O Eduardo Paes da década passada sempre foi um crítico da cobertura da imprensa de escândalos de corrupção. Dizia que repórteres contribuíam para a criminalização da política. Durante a operação Lava-Jato, da qual foi alvo, costumava reclamar de reportagens do Jornal Nacional que mostravam uma arte com dutos por onde jorravam dinheiro e fotos de políticos investigados. Também se incomodava com o protagonismo de juízes na vida pública. Há oito anos, na última eleição para governador do Rio que disputou, acusou os ex-juízes Marcelo Bretas e Wilson Witzel de formarem uma dobradinha para derrotá-lo nas urnas. O Eduardo Paes versão 2026, que concorre ao governo estadual pelo PSD, tem outro tom. Nos programas de TV e nas entrevistas, não está nem um pouco preocupado com a criminalização da política fluminense. Chama os adversários de “delinquentes”, e promete fazer os deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) passarem por um processo de reeducação caso seja eleito governador em outubro. Seus discursos atuais também têm constantes elogios a um desembargador. O presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, passou a ser governador desde o fim de março graças ao Supremo Tribunal Federal (STF). A corte decidiu não decidir como deveria ser a sucessão no estado após a condenação do ex-governador Cláudio Castro pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e o magistrado acabou ficando na cadeira. Há dois meses, em um evento em Niterói, Lula comemorou o quadro que impediu o bolsonarismo de assumir o estado, segundo maior colégio eleitoral do país, homenageando Ricardo Couto: “É o milagre da política”, saudou o petista — mais um, assim como Paes, que bradava contra o endeusamento de juízes, mas que agora não vê problemas nos aplausos. Na sétima vez que disputa uma eleição para o Executivo na vida, o ex-prefeito do Rio estreia uma campanha inteira tendo o tema corrupção como argumento central. A estratégia soa correta, tendo em vista seu desempenho nas pesquisas eleitorais, o melhor na comparação com as outras duas vezes que concorreu ao Palácio Guanabara, em 2006 e 2018. O plano, contudo, carrega incoerências com o histórico recente de Paes. Antes de atacar os seus opositores no Rio, a intenção real era atraí-los para uma aliança. O ex-prefeito hoje em dia desce a borduna no ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União Brasil), preso acusado de ligação com o Comando Vermelho. Já houve momentos recentes, contudo, em que elogiou o parlamentar. Em 2024, em um palanque, Paes o chamou de “meteoro” em meio a abraços e sorrisos. O vídeo está disponível na internet. No ano passado, o mesmo ocorreu com Altineu Cortes, deputado federal pelo PL e principal aliado político de Douglas Ruas. Há fartas imagens nas redes mostrando um evento em que Paes sinaliza que gostaria de caminhar junto de Cortes “por amor ao Rio”. A aliança também não andou e atualmente as inserções de TV do PSD atacam diariamente o parlamentar pelos negócios envolvendo a pedreira da sua família e obras da secretaria das Cidades de Ruas. Paes teve uma conquista essencial no ano passado para o modelo de campanha que pensou para 2026. Seus advogados conseguiram o arquivamento no STF do inquérito aberto em 2017 para apurar as denúncias de que recebeu recursos via caixa dois da Odebrecht. Os executivos Benedito Junior e Leandro Azevedo haviam delatado o ex-prefeito por receber dinheiro para campanha de maneira irregular em troca de favorecimento em obras das Olimpíadas de 2016. Daí saiu o apelido “nervosinho”, nome que adversários sempre lembram que estava nas planilhas de pagamento de propina da empreiteira. Hoje, quem usa apelidos para provocar os rivais é Eduardo Paes. Nos seus discursos, o Rio agora é a Gotham City, a cidade do Batman tomada por ladrões que ele promete combater.
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Análise da sabatina de Eduardo Paes: 'Aposta em denúncias é certeira, porém incoerente'
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O Globo
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