Amigos da pelada pagam translado do corpo de morador morto no Morro dos Prazeres para o Piauí; corpo é velado no Rio
Amigos e parentes participam da despedida a Leandro da Silva Sousa, morador do Morro dos Prazeres morto durante operação policial na comunidade. O velório foi realizado no começo da manhã desta sexta-feira no Cemitério do Catumbi. Por volta das 10h, o caixão foi levado para o Galeão, onde embarca nesta tarde para a cidade de Milton Brandão, no Piauí, onde o ajudante de cozinha nasceu e onde vivem os seus pais e mais três irmãos: o translado foi bancado por amigos e colegas da pelada que o rapaz frequentava duas vezes na semana no Aterro do Flamengo, com ajuda do patrão de Leandro.
O sepultamento do corpo de Leandro na sua cidade natal está programado para a manhã deste sábado e atende a uma solicitação dos pais dele. Abalada e chorando muito, a viúva Roberta Ferro Hipólito, de 32 anos, precisou ser amparada por parentes do marido. Durante a saída do caixão, ela teve um rápido desmaio e precisou ser socorrida pelos amigos. Seis irmãos da vítima também compareceram ao velório, cinco deles moram em São Paulo.
— Só quero justiça pelo meu marido. Só justiça. Eu só tinha ele — disse Roberta, aos prantos.
Viúva, amparada por irmãos do marido, chora ao lado do corpo de Leandro da Silva Sousa, ajudante de cozinha morto no Morro dos Prazeres
Gabriel de Paiva
O advogado Paulo Ascenção, que defende a família de Leandro, disse que vai acompanhar o inquérito. Ele não descarta processar o estado, caso seja realmente comprovada a culpa dos policiais.
Entre os amigos de Leandro que foram se despedir dele, está Mateus Pereira — conterrâneo do ajudante de cozinha —, que há dois anos se mudou para o Rio, onde era também vizinho do amigo de infância, a quem acompanhava nas partidas no Aterro, que aconteciam sempre às sextas-feiras. Ele contou que no jogo desta noite haverá uma homenagem a Leandro, que era apaixonado por futebol. O grupo de peladeiros que ser reúne às segundas-feiras também programou ou homenagem.
— É doido, cara. É uma situação difícil, porque quem perde é a família, quem perde é a gente que é amigo. Quem perde é Milton Brandão, por ser uma cidade pequena, que vê seu filho partindo dessa forma, sem justificativa — desabafou Mateus. — Eu quero justiça.
Time da pelada do Aterro do Flamengo: Leandro da Silva Sousa é o que está ao lado do goleiro, em pé
Reprodução
O patrão do ajudante de cozinha criticou a ação policial no Morro dos Prazeres. Na última quarta-feira, Leandro teve a casa invadida por bandidos durante a operação: a viúva acusa os agentes da PM, que também entraram no imóvel, de serem responsáveis pelo tiro que matou o morador. A corporação alegou que precisou reagir aos criminosos, que teriam aberto fogo enquanto faziam Leandro e Roberta reféns. A mulher contesta a versão e diz que os agentes usaram uma granada para arrombar a porta e entraram atirando.
— Era um funcionário exemplar, querido por todos. Não tenho o que falar dele. A morte dele foi uma irresponsabilidade da polícia e da política também, que transforma essas operações em palanque em ano eleitoral — criticou Leandro Bezerra, um dos sócios do restaurante Tasca do Edgar, em Laranjeiras, onde o xará e ajudante de cozinha trabalhava.
Na véspera Roberta contou que o disparo que tirou a vida do marido interrompeu o sonho do casal de voltar para o Piauí, seu estado natal e de ter um filho juntos. Roberta já tinha dois filhos adolescentes de outro relacionamento, que vivem com sua família no nordeste.
O casal juntava dinheiro para voltar a viver junto dos parentes dele e só depois terem o sonhado filho dos dois. Leandro nasceu na cidade de Milton Brandão, onde ainda vivem seus pais e três irmãos. Outras cinco vivem em São Paulo e um no Rio.
Roberta é de Valença do Piauí e está sozinha no Rio. Ela pensa voltar para sua terra natal após a morte do marido. Quando o casal se conheceu, há cerca de três anos, ela morava em Brasília. Os dois começaram a se relacionar pela internet. Ela conta que o marido era um homem muito amoroso e costumava esperá-la na volta do trabalho, perto de casa, para chegarem juntos de mãos dadas. Também era apaixonado por futebol e, segundo os amigos, não recusava convite para uma pelada.
Policiais afastados
Na última noite, o Batalhão de Operações Especiais do Rio (Bope) determinou a transferência imediata de quatro policiais da unidade envolvidos na ação que terminou na morte de Leandro. Os agentes também foram afastados do serviço operacional e incluídos em atividades administrativas, não realizando policiamento nas ruas durante o período de investigações. A informação foi divulgada pela Secretaria estadual de Polícia Militar.
Segundo a nota, a medida foi tomada após análise preliminar das ações realizadas na quarta-feira, quando foram identificadas atividades relacionadas ao mau uso das câmeras operacionais portáteis, de uso individual, por parte dos policiais. A classificação se deu após imagens das câmeras relativas ao momento da invasão da casa não terem sido encontradas nos equipamentos, conforme apurado pelo GLOBO. A causa da ausência das gravações ainda é desconhecida.
"O afastamento busca assegurar a apuração rigorosa e transparente dos fatos, em conformidade com as normativas que regulamentam a utilização dos equipamentos", diz um trecho do documento.
Versões contraditórias
Para chegar ao trabalho, na Rua Alice, em Laranjeiras, Leandro Silva Sousa, de 30 anos, percorria uma distância de pouco mais de dois quilômetros. Ele acostumava acordar por volta das 7h para chegar ao restaurante Tasca do Edgar, onde era ajudante de cozinha, às 8h30. E não havia atrasos, como contou seu chefe ao GLOBO. Na manhã de quarta-feira, no entanto, a rotina foi interrompida antes que ele pudesse colocar o uniforme. Ainda de pijamas e ao lado da viúva, Roberta Ferro Hipólito, ele foi surpreendido com a entrada de traficantes por uma das janelas da casa, no Morro dos Prazeres. Armas foram jogadas por debaixo da cama do casal, enquanto policias militares cercavam o imóvel. O que aconteceu depois tem versões diferentes contadas pela Polícia Militar e por Roberta, a única sobrevivente. Na residência, ficaram marcas de tiros, sangue e pedaços de corpos espalhados.
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