Análise: ofensiva dos EUA na Venezuela ameaça bom momento da relação entre Lula e Trump
A ofensiva dos Estados Unidos para capturar o ditador venuzuelano Nicolás Maduro é uma ameaça ao bom momento da relação dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Diante da gravidade da ação americana e de seu histórico em defesa da soberania das nações, o brasileiro não tem alternativas a não ser se posicionar de forma dura contra a invasão do país vizinho, apesar de ainda estar em negociação para derrubar tarifas sobre produtos brasileiros e para reverter a revogação de vistos de entrada nos EUA de ministros do governo e do Supremo Tribunal Federal (STF).
O tom do posicionamento adotado pelo Brasil já foi dado por Lula em sua manifestação nas redes sociais na manhã deste sábado. O presidente brasileiro disse que a iniciativa ultrapassa “uma linha aceitável” e cobrou uma reação da comunidade internacional. Acrescentou que “atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”. Mas no comunicado de 153 palavras, Lula não citou diretamente nem Trump nem os Estados Unidos.
Em pronunciamento durante a tarde, o presidente americano deu margem aos que o acusam de promover uma ação imperialista ao afirmar que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela provisoriamente e controlarão as reservas de petróleo do país.
Em tese, após a fala de Trump, uma nova manifestação de Lula exigiria agora um tom ainda mais duro, elevando o risco de desagradar o presidente americano e enterrar o período da boa convivência, que começou a ser construída após o encontro nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em setembro.
A aproximação, que teve o seu auge na reunião entre os dois presidentes em outubro na Malásia, levou, em novembro, à revogação da tarifa de 40% sobre a exportação de parte dos produtos brasileiros, como carne bovina, tomate, café, banana e açaí, e, em dezembro, à retirada das sanções previstas na Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, e à sua mulher, Viviane Barci de Moraes. No cenário nacional, as duas decisões foram vendidas pelo governo brasileiro como uma vitória política do petista e uma derrota do bolsonarismo.
Depois dos Estados Unidos retirarem as sanções a Moraes, Lula contou que mandou uma mensagem de agradecimento para Trump. No texto, o brasileiro lembrou que “ainda tem mais coisas para acertar entre nós".
Lula espera que os Estados Unidos revoguem agora as sobretaxas de exportação de outros produtos, principalmente manufaturados e máquinas. Também trabalha para que seja revista a decisão de revogar os vistos dos ministros de seu governo Alexandre Padilha (Saúde) e Ricardo Lewandowski (Justiça), além dos membros da Suprema Corte Edson Fachin, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Flavio Dino e Gilmar Mendes.
Em café da manhã com jornalistas no dia 18, Lula disse que tem mandado uma mensagem pessoal para Trump a cada 15 dias para tentar chegar a um acordo para acabar de vez com as tarifas. Na conversa de outubro na Malásia, os dois trocaram números de telefone para que pudessem ter um contato direto, sem intermediários. Como o brasileiro não tem celular, suas conversas com Trump são feitas por meio do aparelho do chefe do cerimonial da Presidência, Fernando Igreja. Resta saber se haverá clima para manter o diálogo caso o brasileiro escale nos posicionamentos contrários à intervenção americana na Venezuela e ataque as decisões tomadas pelo presidente dos EUA.
