Análise: Missão lunar da Artemis II reacende fascínio pelo espaço sideral e lembra o lugar da Humanidade no universo
A missão Artemis II, que levou quatro astronautas a orbitar a Lua e retornou com sucesso à Terra, foi planejada como um marco científico. A bordo da cápsula Orion, a tripulação coletou dados, registrou imagens e testou sistemas de suporte à vida durante a jornada de dez dias ao redor do satélite natural. Mas, para os astronautas, e para milhões de pessoas que acompanharam a missão a centenas de milhares de quilômetros de distância, a experiência foi além da ciência, despertando também reflexões sobre o lugar da Humanidade no universo.
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— Você olha para cima e sente, ao mesmo tempo, admiração, grandeza e pequenez — diz Jim Davis, pastor em Orlando, na Flórida. Ele jantava com um grupo de sua igreja quando o foguete foi lançado, em 1º de abril. Eles deixaram o restaurante para observar a decolagem no céu do início da noite.
Terra se pondo sobre a borda da Lua, vista da espaçonave Orion
NASA / AFP
Durante a missão, o fascínio com a Lua e a vastidão do espaço reacendeu uma sensação antiga: a de que a Humanidade é, ao mesmo tempo, insignificante e extraordinária.
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— Tive uma sensação avassaladora ao olhar para a Lua — relatou a astronauta Christina Koch ao controle da Nasa. — Durou apenas um ou dois segundos, e nem consegui reproduzir aquilo depois, mas algo me lançou de repente para a paisagem lunar e tudo se tornou real.
Christina Koch observa através de uma das janelas principais da cabine da espaçonave Orion, olhando de volta para a Terra, enquanto a tripulação viaja em direção à Lua em 4 de abril de 2026
NASA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP
Para muitos na Terra, a missão funcionou como um lembrete da dimensão do universo e como um convite à contemplação. Foi como voltar a ser criança, deitado sob o céu noturno, encarando as estrelas e formulando perguntas imensas.
Esse paradoxo, de pequenez e grandeza, acompanha a Humanidade há séculos. Um trecho do Livro dos Salmos questiona: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a Lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que dele te lembres?”. Já um texto atribuído ao astrônomo Ptolomeu, do século II, afirma: “Quando observo os movimentos das estrelas, já não tenho os pés na Terra”.
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Para o teólogo Andrew Davison, da Universidade de Oxford, essa é uma das grandes provocações do cosmos: “os seres humanos parecem incrivelmente pequenos, mas também testemunham sua própria grandeza”.
— Somos o tipo de ser capaz de carregar todo o universo dentro de si, em seus pensamentos — afirma.
A volta da Artemis II
NASA/Bill Ingalls/Divulgação
Para muitos astronautas, o que começa como uma missão científica se transforma em algo espiritual. O filósofo Frank White cunhou, em 1987, o termo “efeito visão geral” (overview effect) para descrever a mudança de perspectiva relatada por quem vê a Terra como uma pequena esfera em meio ao infinito.
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O ex-astronauta Ron Garan lembra que assistiu ao pouso da Apollo 11, em 1969, ainda criança, com a sensação de que a Humanidade havia se transformado. Décadas depois, ao passar seis meses na Estação Espacial Internacional, teve outra percepção marcante: a de que todos nós já estamos, de certa forma, no espaço — juntos.
De volta à Terra, ele atribui parte do impacto emocional da experiência à ausência de gravidade.
— Pela primeira vez na minha vida, eu estava fora da moldura da obra-prima, olhando para ela. Isso muda tudo — ressalta.
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Garan compara a experiência espacial a um estado psicodélico. Ao longo dos anos, astronautas relataram ter chorado, rezado e vivenciado sensações inéditas de assombro.
O astronauta da NASA e comandante da missão Artemis II, Reid Wiseman, tirou esta foto da Terra da janela da espaçonave Orion em 2 de abril
NASA/Divulgação
Ao retornar da Lua em 1971, o astronauta Edgar Mitchell afirmou ter sido tomado pela ideia de que “as moléculas do meu corpo e da nave foram formadas em uma antiga geração de estrelas”. Mais tarde, descreveu a experiência como um estado de êxtase.
Os tripulantes da Artemis II também demonstraram percepções semelhantes.
— Vocês estão falando com a gente porque estamos em uma nave muito distante da Terra — disse o piloto Victor Glover, em entrevista à CBS News. — Mas vocês também estão em uma nave chamada Terra.
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Apesar disso, há quem questione se o chamado “efeito visão geral” vai além de uma emoção passageira.
Viagens espaciais continuam sendo experiências raras. Empresas privadas já levaram turistas a voos suborbitais, acima da chamada linha de Kármán, considerada o limite do espaço. Missões mais longas, no entanto, ainda estão restritas a astronautas e a uma elite de viajantes.
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Entre os nomes que já foram ao espaço estão o bilionário Jeff Bezos, a cantora Katy Perry e o ator William Shatner, que descreveu a experiência como marcada por uma “tristeza avassaladora” diante do contraste entre o frio do espaço e o calor da Terra.
Ainda assim, experiências transformadoras ligadas ao cosmos não dependem de deixar o planeta.
— Desde o surgimento da nossa espécie, todas as sociedades humanas olharam para as estrelas — diz Jo Marchant, autora de "The Human Cosmos: Civilization and the Stars".
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A observação do céu influenciou religiões, filosofias, artes e até a política. Segundo a autora, as descobertas de Isaac Newton sobre movimento e gravidade ajudaram a moldar ideias democráticas, ao sugerirem que todos estão sujeitos às mesmas leis.
Hoje, porém, a poluição luminosa e as distrações digitais fazem com que as pessoas passem menos tempo olhando para o céu noturno.
Astronautas observaram um eclipse solar ao emergirem do outro lado da Lua.
Divulgação / Nasa
O ex-capelão militar Troy D. Allan descobriu o poder dessa contemplação durante uma missão no Afeganistão, ao passar noites observando as estrelas como forma de encontrar paz em meio ao caos. Hoje, ele coordena um programa na Universidade Estadual de Utah que leva jovens a acampamentos voltados à observação do céu.
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No início, os participantes, acostumados ao ritmo acelerado das redes sociais, se mostram inquietos. Aos poucos, porém, se conectam com a experiência.
— O que acontece com os seres humanos quando encontram vastidão, silêncio, beleza e mistério? — questiona Allan. — É um reajuste da nossa vida.
Depois que as estrelas aparecem, o grupo segue em caminhada sob a Via Láctea. Em seguida, para novamente e permanece ali, por longos minutos, apenas olhando para o céu.
