O cirurgião plástico André Melo, indiciado pela Polícia Civil do Pará por homicídio culposo majorado e falsidade ideológica no caso da morte da empresária Giovanna Coelho Gomes, de 29 anos, entrou com um pedido de abertura de sindicância contra a médica oftalmologista Ana Caroline Coelho, irmã da vítima, no Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará (CRM-PA).
O pedido ocorre após manifestações de Ana Caroline nas redes sociais cobrando justiça pela morte da irmã, ocorrida em 8 de agosto de 2026, após complicações decorrentes de quatro cirurgias plásticas combinadas. O caso segue sem desfecho no CRM-PA, dois meses após a morte da empresária.
A reportagem tenta contato com a defesa do cirurgião plástico André Melo e também procurou o Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará, bem como o Conselho Federal de Medicina (CFM) para solicitar um posicionamento sobre o caso. Ainda não houve retornos.
A reportagem do Grupo Liberal conversou, nesta quinta-feira (15), com o advogado Daniel Gualberto, que atua na defesa da família de Giovanna. Ele afirmou que recebeu com surpresa a notificação sobre a abertura da sindicância contra Ana Caroline e questionou a iniciativa. “Nós recebemos com muita surpresa a notificação de abertura de sindicância em face da Ana Caroline, médica e irmã da Giovanna. Essa é uma tentativa baixa de silenciar os familiares quanto ao nefasto evento ocorrido com a irmã da sindicada”, disse o advogado.
Gualberto também defendeu que as manifestações da oftalmologista nas redes sociais foram baseadas em documentos médicos e policiais relacionados à investigação. “Em nenhum momento a Caroline atribuiu culpa ao denunciante. O que fez foi apenas se basear nos documentos médicos e policiais que atestaram de maneira inequívoca os motivos da morte de sua irmã e o grau de responsabilidade do profissional sindicante. Como advogado da Ana Caroline, em razão do sigilo que permeia a sindicância junto ao CRM, posso afirmar: todos os ditames do Código de Ética Médica estão sendo respeitados e, no procedimento, serão esclarecidos os fatos supostamente atribuídos à médica”, defendeu Gualberto.
O advogado ainda afirmou acreditar que a iniciativa busca impedir que os familiares continuem se manifestando sobre o caso e disse confiar no arquivamento da sindicância. “O objetivo por trás dessa denúncia não é outro senão tentar calar a mídia e os familiares quanto aos fatos ocorridos na sala de cirurgia e a tudo o que se seguiu depois. Confiamos na responsabilidade técnica do CRM para avaliar a sindicância movida em face da Ana Caroline e, inevitavelmente, arquivá-la”, concluiu o advogado.
Polícia Civil indiciou quatro médicos
Em 4 de setembro de 2026, a Polícia Civil do Pará divulgou o indiciamento de quatro médicos envolvidos no atendimento de Giovanna Coelho. Na mesma data, o delegado Diego Catunda, responsável pela investigação, concedeu entrevista ao Grupo Liberal e detalhou os elementos reunidos durante a apuração.
O cirurgião plástico André Melo, responsável pelos procedimentos, foi indiciado por homicídio culposo majorado e falsidade ideológica. O anestesista César Collyer e o médico Marcelo Antony Dantas, que estava de plantão durante a madrugada, foram indiciados por homicídio culposo majorado. Já a médica Aline Kzam, plantonista da manhã, foi indiciada por homicídio culposo sem a majorante.
Segundo Catunda, as condutas foram individualizadas com base na análise de prontuários, laudos, provas técnicas, depoimentos e da chamada trilha de auditoria do prontuário médico. A investigação também identificou contradições entre as versões apresentadas pelos profissionais e os registros analisados pela polícia. “O que não faltaram, na verdade, foram contradições. Principalmente entre os indiciados”, afirmou o delegado durante a entrevista concedida em 4 de setembro, quando a Polícia Civil tornou público o resultado da investigação.
Investigação apontou divergências sobre atendimento durante a madrugada
Uma das principais divergências identificadas pela Polícia Civil envolve o cirurgião André Melo. Segundo o delegado, o médico afirmou durante a investigação que não havia sido acionado durante a madrugada, mas a polícia reuniu registros que, de acordo com Catunda, demonstrariam o contrário.
Entre os elementos citados estavam conversas pelo WhatsApp e um registro de contato feito por um enfermeiro que teria tentado falar com o cirurgião. A mãe de Giovanna também teria acionado o médico. “O cirurgião disse que não foi acionado durante a madrugada, e foi demonstrado de forma cabal que ele foi. Inclusive, postagem de conversa no WhatsApp, print do enfermeiro que teria acionado ele. A mãe também acionou”, afirmou Catunda.
A Polícia Civil também contestou a versão de que o procedimento realizado em Giovanna seria tranquilo e dispensaria reserva de sangue. Segundo o delegado, o laudo necroscópico e os depoimentos de médicos ouvidos como testemunhas indicaram que a cirurgia era, no mínimo, de média complexidade. “O cirurgião veio com uma tese de que a cirurgia era uma cirurgia tranquila, uma cirurgia que dispensava reserva de sangue. O que também se mostrou falso. O laudo necroscópico apontou que não se tratava de uma cirurgia tranquila. As testemunhas apontaram que era uma cirurgia de, no mínimo, média complexidade”, destacou.
