Anéis de crescimento de árvores revelam a origem de alguns dos melhores violinos do mundo

 

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Todos desejam um pedaço de alguns dos violinos mais famosos do mundo. Suíça, França, Eslovênia e outros países europeus já afirmaram que a madeira usada nos célebres instrumentos de corda de Antonio Stradivari provém de suas florestas. Mas, agora, um estudo dos anéis de crescimento da madeira usada nos Stradivarius, publicado em janeiro na revista Dendrochronologia, revelou a origem mais provável de alguns dos violinos do artesão: árvores que crescem em altitudes elevadas no norte da Itália, no mesmo vale que sediou parte dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026.

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Antonio Stradivari produziu mais de 800 instrumentos nos séculos XVII e XVIII, a maioria violinos, mas também violoncelos, violões e uma harpa. Um instrumento Stradivarius é valorizado por muitos motivos, mas principalmente por sua qualidade sonora superior.

"Ele fazia tudo melhor", disse Peter Beare, diretor da Beare Violins Ltd., na Inglaterra, uma empresa que restaura, vende e autentica violinos de alta qualidade.

Antonio Stradivari (c. 1644–1737) – Violino cremonês, 1715. Coleções Liutarie do Município de Cremona, em exposição no Museu do Violino.

Reprodução/ Cortesia do Museu do Violino para o The New York Times

A madeira usada na fabricação de um violino — especialmente a superfície frontal, conhecida como tampo harmônico — é crucial. Parâmetros como densidade e rigidez da madeira afetam diretamente o som final do violino. "A escolha da madeira é muito, muito importante", disse Beare.

Sabe-se que Stradivari preferia o abeto, mas a origem exata dessa madeira permanece um mistério. É aí que entra o estudo dos anéis de crescimento das árvores — a dendrocronologia.

A maioria das árvores produz um anel de crescimento a cada ano, e a largura desses anéis depende das condições ambientais. Altos níveis de umidade tendem a resultar em anéis mais largos, por exemplo. Assim, uma sequência de anéis de crescimento é como um código de barras que registra as condições experimentadas por uma árvore ano após ano.

E esses anéis podem ser medidos nas caixas de ressonância dos violinos. Foi isso que o dendrocronologista e luthier John Topham fez ao longo de várias décadas. Antes de falecer no ano passado, Topham compartilhou suas meticulosas medições de 284 violinos Stradivarius com Mauro Bernabei, um dendrocronologista do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, em San Michele all'Adige. É um verdadeiro tesouro de dados, disse Bernabei.

Mas esses registros por si só não revelam nada sobre a origem da madeira utilizada por Stradivari. Para isso, Bernabei e seus colegas compararam os padrões encontrados nos violinos com registros de anéis de crescimento coletados em mais de 6 mil locais ao redor do mundo e arquivados no Banco Internacional de Dados de Anéis de Crescimento de Árvores.

“Cada floresta ou cadeia de montanhas tem um padrão ligeiramente único de anéis largos e estreitos ao longo do tempo”, disse Chris Guiterman, dendrocronologista da Universidade do Colorado que ajuda a gerenciar o banco de dados e não participou da pesquisa. “Essas peculiaridades ajudam a identificar árvores de um local desconhecido.”

Floresta Paneveggio na Itália.

Parque Natural Paneveggio Pale di San Martino/ Reprodução New York Times

Foi um desafio encontrar registros que remontassem à época de Stradivari. “Não é fácil encontrar madeira antiga”, disse Bernabei. Alguns dos dados que a equipe usou vieram de medições de vigas de madeira de castelos e igrejas. Havia incerteza nesse processo, admitiu Bernabei. “Você não sabe se um castelo é feito de madeira da floresta que o cerca.”

Bernabei e seus colegas agruparam registros de violinos que exibiam padrões de anéis de crescimento semelhantes e compilaram uma sequência média de anéis de crescimento para cada grupo. Quando os pesquisadores compararam essas médias com os registros do Banco Internacional de Dados de Anéis de Crescimento de Árvores, descobriram que pouco mais da metade dos violinos em sua amostra não apresentavam uma correspondência conclusiva. É praticamente impossível afirmar algo sobre a origem da madeira desses violinos, além de dizer que provavelmente veio da Itália, Suíça ou Áustria, disse Bernabei.

Mas a sequência média dos anéis de crescimento de uma parcela considerável dos violinos da amostra apresentou boa correlação com os anéis de árvores da região próxima a Trentino, no norte da Itália, e especificamente com as áreas de maior altitude do Val di Fiemme. Curiosamente, esses violinos tendem a ter sido produzidos durante a chamada Era de Ouro de Stradivari, aproximadamente entre 1700 e 1725, um período marcado pela produção de instrumentos Stradivarius de altíssima qualidade. Talvez Stradivari tenha produzido suas melhores obras quando encontrou uma fonte de madeira no Val di Fiemme e se manteve fiel a ela, disse Bernabei.

Isso faz sentido, disse Beare, que não participou do estudo. Mas essa descoberta não deve diminuir o gênio de Stradivari, acrescentou. Foi a habilidade do artesão, aliada a materiais excepcionais, que permitiu a Stradivari produzir algumas de suas melhores peças, afirmou. A madeira por si só não garante o sucesso.

"Você pode ter a melhor peça de madeira e ainda assim estragá-la completamente", disse Beare.