Análise: Advogados dos réus do caso Marielle tentam incriminar Cristiano Girão como possível mandante
Duas das cinco defesas levantaram, durante as sustentações, a possibilidade de envolvimento do ex-miliciano Cristiano Girão como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). A estratégia não é inédita, mas se apoia em alguns elementos concretos.
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Girão foi preso após a CPI das Milícias, em 2008, presidida pelo então deputado estadual Marcelo Freixo. Diante da dificuldade de atingir diretamente o ex-parlamentar, a tese defensiva sugere que Marielle — por ter trabalhado com Freixo e representar a continuidade política de sua atuação — teria se tornado alvo dele.
O argumento foi desenvolvido pelo advogado Cléber Lopes, defensor do ex-deputado Chiquinho Brazão. Ele destacou um ponto que merece atenção: o delator Ronnie Lessa, que afirmou não conhecer Girão, foi condenado como executor do homicídio de André Henrique da Silva Souza, o “Zóio”, e de sua companheira, Juliana Sales de Oliveira. O crime ocorreu em 2014, na Gardênia Azul, área então dominada por Girão. No mesmo julgamento, o ex-miliciano foi condenado como mandante do duplo homicídio a 45 anos de reclusão, enquanto Lessa recebeu pena de 90 anos.
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A defesa questiona: se Girão foi condenado como mandante em território sob sua influência, por que Lessa teria omitido essa suposta conexão? “Por que essa mentira?”, provocou o advogado Marcelo Ferreira, ao adotar linha semelhante.
Os defensores enfatizam ainda que a condenação ocorreu no 3º Tribunal do Júri do Rio, com acusação conduzida pelo Gaeco — o mesmo grupo que, ao lado da Polícia Federal, participou do recebimento da delação de Lessa no caso Marielle. A insinuação é clara: haveria uma contradição estrutural na narrativa acusatória.
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Percebeu-se um alinhamento estratégico entre os advogados. A ordem das sustentações parecia previamente combinada, permitindo que cada tese fosse construída de forma complementar. Era esperado, sobretudo nas defesas do major Ronald Paulo Alves e de Robson Calixto Fonseca, o Peixe, que figuram na denúncia com papéis secundários e lastro probatório mais restrito.
O advogado de Ronald, Igor de Carvalho, apostou em dados técnicos extraídos do programa I2 — ferramenta de análise de vínculos que cruza registros de ligações telefônicas. Segundo ele, não haveria conexão entre seu cliente e os demais réus.
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Defesa de Rivaldo usa Giniton
Já no embate envolvendo o ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, e o delegado Giniton Lages, as narrativas se tensionaram. A defesa de Rivaldo procurou demonstrar que foi Giniton quem conduziu as investigações que culminaram na prisão de Ronnie Lessa — justamente o delator que apontou o ex-chefe como “mentor intelectual” do crime. Giniton, por sua vez, foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por suposta obstrução às investigações, às vésperas do julgamento.
A lógica apresentada pela defesa é simples: se Rivaldo pretendia sabotar a apuração, não escolheria para conduzi-la um delegado que, ao final, reuniu provas contundentes contra o executor confesso. Seria, então, a acusação contra Rivaldo fruto de vingança do delator?
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A tese é juridicamente plausível. A questão central, no entanto, permanece: ela resiste ao conjunto probatório produzido ao longo da investigação?
