Análise: Com Alcaraz e Sabalenka, Laureus confirma domínio do tênis e valoriza forma de competir

 

Fonte:


MADRI* - O Prêmio Laureus de 2026 consagrou nesta segunda-feira, em Madri, uma noite que teve um protagonista claro: o tênis. Com as vitórias do espanhol Carlos Alcaraz e da bielorrussa Aryna Sabalenka nas categorias principais, o esporte ampliou uma hegemonia histórica na premiação, mas com um sinal de mudança no critério.

O que se viu no palco foi menos a celebração de temporadas dominantes no sentido clássico e mais o reconhecimento de uma forma de competir.

Alcaraz foi eleito o melhor atleta do mundo após um 2025 que ajuda a explicar o prêmio sem esgotá-lo: dois Grand Slams (Roland Garros e US Open), retomada do número 1 e, sobretudo, a final em Paris contra Jannik Sinner, uma virada, cinco sets, e uma final que já nasce como clássico, e que resume bem o peso que momentos decisivos passaram a ter nesse tipo de votação.

Carlos Alcaraz recebe o troféu de melhor atleta masculino do Prêmio Laureus 2026

Borja B. Hojas/Divulgação Laureus

Não foi uma temporada de domínio absoluto, dividida justamente com Sinner, que também era indicado. E é justamente aí que o prêmio ganha contorno mais interpretativo: Alcaraz não foi o único protagonista do ano, mas foi quem melhor representou o nível máximo do esporte nos momentos-chave.

— Como tenista, eu jogo para ganhar títulos. Mas esse prêmio é diferente. Ele não olha só para o que acontece dentro da quadra, ele te coloca ao lado dos maiores atletas do mundo, de todos os esportes. Isso muda o significado — disse Alcaraz. — Se eu estou aqui hoje, muito disso é porque tive alguém do outro lado me levando ao limite. Sem essa rivalidade, talvez a gente não chegasse a esse nível — completou, citando o italiano.

Aos 22 anos, ele se torna o mais jovem vencedor da categoria e entra na linha direta de sucessão que moldou o próprio Laureus, de Federer, Nadal e Djokovic.

No feminino, Sabalenka reforça essa mesma lógica por outro caminho. A bielorrussa venceu apenas um Grand Slam no ano — o US Open —, mas foi número 1 do mundo do início ao fim da temporada, alcançando finais na Austrália e em Roland Garros e sustentando um nível constante em um circuito cada vez mais instável.

Em 2025, Sabalenka venceu o US Open, foi finalista no Australian Open e em Roland Garros e, sobretudo, sustentou o número 1 do ranking do início ao fim da temporada

Pablo Cuadra/Divulgação Laureus

Se no masculino o prêmio parece valorizar quem decide melhor, no feminino ele aponta para outro tipo de domínio: o da permanência no topo.

— Não é só sobre vitórias. É sobre tudo o que vem junto: pressão, momentos difíceis, o trabalho diário. É isso que esse prêmio reconhece — disse Sabalenka. — Se eu puder inspirar alguém com a forma como eu lido com isso, já vale tudo.

Em quadra, essa construção passa também pela forma como ela vive cada ponto: uma intensidade que ajuda a explicar como se sustenta na liderança em um circuito onde as trocas de protagonismo se tornaram frequentes.

Uma hegemonia que muda de forma

A dobradinha de 2026 reforça uma tendência estrutural do Laureus. O tênis chega a 13 vitórias em 26 edições no masculino e mantém presença dominante também entre as mulheres, onde mais de um terço das vencedoras vieram do circuito.

Mas o dado mais relevante talvez seja outro: a hegemonia continua, mas mudou de forma.Sem Federer, Nadal e Djokovic no centro da temporada, o prêmio passa a reconhecer menos temporadas perfeitas e mais trajetórias capazes de sustentar excelência em um ambiente competitivo mais equilibrado. Alcaraz e Sabalenka são, cada um à sua maneira, exemplos disso.

O Laureus, como um retrato do esporte mundial nos últimos 26 anos, acompanha essa transição quase em tempo real.

Alcaraz autografa bola de tênis no tapete vermelho do Prêmio Laureus 2026

Borja B. Hojas/Divulgação Laureus

Gabrielzinho encerra jejum e amplia alcance

Se o tênis domina a noite, o momento mais significativo para o Brasil veio com Gabriel Araújo. O nadador paralímpico venceu o prêmio de atleta com deficiência após repetir no Mundial de natação paralímpica o desempenho dos Jogos de Paris: três medalhas de ouro, com domínio absoluto em sua classe.

Aqui, diferentemente do tênis, o critério é mais direto: resultado incontestável. Mas o prêmio também carrega outro peso. A vitória encerra um jejum de dez anos sem brasileiros na categoria e recoloca o país em um espaço que teve em Daniel Dias seu maior símbolo — agora com uma nova geração assumindo esse protagonismo.

Gabriel Araújo, eleito o melhor atleta com deficiência do mundo, recebe o Prêmio Laureus de melhor atleta paralímpico

Borja B. Hojas/Divulgação Laureus

— Significa muito porque quem vota entende o que existe por trás de cada conquista. Não é só resultado, é tudo o que você passa para chegar até aqui — disse Gabriel. — O esporte paralímpico carrega isso ainda mais forte. A gente não está só competindo, está quebrando barreiras.

Mais do que repetir resultados, Gabriel amplia o alcance do esporte paralímpico brasileiro em um momento de maior visibilidade global da categoria.

Gabriel Araújo, eleito o melhor atleta com deficiência do mundo, no tapete vermelho do Prêmio Laureus 2026

Patricia J Garcinuno/Divulgação Laureus

Os outros vencedores

No coletivo, o Paris Saint-Germain foi eleito o time do ano após uma temporada que praticamente esgota o calendário europeu: seis títulos, incluindo a primeira Liga dos Campeões da história do clube, um reconhecimento que mistura volume de conquistas e peso simbólico.

Entre as trajetórias individuais, o Laureus voltou a premiar histórias de ruptura e persistência. Lando Norris foi escolhido como revelação do ano após conquistar seu primeiro título mundial na Fórmula 1, enquanto Rory McIlroy levou o prêmio de retorno ao completar o Grand Slam do golfe mais de uma década depois de seu último major.

Nos esportes de ação, Chloe Kim manteve seu domínio no snowboard e venceu pela terceira vez, enquanto brasileiros como Yago Dora e Rayssa Leal ficaram entre os indicados.

Lamine Yamal recebe estatueta do Prêmio Laureus 2026

Pablo Cuadra/Divulgação Laureus

A premiação também abriu espaço para o futuro, com a criação da categoria de atleta jovem do ano, vencida por Lamine Yamal.

Fora das disputas, homenagens a Toni Kroos e Nadia Comăneci reforçaram outra dimensão do Laureus: a de reconhecer não apenas quem vence hoje, mas quem ajudou a moldar o esporte ao longo do tempo.

*O jornalista viajou a convite do Laureus