Há vinte anos, na sabatina do GLOBO para o governo do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral — o então candidato do MDB ao Palácio Guanabara — saiu-se com essa declaração diante da cobrança dos jornalistas sobre o fato da sua campanha esconder o correligionário Anthony Garotinho, ex-governador e marido de Rosinha Garotinho, que era a governadora da época. “Nunca fiz campanha baseado em ninguém, sou candidato de mim mesmo, de uma coligação, eu não tenho padrinho”, disse em setembro de 2006, se esquivando do casal que se tornara impopular ao fim da dobradinha de dois mandatos no comando do estado. De ataques contra Paes a elogio a Mendonça: Veja seis pontos da sabatina de Douglas Ruas ao GLOBO, Extra, Valor e CBN Oito anos depois, foi essa a mesma estratégia de Luiz Fernando Pezão (MDB), ex-vice-governador e candidato de um Cabral chamuscado pelas manifestações de 2013, a “Farra dos Guardanapos” em Paris e os voos usando o helicóptero oficial para viagens particulares do cachorro Juquinha. “O Cabral é o Cabral, eu sou eu. O governo vai ser meu governo, quem vai governar sou eu, o candidato sou eu”, afirmou Pezão, em entrevista em outubro de 2014, após o debate do primeiro turno na TV Globo. Assim como os antecessores pré-onda bolsonarista de 2018, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, o deputado estadual Douglas Ruas (PL), também abriu a campanha para governador mostrando-se afiado na arte de responder perguntas se desvinculando de um aliado — no caso, o ex-governador Cláudio Castro (PL), seu chefe no Palácio Guanabara por dois anos e cinco meses e que, a propósito, não pode reclamar do método. Em 2022, quando candidatou-se à reeleição após o impeachment do ex-governador Wilson Witzel , Castro usou e abusou do expediente de dizer que nada tinha a ver com o ex-juiz que o convidou para ser companheiro de chapa. Em campanhas bem desenhadas por marqueteiros competentes, Cabral, Pezão e Castro foram eficientes na tarefa de omitir o passado e triunfaram com folgada distância contra Denise Frossard (2006), Marcelo Crivella (2014) e Marcelo Freixo (2022). Ruas tenta o mesmo, mas uma relevante diferença o o distancia de outras experiências de ocultação de aliados bem-sucedidas no Rio. O deputado estadual não tem o controle da máquina estadual neste momento, tampouco arregimentou o apoio maciço de prefeitos do interior como Cabral, Pezão e Castro. Garantida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a presença do presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, no comando do Palácio Guanabara desde 24 de março neutralizou os planos de Ruas. No primeiro semestre, o deputado esperava assumir a cadeira que antes era de Castro para aumentar a sua taxa de conhecimento — a Quaest divulgada ontem ainda aponta que 53% dos eleitores fluminenses não sabem quem é o candidato do PL faltando menos de um mês para a votação. Se estivesse no cargo como governador interino, Ruas imaginava turbinar a sua popularidade de várias formas. Lançando programas sociais, fazendo convênios com prefeituras ou organizando operações policiais como a que matou 122 pessoas no Complexo da Penha e foi aplaudida pela maioria da população, segundo pesquisas. A história mostra que ser conhecido do eleitor com antecedência usando a máquina traz frutos. Na sucessão de Rosinha em 2006, Cabral já era familiar ao público por anos como presidente da Alerj e no Senado. Em 2014, Pezão assumiu o Guanabara seis meses antes da votação. Castro, em 2022, virou governador após a queda de Witzel e aumentou a sua taxa de conhecimento por exercer por mais de vinte meses o mandato-tampão. O ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD) e os advogados do seu partido dedicaram energia no primeiro semestre convencendo o STF a não mexer no vespeiro do Rio e manter Couto governador. Tiveram êxito. Impedir Ruas de assumir o governo evitou que o favoritismo da disputa — hoje com Paes, líder isolado nas pesquisas — tivesse mudado de mãos.
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Análise da sabatina de Douglas Ruas: 'Esconder aliados, um clássico da política do Rio'
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O Globo
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