Analista britânico independente que viralizou nas redes crê que Botafogo será vendido: 'Textor está fora da equação'
Em um primeiro momento, Botafogo e Everton-ING parecem ter pouquíssimo em comum, a não ser o fato de serem dois dos clubes mais tradicionais de seus respectivos países. Recentemente, porém, essa ligação foi fortalecida pela figura de Paul Quinn, um escritor e analista financeiro independente. Torcedor fanático do time de Liverpool, o empresário com mais de 30 anos de experiência no ramo financeiro e de desenvolvimento de softwares se debruça sobre o espinhoso imbróglio da SAF alvinegra desde que John Textor manifestou interesse em adquirir o Everton em 2024. Nas últimas semanas, Quinn ganhou relevância entre os botafoguenses nas redes sociais após fazer avaliações sobre a situação do clube carioca. Em entrevista ao GLOBO, o britânico detalhou o seu ponto de vista sobre as disputas em andamento nos tribunais europeus e no Brasil e como tudo isso deverá afetar o futuro do clube carioca.
Como começou o interesse em análises independentes sobre situações financeiras de clubes de futebol?
Sempre fui um fã de futebol, especialmente do Everton. Vindo da cidade de Liverpool, é impossível não ter interesse por futebol. Excepcionalmente, sempre me interessei pela forma como os clubes de futebol são administrados, o que faz um clube ter sucesso e qual a diferença entre um bom proprietário e um mau proprietário.
Como chegou até você a situação da Eagle?
Quando o Everton estava em graves dificuldades financeiras, tive grande interesse em saber quem seriam os nossos futuros proprietários. Apliquei o conhecimento de 30 anos administrando meus próprios negócios àqueles que poderiam ter comprado o Everton, analisando e denunciando os terríveis acontecimentos com a 777 Partners (ex-dona da SAF do Vasco), apesar de Moshiri (proprietário do Everton) alegar que eles eram os novos proprietários perfeitos. Então, encontrei John Textor, que começou a divulgar na mídia que estava interessado em adquirir o Everton. Eu sabia que isso não seria possível devido à sua participação no Crystal Palace e ao elevado endividamento das suas operações multiclubes. Duvidei que ele tivesse os fundos que afirmava ter e duvidei do modelo de negócios da Eagle Football Holdings. Meu interesse pelo Textor desenvolveu-se a partir daí.
O que te fez querer debruçar num tema tão espinhoso e com nuances que variam com as jurisprudências de França, Inglaterra, Bélgica e Brasil?
Há muito tempo que tenho esse interesse na forma como os clubes são administrados. Tenho pesquisado e escrito extensivamente sobre o assunto durante muitos anos. Pude ver (e afirmei publicamente) que as afirmações de Textor tinham pouca realidade. Em todos os casos como este, o meu primeiro pensamento vai para os torcedores dos clubes envolvidos.
Qual sua avaliação do modelo de caixa único entre os clubes, como faz Textor na Eagle?
Simples: Textor não tinha capital para adquirir, investir e manter os clubes que adquiriu. Ele dependia totalmente de empréstimos extremamente dispendiosos da Ares, um credor predatório. Além disso, não tinha dinheiro livre para continuar a financiar as perdas de todo o grupo. Em vez disso, se baseou em um modelo em que o clube que produzia fluxo de caixa positivo (Botafogo) apoiava o clube com fluxo de caixa negativo (Lyon). Além disso, não conseguiu pagar a dívida crescente, principalmente devida à Ares.
Torcedores do Botafogo têm a impressão de que a Eagle começou a ruir após a compra do Lyon. Você concorda?
Em campo, obteve sucesso inicial e não há dúvida de que deu a volta a uma instituição falida, já fortemente endividada. No entanto, nada disso era sustentável pelas razões que expus — a Eagle estava insustentavelmente endividada e estava usando o Botafogo para apoiar o resto do negócio.
Acredita que valeu a pena para o Botafogo ter sido comprado por Textor, pensando nos títulos conquistados e na situação financeira atual da SAF?
Inicialmente, sim, valeu a pena. Ele trouxe sucesso, embora a um preço muito alto, dadas as dificuldades em todo o grupo e a natureza insustentável do seu modelo de negócio. O que acontecer a seguir determinará se foi bom a longo prazo. Temo que não.
Como você enxerga o futuro de cada uma dessas partes? O que acha que vai acontecer com cada uma delas?
Segundo a lei inglesa, o administrador é encarregado de levantar o máximo de dinheiro possível para pagar parte ou a totalidade da dívida com a Ares. Isso significa que os três clubes serão vendidos individual ou coletivamente ao licitante com lance mais alto. É do interesse do administrador manter cada clube em funcionamento — embora seja difícil ver como isso pode acontecer, dada a natureza deficitária e os níveis extraordinários de endividamento.
Como analista independente, você acha melhor para o Botafogo seguir com Textor ou ser revendido?
John Textor não está mais na equação. O Botafogo será vendido ao maior lance. Isso pode incluir a licitação de Michele Kang (atual presidente e CEO do Lyon) e da Ares pela totalidade da Eagle Football Holdings.
Como você vê o clube social do Botafogo em meio a este imbróglio?
No curto prazo, o futebol continuará normalmente. Na ausência de mais dinheiro, poderá ser necessária a alienação de jogadores e uma redução nos custos de funcionamento do clube
Como você resumiria toda essa situação?
Toda esta situação evidencia as fragilidades do modelo de negócio de operação multiclubes. Um mau proprietário pode utilizar os ativos de um clube com melhor desempenho para apoiar um clube em dificuldades financeiras — e isto me parece fundamentalmente errado. Além disso, destaco dois pontos adicionais.
Primeiro, a aquisição altamente alavancada — com isto quero dizer o uso de dívida para financiar a compra de clubes porque o novo proprietário não dispõe dos recursos de caixa. Segundo, destaco os riscos muito reais de administrar clubes com perdas financeiras quando estão fortemente endividados e com pleno conhecimento de que o proprietário não tem os recursos de caixa para cobrir as perdas, muito menos pagar a dívida e pagar os custos dos juros. Dado que o modelo inclui múltiplas jurisdições, o grupo como um todo parece escapar ao controle de qualquer autoridade futebolística específica. Ou seja, isto é algo que precisará ser abordado pelas ligas, Uefa e Fifa.
