Análise: Motta quebrou promessa de campanha e ignorou pedido de organizações em votação à jato de bondade a partidos
Foram apenas duas horas de diferença ente o momento em que o projeto que prevê um pacote de bondades aos partidos foi incluído na pauta da Câmara e a aprovação, simbólica, no plenário. A votação expressa na noite de terça-feira era estratégica. Sem discussão, a (pouca) resistência seria menor. O desgaste também. Ninguém subiu à tribuna para defender a proposta.
A estratégia do voto à jato não é novidade na Câmara. Arthur Lira (PP-AL), quando comandava a Casa, chegou a colocar em votação texto que os deputados nem sequer conheciam. Quando ainda estava em campanha para substituí-lo, Hugo Motta (Republicanos-PP) prometeu que não faria mais isso. Os projetos votados a cada semana, segundo ele, seriam definidos na semana anterior, em comum acordo com os líderes partidários. A ideia, em suas palavras, era dar "previsibilidade".
Muitos acreditaram. Uma comissão de especialistas e organizações da sociedade civil reunidas na coalizão Pacto pela Democracia apresentou em dezembro uma proposta para incluir essa promessa no Regimento Interno da Câmara. Pelo menos 20 entidades que atuam em defesa da transparência no poder público, no combate à corrupção e em outras causas sociais assinam o texto.
Além da divulgação de uma pauta prévia na semana anterior, a proposta prevê que os projetos que serão votados no plenário sejam divulgados com, no mínimo, 24 horas de antecedência ao início de cada sessão.
Representantes do grupo estiveram em Brasília no mês passado para entregar a proposta em mãos a Motta. Ele, porém, não quis recebê-los. Enviou um assessor em seu lugar. Na conversa, o auxiliar foi pragmático. Avisou que, sem apoio dos partidos, dificilmente aquela mudança no regimento interno da Câmara será levada adiante.
Como mostrou o GLOBO, no grupo de WhatsApp dos dirigentes partidários, a preocupação é outra. Foi por lá que eles combinaram de aprovar o pacote de bondades.