De acordo com Catunda, profissionais da área médica ouvidos durante a investigação também questionaram a realização de um procedimento daquele porte sem uma estrutura de retaguarda adequada, incluindo Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e reserva de sangue. “Testemunhas essas que também são médicos, testemunhas essas que também atuam na mesma área, que questionaram se aceitariam fazer um procedimento desse porte sem uma retaguarda de UTI, sem uma retaguarda de reserva de sangue, disseram plenamente que não. Não aceitariam”, afirmou.
Trilha de auditoria do prontuário foi analisada
Outro elemento considerado importante para a investigação foi a análise da trilha de auditoria do prontuário médico de Giovanna. Segundo o delegado, a Polícia Civil solicitou ao hospital o documento e o histórico de acessos e alterações, além do congelamento do prontuário para impedir a inclusão ou a exclusão posterior de informações. “O início das investigações, a principal providência da Polícia Civil foi encaminhar ofício ao hospital para solicitar o prontuário e a trilha de auditoria desse prontuário, o congelamento desse prontuário para impedir que fossem inseridas informações ou apagadas informações que lá já constavam”, revelou.
De acordo com Catunda, os registros permitiram identificar a atuação do médico que estava de plantão durante a madrugada. Conforme a investigação, o profissional prescreveu uma medicação para Giovanna à distância, embora tivesse aproximadamente seis horas para comparecer ao leito da paciente.
Segundo o delegado, o prontuário permaneceu aberto por cerca de um minuto antes da prescrição. “Um dos indiciados, o plantonista da madrugada, por exemplo, quando ele prescreveu uma medicação para a Giovanna à distância, porque ele teve seis horas para ir até o leito com ela e não foi, ele prescreveu com o prontuário dela aberto por apenas um minuto”, disse.
A Polícia Civil afirmou que o prontuário já continha informações sobre a deterioração clínica da empresária quando a medicação foi prescrita. Para Catunda, o médico não teria considerado os sinais vitais registrados antes de receitar o medicamento para dor. “Ele já tinha acesso às informações dos sinais vitais da Giovanna, que já estavam em deterioração clínica. Já estavam em franca deterioração clínica, inclusive. Ele já tinha essa informação. Quando ele receitou o medicamento para a dor, ele receitou sem verificar essa informação que lá já estava inserida”, afirmou.
O delegado acrescentou que médicos ouvidos durante a apuração apontaram que a conduta esperada seria uma avaliação presencial da paciente. “A postura correta seria ele ter ido fazer uma avaliação à beira-leito com ela. Afinal de contas, o médico plantonista de resposta rápida é justamente para isso. É para ir até o leito e verificar a paciente para poder medicar, e não medicar à distância sem verificar o prontuário, sem verificar o estado clínico da paciente”, destacou.
Ainda segundo Catunda, a trilha de auditoria mostrou que, no dia seguinte à morte de Giovanna, o plantonista permaneceu com o prontuário aberto por aproximadamente uma hora, realizando impressões de documentos. “No dia seguinte, com a paciente, com a Giovanna já morta, ele permaneceu com o prontuário dela aberto por cerca de uma hora, imprimindo documentos e imprimindo papel. Sabe-se lá por qual razão”, revelou Catunda.
André Melo também foi indiciado por falsidade ideológica
Além do homicídio culposo majorado, André Melo foi indiciado por falsidade ideológica. Segundo a Polícia Civil, o médico teria inserido no prontuário de Giovanna, após a morte da paciente, uma informação que não corresponderia à realidade.
De acordo com Catunda, o cirurgião registrou que havia participado da laparotomia exploradora, procedimento realizado após o agravamento do quadro clínico da empresária. A investigação, porém, reuniu depoimentos de profissionais que participaram da cirurgia e documentos que, segundo a polícia, indicariam que André não teve atuação efetiva no procedimento. “O cirurgião foi indiciado por homicídio culposo majorado e falsidade ideológica por ter inserido no prontuário da Giovanna, após a morte, um fato que não corresponde à realidade. Ele afirmou ter participado da cirurgia de laparotomia exploradora quando, na verdade, não participou”, afirmou Catunda.
Ainda segundo o delegado, o médico teria admitido, após ser confrontado durante a investigação, que não teve uma postura ativa durante a cirurgia. “Os documentos juntados no inquérito, inclusive o prontuário, mais as provas testemunhais que efetivamente participaram dessa cirurgia, disseram que ele não participou, que ele não tinha voz e que ele era um mero espectador”, disse.
A Polícia Civil também identificou divergências entre o registro atribuído ao cirurgião e a descrição do procedimento. Conforme o delegado, André teria informado que não houve achados durante a cirurgia, enquanto o documento cirúrgico apontaria a presença de hematomas na parede abdominal. “Ele também informou nesse documento que não houve nenhum achado na cirurgia, o que também não se mostrou verdade, porque a descrição cirúrgica mostra claramente que houve achados, sim: hematomas na parede abdominal”, revelou Catunda.
O Liberal