Análise: no berço de Bolsonaro, quem construiu a chapa da direita foram as máquinas partidárias
O Rio deu Jair Bolsonaro à política, e um dos filhos dele que entraram na vida pública pelo estado, Flávio Bolsonaro, é hoje presidenciável. Foi a vontade da direção estadual do PL, no entanto, que prevaleceu na definição da chapa da direita para a eleição de outubro, anunciada na terça-feira. A aliança também jogou luz sobre os demais donos do jogo fluminense, à frente do PP e do União Brasil.
Senador pelo Rio, Flávio tinha como candidato preferido ao governo o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, e chegou a convidá-lo para a missão — diretamente e por meio de aliados. A escolha pelo deputado estadual licenciado Douglas Ruas, secretário de Cidades, evidenciou a força do presidente local do PL, o deputado federal Altineu Côrtes, de quem o pré-candidato ao Palácio Guanabara é pupilo.
Nenhum dos quatro nomes do cardápio apresentado para a chapa é o que se pode chamar de bolsonarista raiz. Além de Ruas — muito mais associado à máquina da prefeitura de São Gonçalo, comandada pelo pai, do que às causas da extrema direita —, completam o time um postulante a vice, Rogério Lisboa (PP), e dois interessados no Senado: o governador Cláudio Castro (PL) e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União).
Castro, cujo futuro próximo está indefinido por causa do julgamento do caso Ceperj no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sempre foi mais máquina que ideologia. Ex-prefeito de Nova Iguaçu, Lisboa é o coringa do mandachuva local do PP, o deputado Dr. Luizinho, e até semana passada figurava como vice ideal de outra candidatura, a de Eduardo Paes (PSD). Canella, por sua vez, é o braço direito do presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, pernambucano que transferiu o domicílio eleitoral para o Rio e vai ser o candidato a deputado federal apoiado pelo prefeito de Belford Roxo.
Somados, PL, PP e União conquistaram 51 dos 92 municípios do Rio na última eleição. Entre eles, vários dos mais populosos do estado, apesar de a aliança de Paes com o MDB ter a capital e o segundo maior colégio eleitoral, Duque de Caxias, como barreira de contenção. Paes trabalhará nos próximos meses, segundo um aliado, para rachar essas siglas e obter apoios avulsos de alguns prefeitos e deputados.
Flávio foi convencido de que a melhor opção era aquela que “unificava a política”, como dirigentes gostam de dizer. A análise parte do princípio de que os votos ideológicos chegarão de qualquer jeito, já que a tendência é que o bolsonarismo só tenha a candidatura de Ruas como opção. Essa leitura é baseada em pesquisas que foram apresentadas ao presidenciável.
Dentro do processo de tentar desvencilhar o senador do radicalismo do pai, apesar de todo o histórico da família, um dos formuladores da chapa diz que a construção mostrou um “amadurecimento” de Flávio. Jair Bolsonaro, segundo esse político, teria exigido que pelo menos uma das posições da chapa ficasse com alguém forjado no seio do bolsonarismo.
