Há pouco mais de uma semana, o debate da Band já se encaminhava para o fim quando Fernando Haddad fez troça com Tarcísio de Freitas o chamando de “meio concurseiro” após ele enumerar municípios, regiões e micro detalhes da gestão de escolas em uma resposta sobre privatização.
A sabatina do GLOBO, Valor e CBN nesta quinta-feira deixa claro que o governador gostou da piada, e quer manter o estilo de gestor detalhista como sua principal marca.
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Ao longo de uma hora e meia, Tarcísio empilhou dados sobre as realizações de cada área de seu governo, detalhando programas, números, metas, municípios, bacias hidrográficas, bairros e como é a relação com fornecedores — desde os responsáveis por grandes obras até as câmeras de segurança da polícia —, chegando a mencionar o nome do programa usado na alfabetização, o Elefante Letrado.
Liderando a corrida estadual com 15 pontos de vantagem sobre Fernando Haddad, e tendo uma rejeição 21 pontos menor, Tarcísio se deu ao luxo de prometer simplesmente manter e ampliar os programas implementados nos últimos quatro anos.
Embora tenha na segurança e na saúde avaliações majoritariamente negativas, a aprovação geral do atual governo chegou a 55% na última pesquisa Genial/Quaest, ante 29% de desaprovação.
Se a situação do governador parece confortável, o mesmo não se pode dizer em relação a seu aliado nacional, Flávio Bolsonaro.
O herdeiro do bolsonarismo sabe que precisa garantir uma ampla vitória no estado para reverter a vantagem que o presidente Lula tem hoje nas pesquisas, mas Tarcísio deixou claro na sabatina que sua estratégia é quase que a antítese da expressa ontem por Fernando Haddad.
Enquanto o petista diz que sua missão principal é eleger Lula, Tarcísio sinalizou que a candidatura de Flávio está longe de ser prioritária.
Indagado sobre como conduziria a campanha diante da possibilidade de se formar o voto “Tarula” — com seus eleitores apoiando Lula nacionalmente —, o governador passou um minuto e meio enumerando os programas estaduais que pretende mostrar para o eleitor e só no fim, de forma sintética, disse que “se tiver também integração no plano federal, com Flávio” vai ter mais facilidade de realizá-los.
E se Lula for o vitorioso? “Sempre vou me pautar pelo pragmatismo e pelo interesse das pessoas”, respondeu, detalhando como foi a negociação com Lula para a construção do túnel Santos-Guarujá.
Tarcísio aproveitou a entrevista para riscar o chão, demarcando diferenças relevantes em relação a Flávio e à família Bolsonaro.
Defendeu com vigor as urnas eletrônicas, afirmou categoricamente que o país precisa de um duro ajuste fiscal, e reclamou do fato de o país ter perdido “a capacidade de estabelecer consensos”.
O governador sabe que qualquer tentativa futura de um voo presidencial dependerá de ter o apoio sólido do eleitor de direita, e acenou ao grupo ao defender a legitimidade da abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
Embora a sabatina tenha sido dominada pelos problemas paulistas, Tarcísio apresentou o rascunho do que seria sua plataforma nacional: reforma política pelo fim da reeleição e adoção do voto distrital, ajuste fiscal de 2,5% a 3% do PIB e preocupação com o endividamento das famílias.
Existe um fetiche entre políticos e analistas sobre as perspectivas eleitorais nacionais de quem governa o maior estado do país.
A história, no entanto, sugere cautela.
Desde o fim da República Velha, em 1930, ao menos sete ocupantes do Palácio dos Bandeirantes tentaram chegar à Presidência.
Só Jânio Quadros conseguiu, em 1960, para um trágico mandato de sete meses.
Como o próprio Tarcísio admitiu, é muito cedo para projetar como serão as eleições de 2030, mas o governador começa a mostrar qual personagem pretende encarnar.
Livre do papel de poste desempenhado em 2022, o "concurseiro" quer se apresentar como um gestor de centro-direita, apoiado pelos Bolsonaro, mas não servil a eles.
