Análise: Os riscos de deixar o BRB sangrando em praça pública - QTU Questões do Universo

Análise: Os riscos de deixar o BRB sangrando em praça pública

Fonte: Bandeira da fonte

Passada mais de uma semana após a audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), não houve avanço algum nas negociações para salvar o Banco de Brasília (BRB).
A 45 dias das eleições, parece cada vez mais provável que a situação será empurrada para após o pleito.
A questão é que o BRB é um banco de varejo e deixá-lo sangrando em praça pública desse jeito tem consequências sérias.
O banco distrital enfrenta uma grave crise de liquidez por conta da compra de carteiras supostamente fraudulentas do Banco Master.

Como o Valor mostrou, o BRB perdeu quase 800 mil clientes em nove meses.
Fontes próximas apontam que a base de depósitos coberta pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já se reduziu quase pela metade desde o início da crise.
Pode parecer um dado positivo, mas na verdade mostra que os depositantes estão sacando seus recursos.

As últimas informações públicas disponíveis, de setembro do ano passado, mostram que o BRB tinha R$ 53,004 bilhões em depósitos e mais R$ 12,625 bilhões em Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA).
Não está totalmente claro qual seria o impacto para o FGC, em função do limite de R$ 250 mil por investidor e também porque o BRB tem quase R$ 30 bilhões em depósitos judiciais, que não entram na conta.

Apesar de a base de depósitos ter se reduzido pela metade, por outro lado, o banco captou o limite de R$ 3 bilhões em Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE).
O Ministério da Fazenda já comentou publicamente que o impacto para o FGC em caso de quebra do BRB seria algo em torno de R$ 17 bilhões.

Assim, o BRB respira por aparelhos, sobrevivendo apenas porque o governo do Distrito Federal tem depositado cada vez mais do seu caixa no banco.
"O BRB é um paciente agonizando e infelizmente não há nada que possamos fazer, porque o único remédio possível não está disponível", comenta um interlocutor.

Esse remédio seria a separação entre um "banco bom" e um "banco ruim", salvando os ativos viáveis e separando os "podres" em uma instituição segregada.
Entretanto, a lei que permitiu fazer isso com outros bancos estaduais, na época do Proes, na esteira da implementação do Plano Real, não existe mais.
Fosse um banco privado, a solução seria bem mais simples.

A situação do BRB deixa as autoridades entre a cruz e a espada.
Com uma parte cada vez maior do caixa do governo do Distrito Federal (GDF) no banco, em caso de liquidação, as consequências para a administração distrital e a economia da capital da República poderiam ser catastróficas.

O banco está fortemente inserido no dia a dia dos brasilienses e a quebra teria impactos como interrupção dos programas de transferência de renda, caos no transporte público, suspensão das operações de crédito imobiliário, 6,8 mil empregos em risco, entre outros.

Além disso, como os recursos do GDF são essenciais para a manutenção de serviços vitais, há um grande risco de, em caso de intervenção pelo BC, haver uma judicialização.
Ou seja, diversas partes poderiam recorrer ao STF e tentar obter os recursos, gerando um pandemônio na liquidação extrajudicial.

O BC informalmente leva isso tudo em consideração, mas, no fim do dia, a decisão de liquidar um banco é matemática.
Se faltar dinheiro para fechar as contas no fim do dia, não há o que fazer.

"Você sabe qual é o pior problema da crise do BRB? É estar em ano eleitoral", resumiu a governadora do DF, Celina Leão, em entrevista recente ao Valor.
Obviamente, ela estava se referindo a grupos políticos contrários ao dela, mas a constatação é sintomática do impasse que o banco vive.

No fim das contas, a crise do BRB mostra o problema intrínseco de um governo distrital ter um banco e por que o Proes foi tão acertado.
Após o programa, sobraram apenas cinco bancos do tipo (BRB, Banrisul, Banese, Banestes e Banpará).
Trinta anos depois, o debacle do banco do DF cheira a um anacronismo.