Análise: Trump perdeu em Minneapolis, mas democratas, divididos, não podem cantar vitória

 

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O anúncio da retirada gradual do ICE (Serviço de Alfândega e Imigração dos Estados Unidos) de Minneapolis é ótima notícia para seus quase 430 mil moradores. Há dois meses e 12 dias, a cidade mais populosa de Minnesota, no Meio-Oeste do país, sofre uma ocupação militar. É o que atestam os próprios números oficiais.

Washington saúda a prisão de ao menos 4 mil moradores, quase 60 por dia, sem informar, no entanto, quantos têm antecedentes criminais. No pico da Operação Metro Surge, 3 mil agentes, efetivo cinco vezes maior que o da polícia local, lá estacionaram. Apenas com acomodação, o ônus para o contribuinte já ultrapassa US$ 10 milhões (cerca de R$ 52 milhões). Muito mais escandaloso, três pessoas foram alvejadas, com armamento pesado, por indivíduos cujo treinamento está em xeque. Duas não sobreviveram. A poeta Renee Good e o enfermeiro Alex Pretti, cidadãos americanos, brancos e de classe média, tiveram suas vidas encerradas. Tinham 37 anos, e o registro de suas execuções nos celulares dos vizinhos impediu a demonização de suas biografias em curso pela Casa Branca. Inicialmente, o governo Donald Trump os tratou como terroristas domésticos.

A reação comovente dos moradores de Minneapolis ao horror, em impressionante ação comunitária de proteção a todos os moradores, sensibilizou a sociedade civil americana, que hoje majoritariamente condena — como demonstram pesquisas e protestos de tamanho e capilaridade substantivos — as arbitrariedades dos agentes do ICE. Notadamente o uso de máscaras, a ausência de câmeras, o desdém por ordens judiciais, a prisão de jornalistas que cobriam os protestos, e o próprio ineditismo de uma força armada que só responde a eventuais auditorias internas e sigilosas. Privilégio, argumenta a Casa Branca, direcionado a quem enfrenta inimigos em uma “guerra ao terror” contra narcotraficantes e invasores.

Na noite anterior ao anúncio da retirada dos agentes de Minneapolis, os governistas apresentaram um plano detalhado aos senadores democratas com mudanças no funcionamento do ICE. Seu objetivo é destravar a aprovação da liberação do orçamento para o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), que também abarca, entre outras funções, a de responder a desastres naturais país afora. O esboço original do governo mantinha verba recorde de US$ 85 bilhões para o ICE, com injeções anuais de US$ 10 bilhões, e não previa quaisquer restrições de ação ou medidas de garantia dos direitos civis de populações urbanas ocupadas militarmente por suas forças.

Nas pesquisas, saudade de Biden

O golpe nos republicanos em ano eleitoral — quando o Congresso e um punhado de governos e legislativos locais estarão em jogo em novembro — foi maior do que a Casa Branca, comprometida com a estratégia da defesa da lei e da ordem, esperava. O que os democratas já apelidaram de “voto anti-ICE” tirou dos governistas o apoio até então majoritário à deportação em massa de imigrantes. E tornou Trump, neste momento, politicamente tóxico.

Prova são três pesquisas recentes divulgadas desde o fim de janeiro. Elas mostram algo até então inédito: a maioria dos eleitores, quando instada a comparar, prefere o governo de Joe Biden — que desistiu de buscar a reeleição quando registrava desaprovação recorde — ao Trump 2.0. Na Harvard CAPS/Harris, 51% dizem que o país estava melhor com o democrata; na YouGov/Economist, 46% preferem o governo anterior, contra 40% para o atual; e até a assumidamente conservadora Rasmussen aponta 48% a 40% para Biden. Ouch.

A oposição, no entanto, segue dividida, com a cúpula da sigla — inclusive suas lideranças no Senado e na Câmara — interessada em uma “reforma ampla do ICE”, com medidas que impediriam a repetição dos horrores de Minneapolis. A esquerda e a base, no entanto, defendem a extinção total da impopular agência, criada no governo George Bush filho, em meio às medidas emergenciais anunciadas na sequência do ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001.

Mesmo após as mortes de Renee Good e Alex Pretti, os caciques do Partido Democrata temem estar diante de uma armadilha. Observam o grito de guerra “Fora ICE!”, repetido nos protestos, por congressistas de esquerda no Capitólio e pelo megastar Bad Bunny, ao receber o Grammy de melhor disco do ano no início do mês, como repetição da pressão para se retirar fundos da polícia após os assassinatos de homens negros por policiais brancos durante o Trump 1.0. Um deles, George Floyd, de 46 anos, na mesma Minneapolis.

A redução drástica de verbas para a polícia foi traduzida pelos republicanos na campanha de 2024 como declaração de oposição à lei e à ordem e, nos estudos internos sobre as razões da derrota da então vice-presidente Kamala Harris, apontado sido um dos fatores centrais para a migração de eleitores do subúrbio e latinos para a coalizão direitista, pavimentando a volta de Trump ao poder. As duas alas no Partido Democrata desejam que o debate seja resolvido internamente o mais rapidamente possível para se chegar a novembro com uma mensagem única. Mas até agora não há consenso.

Oposição promete investigação se vencer pleito

Companheiro de chapa de Kamala em 2024, o governador de Minnesota, Tim Walz, celebrou nesta quinta-feira o anúncio do fim do que classifica como “intervenção branca”. Além da morte de cidadãos pelos agentes de imigração, destacou o trauma nas crianças de Minneapolis, que seguem alijadas de sua rotina escolar, familiar e cidadã. “Algumas dessas crianças terão para sempre em suas memórias a imagem de seus colegas de turma sendo levados pelos agentes federais. Minha esperança é que a isso se sobreponha, um dia, a prova de que a decência venceu e o Estado de Direito fez diferença aqui.”

Em pelo menos um aspecto da crise, os democratas concordam: se reconquistarem a maioria da Câmara, como as pesquisas indicam, iniciarão investigações para apontar e punir quem ignorou a Lei nos 72 dias, até agora, de ocupação militar de Minneapolis.