Análise: Trump queria o Canadá como 51º estado dos EUA, mas terminou empurrando o vizinho para a União Europeia

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

No início de seu segundo mandato, o presidente americano, Donald Trump, queria que o Canadá estivesse tão entrelaçado aos Estados Unidos que chegou a defender que o país se tornasse o 51º estado americano. Em vez disso, depois de meses antagonizando os canadenses, provocando o primeiro-ministro do país e travando uma guerra comercial implacável, ele empurrou o Canadá para os braços da União Europeia (UE). Contexto: UE abre caminho para o Canadá se tornar 'membro associado' e propõe criação de Conselho de Segurança Europeu Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países O convite feito pela UE na quarta-feira para que o Canadá se torne um “membro associado” é um sinal dos efeitos colaterais do estilo de diplomacia de Trump, que frequentemente envolve ameaçar países que antes eram considerados alguns dos mais próximos aliados dos EUA. E mesmo que o gesto da UE acabe sendo mais simbólico do que concreto, ele mostra como Trump está revirando as relações globais de maneiras que serão difíceis de desfazer. — Devemos ver essa iniciativa do Canadá e da UE como uma consequência direta das ações e da retórica de Trump — diz James Batchik, vice-diretor do Centro Europa do Atlantic Council. — A retórica sobre transformar o Canadá no 51º estado e as ameaças contra a Groenlândia, que continuam sendo extremamente controversas e estão presentes na memória de Bruxelas, são lembretes para os dois lados de que os EUA não são necessariamente o aliado confiável que foram um dia.

A cada passo, a abordagem agressiva do presidente em relação ao Canadá pareceu sair pela culatra. Sua guerra comercial gerou problemas para republicanos que enfrentam dificuldades em estados-pêndulo, colocando em risco o controle do Partido Republicano sobre o Senado. E sua hostilidade em relação aos líderes canadenses ajudou a impulsionar o desacreditado Partido Liberal do país, que não é aliado de Trump, à vitória eleitoral. Trump reagiu com fúria à aproximação da UE com o Canadá ao falar com jornalistas na noite de quarta-feira. — O Canadá tem sido um péssimo parceiro comercial — afirmou. — Não, não vejo isso (com bons olhos). Se fizerem isso, se eu considerar que é de alguma forma um ato hostil, vou impor tarifas muito pesadas ou interromper o comércio com a Europa em muitas áreas. Então, se for uma boa intenção, tudo bem; se for uma intenção ruim, vamos impor tarifas muito pesadas à Europa, o que é uma possibilidade. 'Farol para outras democracias': Premier do Canadá nega que aproximação com a UE seja 'ato hostil' após críticas de Trump A disputa do republicano com o Canadá faz parte de sua forte atenção ao Hemisfério Ocidental, uma região que presidentes recentes, normalmente concentrados no Oriente Médio e na Ásia, muitas vezes negligenciaram. Trump, fortalecido após uma operação americana que derrubou o líder da Venezuela, voltou os olhos neste ano para outros países do Hemisfério Ocidental. Ele exerceu forte pressão econômica sobre Cuba e propôs uma “tomada amigável” do país. Ameaçou tomar o Canal do Panamá e retirar da Dinamarca a ilha norte-americana da Groenlândia. Análise: Resistência começa a substituir era de capitulação a Trump nos EUA e no exterior Em uma atualização da Doutrina Monroe — declaração fundamental de 1823 que estabeleceu as reivindicações dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental — com o que chamou de “Corolário Trump”, Trump declarou formalmente que “o povo americano — não nações estrangeiras nem instituições globalistas — sempre controlará seu próprio destino em nosso hemisfério”. Nos casos de Cuba e Venezuela, as políticas de Trump são conduzidas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, um cubano-americano cuja atenção à América Latina é motivada por sua forte ideologia antissocialista. Rubio demonstrou muito menos entusiasmo público pelas reivindicações territoriais do presidente do que pela democratização da região. Mas a fixação de Trump com o Canadá está principalmente ligada ao comércio e à economia, e não a questões territoriais ou políticas. ‘Lago América’: Google Maps adota novo nome dado por Trump ao Lago Ontário nos EUA, mas Canadá rejeita mudança O presidente começou seu segundo mandato ameaçando o ex-líder canadense Justin Trudeau, que Trump ridicularizou publicamente, ao romper unilateralmente acordos que regem a relação entre os dois países vizinhos há mais de um século. Ele impôs tarifas ao Canadá, que, ao lado do México, é um dos dois maiores parceiros comerciais de Washington. As medidas estão prejudicando alguns dos principais setores da economia canadense, como os de automóveis, aço, alumínio e madeira. Em parte por causa dos ataques de Trump, os canadenses se uniram em torno do sucessor de Trudeau, o primeiro-ministro Mark Carney, que se apresentou como um adversário do presidente americano. Neste ano, Carney fez um discurso em Davos, na Suíça, no qual pediu uma nova ordem mundial, que não fosse mais liderada pelos EUA, levando líderes políticos e empresariais presentes a se levantarem de seus lugares para uma rara ovação de pé. — As potências médias precisam agir juntas porque, se não estamos à mesa, estamos no cardápio — disse Carney. Brasileiros no front: 'A casa ficou cheia. Foi como um velório, só que sem corpo', diz mãe que perdeu filho para a guerra na Ucrânia Liana Fix, pesquisadora sênior para a Europa no Council on Foreign Relations, observa que não estava claro o que significaria, além dos acordos comerciais e de defesa já existentes, o Canadá se tornar um “membro associado” da UE. Mas o Canadá e a União Europeia terão uma cúpula no fim de outubro, quando devem apresentar ideias mais concretas. Ursula von der Leyen, presidente da UE, disse que Canadá e Europa poderiam trabalhar mais estreitamente em áreas como o Ártico, suas bases industriais de defesa e minerais críticos. — A UE quer deixar claro que as potências médias têm voz e não serão intimidadas pelo governo Trump — ressalta Fix. Lago, aeroporto, golfo e até Ormuz: Veja lugares que já foram rebatizados por Trump e projetos que levam seu nome A reação dos líderes canadenses e europeus talvez não seja surpreendente, diante da tendência de Trump de atacar aliados e manter uma postura amistosa com rivais históricos, destaca Batchik. — Donald Trump tem poupado alguns de nossos adversários — sobretudo Rússia e China — e dobrado a aposta, adotando uma postura quase alegre ao provocar nossos antigos aliados em potencial — afirmas Batchik. — Você começa a ver muitos na Europa levando isso a sério e dizendo: "Está bem, se é realmente assim, se é assim que os EUA vão tratar seus aliados, eles simplesmente vão procurar outros parceiros". Segundo ele, isso pode acabar representando “uma mudança geracional para longe dos EUA ou, pelo menos, exigirá uma quantidade significativa de energia e tempo para reparar essas relações”.

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