O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse na manhã desta segunda-feira (24) que não foi a alta dos juros básicos que causou o superendividamento das famílias, mas sim o aumento da oferta de empréstimos, provocado, entre outras coisas, pela política oficial de crédito.
“Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu”, disse Galípolo, que abriu pela manhã a Febraban Tech 2026, evento de tecnologia do setor financeiro promovido pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).
Alguns setores do governo e do PT têm colocado a culpa no BC pela surpreendente sensação de mal-estar econômico da população, apesar do desemprego historicamente baixo e dos ganhos reais de salário, ou seja, acima da inflação.
Segundo essa linha de argumentação, o aperto monetário feito pelo Banco Central, que combate uma inflação que rondou os dois dígitos, aumentou o comprometimento da renda da população com o pagamento de juros da dívida.
Galípolo disse que a relação dos juros com o endividamento é exatamente o inverso: quando a Selic está mais baixa, cresce o endividamento; quando fica mais alta, como agora, inibe o crédito.
Ele apresentou um gráfico que mostra que o aumento do endividamento ocorrido a partir de 2020 deveu-se à bancarização proporcionada pela criação do Pix, aos juros historicamente baixos e aos programas de sustentação do crédito na pandemia e nos anos posteriores.
“A gente tem que falar algumas coisas óbvias”, pontuou Galípolo.
“Se você promoveu, de alguma maneira, uma elevação do crédito, é normal esperar que o endividamento também cresça.”
O primeiro impulso de crédito, na pandemia, é compreensível, porque o emprego e a renda caíram e as famílias procuraram fontes para manter certo padrão de consumo.
Depois, com o aumento da renda e do emprego, o crédito continuou a se expandir, numa tendência que permaneceu mesmo com o aperto monetário.
Galípolo exibiu um trecho do Relatório de Política Monetária (RPM) que descreve vetores do aumento do endividamento: “A alta recente foi impulsionada majoritariamente pelo crédito livre, com destaque para o aumento nos atrasos de financiamento de veículos, crédito pessoal não consignado e crédito consignado para trabalhadores do setor privado.”
“O consignado privado, CLT, foi o maior fator recente de expansão do crédito das famílias e o RPM o inclui nessas três linhas principais”, disse o presidente do BC.
Segundo ele, desde seu lançamento, em março de 2025, o saldo saltou de R$ 41 bilhões para R$ 102 bilhões.
Setores do governo também têm uma nova fonte de frustração: alguns dos programas de expansão do crédito lançados neste ano de eleições, como os financiamentos para motoristas de aplicativos, não estão crescendo da forma esperada.
Alguns economistas do setor privado têm argumentado que, num ambiente de alto endividamento e aumento dos índices de inadimplência, bancos privados têm ficado mais reticentes em ofertar as novas linhas.
Na avaliação de Galípolo, porém, não foram só os programas oficiais de crédito que levaram ao superendividamento.
Galípolo citou também a necessidade de mudanças na regulação para corrigir incentivos econômicos errados que permitiram, por exemplo, o crescimento acelerado das operações no cartão de crédito.
Os dados citados impressionam: 37 milhões de brasileiros passaram a usar cartão de crédito de 2020 a 2024.
Os usuários com dívida com juros subiram de 34 milhões para 52,8 milhões.
A renda comprometida com cartão passou de 38,5% para 54%.
A inadimplência, já alta em 55%, saltou para 64,5%.
Galípolo sinalizou que o Banco Central está examinando as regras do cartão para promover a oferta responsável aos consumidores e corrigir distorções no modelo que levam ao aumento de riscos escondidos no sistema bancário e fazem o cliente de baixa renda pagar a conta.
Um dos problemas que têm sido apontados no sistema é que o prazo extenso para pagar compras à vista no cartão e o parcelamento sem juros beneficiam, com um subsídio cruzado, os clientes de alta renda, e as instituições financeiras compensam esses custos com juros mais altos para a população de baixa renda.
Ele não deu maiores detalhes, porém, sobre como o BC pretende lidar com esses tópicos.
Galípolo citou a necessidade de adotar de medidas macroprudenciais e de observar a experiência internacional.
Mas foi a oportunidade de apresentar aos banqueiros qual é, atualmente, a prioridade e a direção na agenda do BC na área.
A mensagem implícita foi que a alta recente do endividamento não decorre exatamente do aperto monetário, mas da combinação entre as contínuas políticas oficiais de expansão do crédito e de incentivos incorretos presentes em parte do sistema financeiro.
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo
Ton Molina/Bloomberg
