocou fundo no meu coração.
Eu falei: “É isso”.
Foi então que trouxe o meu palhaço para dentro da peça.
Quando eu comecei a brincar, saiu.
Não dá para falar de autoconhecimento querendo ser sisudo.
A peça precisa ser brincante.
Angel
Andy Santana/Brazil News
O protagonista da peça vai tendo vários encontros no caminho, inclusive com Buda, mas ele não quer parar para escutar ninguém.
Só que isso muda quando ele encontra o barqueiro.
Qual é o simbolismo desse personagem e como você enxerga ele dentro dessa narrativa?
Caramba, nunca me fizeram essa pergunta.
O que acho muito interessante nesta peça é que ele [o protagonista] chama a responsabilidade do autoconhecimento para si.
Ele não terceiriza isso.
Ele não coloca isso na mão de um dogma, de uma doutrina, de um coach ou de um mestre.
Ele conhece o Buda e fala: “Cara, você é um iluminado.
Não tenho dúvida disso, mas eu vou seguir o meu caminho porque eu quero me encontrar por conta própria”.
Então ele vai encontrando esses mestres e se inspira em todos eles, mas sempre volta para dentro de si.
É um sussurro de dentro que orienta ele.
E o balseiro é uma figura muito conectada à natureza.
É um homem simples, analfabeto, que acredita no rio.
Ele escuta o rio todo dia.
Assim como o balseiro, ele se conecta com a natureza e a natureza se torna a principal professora dele.
Acho que a gente precisa pensar nisso nesse mundo que a gente está vivendo, de emergência climática.
Ele também percebe que essa sabedoria vem também da vivência.
Você acha isso atual, principalmente pelo fato de vivermos em um mundo tão conectado?
Sim, é interessante pensar que o mundo virtual está em oposição à vivência, né? Eu ouço isso na sua fala e concordo.
Às vezes, aquilo ali parece uma vida, mas é uma projeção digital de uma existência, ou seja, é limitada.
É limitada de cheiro, de toque, de prazer, de sentires.
Esse personagem nos ensina que é possível encontrar a paz sem renunciar à vida.
Ele medita, mas ele não se enfia numa caverna e se esconde no mundo.
Ele faz amor, ele se embrenha nos vícios, ele se perde, ele se encontra, ele sobe e desce nesse caminho, então não tem uma direção certa ou resposta que vai resolver o mistério da existência, mas existe a possibilidade de você estar consciente a cada momento que está vivendo.
Angel
Andy Santana/Brazil News
O protagonista percebe no percurso que não é o dinheiro que traz a verdadeira felicidade.
Você se identifica com isso? É uma premissa que você segue na sua vida?
Totalmente.
Tem uma frase do Jim Carrey que eu amo, que ele fala que queria que todo mundo algum dia fosse rico e famoso para descobrir que não é isso que traz um estado de fruição a vida.
A gente vive em um mundo que nos diz que, se você não está bem é porque está te faltando fama e grana.
Claro que a gente tem que ter conforto e o básico social deve ser garantido para todo mundo, mas depois disso você vai continuar com um bom problema que é: estar com você mesmo.
Se você não estiver em paz com o teu silêncio, você pode ser quem for, você não vai estar bem, por isso, é importante silenciar, se conhecer e olhar para dentro.
Imagino que a maioria dos atores no começo da carreira almeja o sucesso, porque como você disse a gente é ensinado que para "chegar lá" é preciso ter fama, sucesso e dinheiro.
Você se iludiu com isso nesse processo?
Cara, eu acho que ninguém prepara a gente para a fama.
Ninguém te fala o que que vai acontecer quando você começar a ser reconhecido.
Para uma pessoa muito jovem, isso pode ser desafiador mesmo, porque o tempo inteiro atrelam a tua existência ao seu trabalho e você não consegue dissociar isso.
Todo lugar que você chega, aquela imagem do ator vem de frente.
Num primeiro momento, isso pode ser lindo, porque é um reconhecimento do seu trabalho.
Você se delicia com isso.
É bonito as pessoas sorrirem para você na rua, mas tem um momento que você também tem a necessidade de privacidade, de espaço e, como artista, eu gosto de observar a vida.
Em 2018 mais ou menos, quando eu estava mais famoso, porque eu dei um tempo, era desafiador, porque todo lugar que eu ia isso vinha muito à frente.
Eu não estava preparado pra viver isso de chegar em qualquer lugar e ser abordado.
Isso começou a ser frustrante para mim, porque às vezes eu queria ter uma relação mais direta e simples com as pessoas.
Queria poder conhecê-las e essa coisa de estar ali com o símbolo de ser um ator global e de estar quase em cima de um pedestal, às vezes é limitador para a experiência da troca verdadeira.
"Ninguém prepara a gente para a fama.
