Análise: Em vitória no redesenho distrital na Virgínia, democratas adotam linha dura para tentar conter Trump
A aprovação, na terça-feira, de um dos mapas congressionais mais agressivamente redesenhados dos Estados Unidos, na Virgínia, marcou o mais recente sinal de que os democratas estão dispostos a abandonar a cautela para tentar retomar o controle do Congresso e bloquear a agenda do presidente Donald Trump.
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A mudança representa uma guinada significativa para um partido que, por anos, denunciou o redesenho partidário de distritos eleitorais. Democratas argumentam, no entanto, que o novo mapa — capaz de transformar até quatro cadeiras atualmente ocupadas por republicanos em assentos democratas — é necessário para contrabalançar iniciativas semelhantes do Partido Republicano no Texas e em outros estados. O novo lema, resumem aliados, é jogar duro.
“Enquanto muitos esperavam que os democratas se rendessem, fizemos o oposto”, disse Hakeem Jeffries, líder democrata na Câmara, em comunicado divulgado após a projeção do resultado. “Não recuamos. Reagimos. Quando eles descem o nível, revidamos com força”.
Com o aumento da urgência para recuperar poder em Washington, democratas têm flexibilizado posições antigas. Apesar das reservas quanto ao chamado “dark money” (doações de origem não revelada), hoje dependem mais desse tipo de financiamento do que os republicanos. No Capitólio, adotaram a linha dura nas negociações orçamentárias, chegando a provocar a paralisação parcial do governo ao se recusarem a financiar operações de fiscalização migratória sem novas restrições às táticas de agentes federais.
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O conjunto dessas decisões reflete a nova disposição no partido — estimulada por eleitores irritados que exigem oposição mais firme a Trump — de rever táticas que antes consideravam prejudiciais à governança. Nenhuma mudança, porém, foi tão abrupta quanto a ocorrida na Virgínia, onde uma delegação congressual de 11 membros, antes quase equilibrada, pode se transformar em outra com apenas um assento republicano praticamente garantido.
Defensores da medida afirmam que ela é uma resposta imperfeita, mas necessária, à “guerra” de manipulação distrital iniciada pelos republicanos. O plano prevê que o novo mapa seja temporário, devolvendo o controle do processo a uma comissão independente em 2031.
— Não podemos levar um pedaço de pau para uma luta de facas — disse Kelly Hall, diretora executiva do Fairness Project, grupo que gastou mais de US$ 12 milhões (R$ 59 milhões) apoiando o referendo. — Com os republicanos atacando a integridade da representação no Congresso, precisamos responder com todas as ferramentas disponíveis.
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Até a inclusão da proposta na cédula eleitoral exigiu manobras parlamentares. Sem os dois terços necessários em cada casa legislativa para convocar uma sessão especial no ano passado, democratas aproveitaram uma sessão orçamentária convocada por Glenn Youngkin, então governador republicano, para agendar o referendo.
A estratégia marca uma reversão em relação ao discurso adotado pelos democratas durante a era Trump, quando o partido se apresentava como defensor das instituições democráticas. Em um cenário ideal, dizem, a decisão Citizens United — que, em 2010, removeu limites para gastos políticos independentes por corporações — seria revertida, e haveria proibição nacional do redesenho partidário de distritos.
— Gostaríamos de acabar com isso — afirmou Tim Persico, estrategista democrata veterano. — Mas, enquanto um lado continuar engajado nisso de forma aberta e sem escrúpulos, não podemos nos dar ao luxo de não jogar pelas mesmas regras.
Críticas republicanas
A mudança abriu espaço para ataques dos republicanos, que não tiveram dificuldade em encontrar declarações passadas de democratas contra o redesenho partidário. Durante a campanha na Virgínia, que atraiu mais de US$ 80 milhões (R$ 398 milhões) em gastos, anúncios em vídeo com o ex-presidente democrata Barack Obama ilustraram a evolução do debate: republicanos exibiram declarações antigas do líder democrata contra o redesenho partidário, enquanto democratas destacaram seu apoio atual à medida.
