Análise: O mito da excepcionalidade do Golfo em xeque
Em 27/2, viajei a trabalho para Doha. O plano era passar o fim de semana na cidade, realizar reuniões na segunda-feira e retornar em seguida. Menos de 24 horas após minha chegada, porém, o contexto regional mudou abruptamente. EUA e Israel bombardearam o Irã, ainda durante negociações diplomáticas mediadas por Omã. A resposta de Teerã atingiu Israel e alvos militares em países do Golfo. O espaço aéreo do Catar foi então fechado, e minha saída só se concretizou em 13/3. Minha experiência, ainda que pontual, oferece um prisma para refletir sobre uma narrativa mais ampla: a ideia de que o Golfo teria se consolidado como um espaço de estabilidade em um Oriente Médio marcado por volatilidade.
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Nas últimas décadas, com o declínio do Levante — região profundamente conectada ao Brasil por fluxos migratórios de libaneses, sírios e palestinos —, os países do Golfo passaram a ocupar posição central na geopolítica e na economia regional, além de se afirmarem como novos polos de cultura e arte árabes. Catar e Emirados Árabes Unidos (EAU) investem em diversificação econômica, buscando reduzir a dependência de hidrocarbonetos nas próximas décadas.
Cidades como Dubai, Abu Dhabi e Doha emergiram como hubs globais de aviação, finanças, tecnologia, turismo e hospitalidade. A realização de megaeventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2022 no Catar, consolidou a imagem da região como espaço estável e globalmente conectado. Essa construção não foi casual: trata-se de um projeto de inserção internacional sustentado por estabilidade política interna, capacidade de investimento e articulação com potências externas, como os EUA e, cada vez mais, a Ásia.
Navio militar transita pelo Estreito de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico
Sahar AL ATTAR / AFP
Os acontecimentos recentes, contudo, colocam essa narrativa em xeque e causam dano reputacional aos países mais ricos do Golfo. A escalada regional expõe uma vulnerabilidade estrutural: a dependência simultânea de garantias externas de segurança e da manutenção de relações funcionais com atores regionais. A presença militar estadunidense, historicamente vista como fator de dissuasão, passa também a representar risco, ao transformar territórios do Golfo em potenciais alvos.
Ao mesmo tempo, a crise evidencia assimetrias no sistema de alianças. Quando interesses estratégicos divergem em Washington, a prioridade atribuída a Israel tende a prevalecer sobre a influência dos parceiros do Golfo. Essa percepção ajuda a explicar a postura adotada até o cessar-fogo: contenção, ênfase em defesa e recusa em aderir diretamente à escalada militar. Não se trata apenas de cálculo tático de curto prazo. A geografia impõe limites claros: independentemente do desfecho do conflito, o Irã continuará sendo vizinho, exigindo, cedo ou tarde, algum nível de reacomodação diplomática.
Isso não significa, porém, que os países do Golfo não estejam repensando suas estratégias de segurança. Os EAU dispõem de capacidade para integrar eventuais ações militares contra o Irã, assim como a Arábia Saudita, em razão de seus robustos meios de poder aéreo. Ambos já atuaram conjuntamente no Iêmen.
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Paralelamente, Riad estreita laços de defesa com o Paquistão, enquanto os EAU aprofundam o diálogo estratégico com a Índia. Catar e Omã mantêm postura mais diplomática e mediadora, mas têm condenado de forma mais enfática ataques iranianos, especialmente contra infraestruturas e alvos civis. Além disso Arábia Saudita, EAU e Catar já buscam apoio da Ucrânia para se defender de drones iranianos.
Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz
Giuseppe CACACE / AFP
A questão do Estreito de Ormuz e a pressão iraniana sobre a cadeia energética global mostram como as implicações econômicas são igualmente relevantes. O modelo de desenvolvimento recente do Golfo pressupõe previsibilidade e segurança. Setores como aviação, mercado imobiliário, tecnologia financeira e infraestrutura digital são particularmente sensíveis a choques de confiança. A interrupção de rotas aéreas e o aumento da percepção de risco geopolítico tendem a gerar efeitos que extrapolam o campo militar. O interesse dos países do Golfo é, portanto, claro: uma rápida desescalada que permita o retorno da normalidade econômica.
Com o impasse nas negociações EUA–Irã mediadas pelo Paquistão durante o cessar-fogo de duas semanas, os países do Golfo parecem seguir apostando na resiliência de suas defesas aéreas e em uma saída diplomática para conter a escalada regional. Talvez fique claro que a sub-região não é mais tão excepcional em termos de segurança, mas resta acompanhar como conseguirá se manter próspera em meio à instabilidade.
* Mestranda em Relações Internacionais na Johns Hopkins University de Bolonha, Itália e integrante do Observatório do Golfo, grupo de pesquisa acadêmico liderado pelo IDP.