É bonito as pessoas sorrirem para você na rua, mas tem um momento que você também tem a necessidade de privacidade"
Angel
Andy Santana/Brazil News
Vi que você já falou que precisa cuidar muito do seu corpo para dar conta do espetáculo e não se machucar em cena.
Queria entender um pouco melhor como é sua preparação.
Como esse personagem vive, tem delírio, prazer, queda e vai para beira do precipício, a peça se torna muito física, é um grande bailado.
Todo o meu desejo de ser bailarino mora nela.
E agora eu estou perto dos 40, então a vida te ensina a ser mais responsável e cuidadoso com o corpo.
Ela te tira aquela inocência que a gente tem quando é jovem de que o corpo é de borracha e te devolve uma coisa que é a consciência corporal.
Se eu não me alongo todo dia, se eu não medito, se eu não esquento o meu corpo e não preparo ele, não consigo fazer algumas posições na peça.
Já aconteceu de eu dar mau jeito na musculatura e depois passar dias sem conseguir fazer a peça direito, pois está com os movimentos limitados por conta da dor.
Esse espetáculo me ensina a ser regular nas minhas práticas.
Como a nudez entra na história? Qual é o contexto e como é para você fazer essa cena no teatro?
É muito tranquilo para mim, de verdade.
Eu não penso muito sobre isso.
Sei que é um assunto que pode tocar e fazer as pessoas ficarem mobilizadas, mas o personagem anda desnudo como um símbolo de desapego.
O desapego de tudo o que pode representar a vida anterior dele.
Como Zé Celso falava, a nudez no teatro é uma desintoxicação cultural.
Faz a gente lembrar que todo mundo é bicho, todo mundo é gente e que todo mundo tem um corpo.
E a gente não é esse corpo, então não precisa levar ele tão a sério.
"A nudez no teatro é uma desintoxicação cultural.
Faz a gente lembrar que todo mundo é bicho, todo mundo é gente e que todo mundo tem um corpo"
Angel
Andy Santana/Brazil News
Angel
Andy Santana/Brazil News
Recentemente, viralizou que você está vivendo em um ônibus sem energia e saneamento na Chapada.
Isso despertou a curiosidade de muitas pessoas sobre seu estilo de vida.
É verdade que está vivendo dessa forma?
É engraçado, porque às vezes decido falar um pouco da minha vida — entendo que ela gere curiosidade — e isso fica maior do que o meu trabalho em si.
Eu me sinto confuso.
Às vezes penso: para que eu vou dar uma entrevista, isso vai gerar o que? Acho que precisa ter um equilíbrio.
Minha vida também é um trabalho.
Minha vida também é uma expressão da minha arte.
Morar no meio do mato é parte daquilo que eu acredito que é fundamental para um artista hoje em dia.
Morar num ônibus é pegar uma sucata e reciclá-la.
Isso é um ato político, isso é uma afirmação daquilo que eu sou e da arte que eu faço.
Algumas coisas se distorcem nesse caminho.
Não moro sem energia, eu tenho placa solar, eu tenho conforto ali.
Também tenho saneamento.
Não é um saneamento ligado à rede municipal, mas eu tenho um biodigestor ligado a uma fossa de bananeira.
Tenho uma vida confortável.
Eu quero o melhor da vida e não quero viver uma vida de privação ou escassez.
Está tudo lindo.
Não estou perdido no meio do mato.
Vivo em integração com a comunidade e cuido de uma casa de cultura lá [na Chapada] que fundei, chamada Casa Candeia de Cultura.
Lá dou aula de teatro, a gente recebe espetáculos, shows e forma uma garotada que não tem referência teatral.
Estou contribuindo com a cultura que já existe localmente, não estou inventando a roda, mas lá é interior do interior, do interior, então o acesso é mais difícil.
“Morar num ônibus é pegar uma sucata e reciclá-la.
Isso é um ato político e uma afirmação daquilo que eu sou e da arte que eu faço”
Por que gosta de viver lá?
Porque quando eu tô lá, eu posso me relacionar com breu.
Na cidade, não tem breu, ela nunca desliga.
Também posso me relacionar com o barulho dos animais na mata e isso regula a gente.
A neurociência já comprovou, não é nenhum misticismo.
Angel
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Mas, pelo que entendi, você não fica só no meio do mato quando está na Chapada, você toca projetos culturais por lá, certo?
Totalmente.
Eu fui a Gramado lançar um filme e as pessoas que me encontravam falavam: “Você não é o menino que mora no meio do mato?”.
Eu sou um artista.
Posso estar em Berlim, posso estar na Ásia, posso estar em São Paulo, no Rio de Janeiro, fazer uma novela, uma série, um filme, voltar para lá [Chapada] e cuidar da minha casa de cultura.
Eu circulo.
Para mim, isso é parte do estar no mundo.
"Tenho uma vida confortável.