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O resultado apertado — inferior a três pontos percentuais — sugere que a questão dividiu eleitores. No ano passado, a governadora democrata Abigail Spanberger venceu com margem de 15 pontos, e Kamala Harris ganhou a eleição presidencial de 2024 na Virgínia por quase seis pontos.
— Trata-se de garantir igualdade de condições — disse o deputado Eugene Vindman, democrata da Virgínia, acrescentando que Trump não deveria sentir que pode se vingar de estados inclinados aos democratas e esperar que o partido sempre adote a posição moral mais elevada.
A flexibilidade não é exclusividade democrata. Na véspera da votação, Trump disse a um radialista local que “não sabia se você sabe o que é gerrymandering (manipulação deliberada dos limites dos distritos eleitorais para favorecer um partido, grupo ou candidato), mas não é algo bom”. Foi o próprio presidente, porém, quem impulsionou a disputa ao pedir no ano passado que o Texas redesenhasse seus mapas para favorecer republicanos.
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Ainda assim, há divisões internas sobre até onde ir para conter a administração Trump. O debate tem se estendido por assembleias estaduais, primárias federais e reuniões nacionais do partido. Em Maryland, uma tentativa semelhante de modificar uma cadeira republicana por meio de redesenho distrital fracassou neste mês, após o presidente democrata do Senado estadual se recusar a levar a proposta à votação final.
O argumento contrário foi mais tático do que ético. O líder sugeriu que um novo mapa poderia gerar efeito contrário ou enfrentar desafios judiciais, mas também apontou “preocupações pessoais” com os efeitos de longo prazo de um redesenho no meio do ciclo eleitoral. A delegação de Maryland tem oito membros e apenas um republicano. O novo mapa eliminaria qualquer representação republicana, embora cerca de um terço dos eleitores do estado tenha votado em Trump em 2024.
‘Dark Money’
As divergências também aparecem na discussão sobre financiamento. Muitos democratas consideram moralmente condenável o “dark money” e criticam a influência de interesses corporativos, como grupos ligados a criptomoedas e inteligência artificial, além de organizações financiadas por grandes doadores, como o American Israel Public Affairs Committee (AIPAC).
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O tema foi debatido em reunião do Comitê Nacional Democrata em Nova Orleans. Uma resolução contra o “dark money” avançou, mas teve removidas referências específicas a recursos ligados a inteligência artificial e criptomoedas. Outra, direcionada ao AIPAC, não foi aprovada, refletindo a dificuldade do partido em decidir quão duramente criticar o grupo e se deve desencorajar candidatos a aceitar grandes contribuições.
Melissa Bean, que venceu uma primária em Illinois com apoio de milhões de dólares de um grupo ligado ao AIPAC, afirmou que os democratas não deveriam “amarrar as próprias mãos” recusando doações.
— As apostas são incrivelmente altas, e precisamos garantir que temos recursos para conquistar ao menos um dos poderes — disse Rusty Hicks, presidente do Partido Democrata da Califórnia.
Outros defendem posição mais dura.
— Há tanta indignação pública que temo que, se não rejeitarmos isso, mais pessoas deixarão de participar porque pensarão que todos são iguais — afirmou Francesca Hong, candidata democrata ao governo de Wisconsin.
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Apesar das divergências, democratas continuam recebendo centenas de milhões de dólares de grupos de interesse e doadores ricos cada vez mais opacos.
Um teste importante dessa nova disposição ocorreu na Califórnia, onde o governador Gavin Newsom convenceu eleitores a aprovar a Proposição 50, contornando uma comissão independente e redesenhando o mapa para mudar cinco cadeiras republicanas. Segundo Paul Mitchell, estrategista encarregado do novo mapa, a iniciativa foi apresentada como resposta limitada ao redesenho republicano no Texas e como medida temporária, válida por apenas três ciclos eleitorais.
— Não foi uma adesão total à ideia de que, se eles descem o nível, nós vamos descer ainda mais — disse. — Foi mais: se eles descem, vamos descer por um tempo curto e depois voltar imediatamente a subir.
