Análise: Ancelotti deixa questão física para trás e justifica Neymar na Copa como projeto de motivação
É como se Ancelotti já tivesse um plano. E nele, passasse um ano enumerando razões para Neymar precisar se provar para ir à Copa do Mundo. A incerteza até a divulgação da lista final com a presença do astro deu a sensação de que todos os argumentos relacionados à questão física foram um incentivo. Que no fim das contas, o que pesou para o atacante de 34 anos ser chamado foi o que já se esperava dele: a possível genialidade, a experiência e o clamor de atletas e opinião pública.
Livre de lesões e em plena atividade no Santos, as limitações de Neymar ficaram abafadas por um exercício de ilusão digno dos super-heróis. Ancelotti apenas evocou uma espécie de entidade, a fantasia em torno do personagem, para depois tentar torná-lo humano, falho, e igual aos demais jogadores. Ao tentar tratar Neymar como "mais um" na seleção e não prometer titularidade na Copa, o técnico mais uma vez indica ao craque que ele precisará se provar. E define bem quando perguntado sobre o hexa:
- Não sou um mágico. Sou um trabalhador que trabalha neste mundo há 40 anos. E tenho conhecimento e confiança de que essa equipe pode competir com as melhores do mundo. Temos que ser exigentes para ter mais motivação. Podemos chegar na final, sim. Não sei se será suficiente para ganhar - projetou um corajoso Ancelotti, que repetiu não sentir a pressão por mais de uma vez.
Esperança mesmo como reserva
A aceitação provocada pelo português esforçado do italiano e pelos sentimentos expostos ao lamentar algumas ausências, sobretudo de João Pedro e Andrey Santos, também contribuem para as justificativas para levar Neymar. Assim como a esperança retratada nos comerciais dos patrocinadores da CBF do qual foi estrela, Ancelotti disse acreditar que Neymar poderá contribuir com a seleção, mesmo que jogue poucos minutos ou nem jogue, ignorando reações a esta possibilidade.
- É um jogador importante nessa Copa do Mundo. Tem o mesmo papel e a mesma obrigação que os outros 25. Tem possibilidade de jogar, não jogar, entrar, ficar no banco. É um jogador experiente. Com continuidade, ele pode melhorar a condição física até o primeiro jogo da Copa (dia 13, contra Marrocos). Mas tem experiência, o carinho no grupo, pode criar um ambiente melhor, ajudar a equipe a fazer o melhor - explicou o Mister.
O quesito experiência também desempatou na escolha dos goleiros. Ancelotti lamentou não levar Bento, presente em todas as convocações, e citou também Hugo Souza e John, observados, além de João Pedro e Andrey Santos, preteridos. Por outro lado, disse que Léo Pereira conquistou a vaga na última data Fifa, e reforçou que Paquetá sempre esteve nos planos. Sobre Endrick, citou que ele também era uma ideia para esta Copa, não a próxima.
- Em algumas posições, como o goleiro, privilegiamos mais a experiência, por isso também chamamos Weverton do Grêmio, que não precisamos testar, sabemos do valor em competição. Eles estão acostumados. Sinto muito que outros não estão aqui. Me dá tristeza, mas eles terão, como outros jovens, a oportunidade de estar no projeto da próxima Copa do Mundo - explicou o técnico, de contrato renovado até 2030.
O posicionamento de Neymar
A partir do dia 27, quando a seleção se apresenta em Teresópolis, Ancelotti precisará tirar as dúvidas que a convocação provocou na formação do time titular. Ele só adiantou que vê Neymar como atacante por dentro, atrás de um centroavante ou falso nove. No gol, Alisson se recupera de lesão e voltará a atuar a tempo de ganhar ritmo. Mas Ederson e Weverton correm por fora em caso de necessidade.
No dia 31, no último amistoso no Brasil, contra o Panamá, as dúvidas começarão a ser tiradas. Com a motivação em dia, a seleção precisará se reorganizar em função da presença de Neymar, que não havia sido convocado nenhuma vez por Ancelotti. A receita, o técnico mesmo diz qual será:
- Pode não ser o grupo perfeito. Mas vai ser resiliente, concentrado, humilde, altruísta. A questão é coletiva, não individual. Depois é escolher os jogadores que me garantem isso. Eu tenho todas as informações. Não estou ansioso - finalizou o Mister, transmitindo, acima de tudo, tranquilidade.
- Todo mundo pode pensar de diferentes maneiras. Mas no final, neste caso, sou eu que tonho que tomar a decisão. E ninguém hoje pode dizer que o treinador se equivocou. Tem que esperar o final de julho, e alguém por certo me dirá que eu acertei ou errei - finalizou, em tom bem humorado.