Eu quero o melhor da vida e não quero viver uma vida de privação ou escassez.
Está tudo lindo.
Não estou perdido no meio do mato"
Sempre que seu nome vem à tona, você costuma ser rotulado como "ex da Camila Pitanga".
Isso é algo que te incomoda?
É uma ótima pergunta.
Eu agradeço, porque poder falar disso também ajuda a encaminhar esse assunto.
Quando eu penso que a gente não é mais namorado há quase 10 anos, é chocante que essa ainda seja uma maneira de se referenciar a mim.
Óbvio que uma parte de mim fica muito orgulhosa.
Camila é um mulherão, uma atriz maravilhosa, uma pessoa que é uma amiga minha.
A gente tem nossa amizade, nosso carinho, nos acompanhamos e agora ela vai casar com o Patrick [Pessoa], que também é um cara absolutamente maravilhoso e querido.
Ele, inclusive, é curador de festival e já me levou para fazer Sidarta lá em Curitiba.
Quando eu vejo isso, eu me sinto desconfortável, claro, porque há uma necessidade de seguir em frente.
Consigo compreender essa necessidade do jornalismo de localizar e dar memória ao leitor, mas quando isso vira uma coisa de clickbait, fico frustrado.
Se for tudo em nome do lucro, a gente vai se perder.
Angel
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“Quando eu penso que eu e Camila Pitanga não somos mais namorados há quase 10 anos, é chocante que essa ainda seja uma maneira de se referenciar a mim"
Você está mais maduro.
Como sua mudança de nome combina com sua atual fase? Confesso que a princípio achei que tinha mudado porque se identificava como uma pessoa não-binária, mas não tem a ver com isso, né?
Tem uma coisa que eu amo, que os artistas antigamente faziam, que é ter um nome artístico.
Acho isso uma sabedoria tremenda.
A nossa geração, salvo exceções, colou muito a nossa persona artista ao nosso eu físico, com o nosso CPF, e isso é perigoso.
O Pelé tinha uma sabedoria, ele falava dele na terceira pessoa, o que era uma coisa estranha, mas o Pelé foi uma das pessoas mais famosas do planeta Terra.
Se ele falava dele em terceira pessoa, tinha alguma malandragem ali para preservar um espaço interno.
Se a gente cola, a gente corre o risco de acreditar nessa persona.
Então esse foi o principal motivo, separar o pessoal do profissional?
Talvez esse não seja o motivo pelo qual eu troquei de nome.
Quando você pergunta se esse é o motivo, acho que essa é uma das coisas que eu amo no fato de ter trocado de nome, mas percebo que, na verdade, foi apenas uma necessidade de me expressar de uma outra forma, de lembrar que a gente pode morrer e renascer em vida, sacou? E isso é estimulante para mim.
Angel
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Só para ver se eu entendi.
Quando você está, por exemplo, lá no mato, na Chapada, você também se vê como Angel?
Sim, Angel.
Eu assino o Igor em um contrato, quando vou alugar um apartamento, fazer um plano de saúde, coisas assim.
Não tenho pretensão de mudar de nome [no papel].
Aconteceu tanta coisa na minha vida nos últimos anos que eu sentia que eu precisava de algum ritual que me ajudasse a firmar os meus valores de agora e o que eu tô vivendo.
Eu não imaginava que eu fosse mudar de nome, mas foi o que se revelou para mim como necessário e eu só respeito.
Você comentou que se afastou um pouco da fama.
Você pretende voltar? Se sim, para onde exatamente?
Percebo que eu me fechei para o espaço público durante um tempo da minha vida.
Eu fiquei realmente cansado dessa dinâmica e da coisa invasiva que acontecia em alguns momentos.
Eu me fechei e desejei em algum momento ser anônimo de novo.
Conversei com o universo e falei: “Eu quero voltar a ser anônimo.
Quero que ninguém me reconheça”.
Eu desejei isso.
E isso começou a acontecer, porque as pessoas vão esquecendo.
Você para de fazer novela, vai ficando mais longe, vai mudando, vai envelhecendo.
Claro que muitas pessoas seguem me reconhecendo na rua, mas ficou menos aguda a coisa e fui entrando num campo mais tranquilo.
Fui ficando mais velho também e percebi que isso é um sacerdócio.
O trabalho artístico é servir e existem coisas que vêm junto com isso, uma delas é ser abordado em qualquer momento da vida, seja no meio de uma garfada, no meio de um choro num aeroporto, no meio de um momento de silêncio ou no meio de uma ideia genial.
Nesse processo, eu fui ganhando mais humildade e entendi que não é sobre mim, é sobre o meu trabalho.
Senti saudade e vontade de retomar, mas num outro grau.
Quero seguir contando histórias, fazendo teatro, novela, cinema, série e o que eu sei fazer.
Angel
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Angel
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