Amigo próximo de Michelle, maquiador prevê derrota de Flávio Bolsonaro: 'Ego e vaidade são maiores que a própria causa'
Amigo próximo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o maquiador Agustin Fernandez afirmou em entrevista ao canal Iron Studios, na quinta-feira, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não consegue dialogar com as classes mais baixas e previu dificuldades eleitorais para o pré-candidato à Presidência.
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— O estereótipo do Flávio é o estereótipo que a direita já teve e, por conta disso nunca chegou à Presidência. Porque esse perfil é polido, engessado, sem um fio de cabelo fora do lugar. Ele não conecta com a empregada doméstica, com o vendedor ambulante. Ela é a única que consegue herdar 100% do capital político do Bolsonaro e ainda trazer pessoas novas. Se eles não tem essa estratégia, esse discernimento, o ego e a vaidade são maiores que a própria causa, então a gente tem que f... com mais um mandato do Lula — disse.
Agustin também disse que não pretende apoiar a pré-candidatura do senador, ao afirmar: “Não vou me incomodar fazendo vídeo, e perder meu tempo sabendo que a gente vai sofrer uma puta derrota. Pois o Lula tem o Judiciário, tem a mídia, tem bala na agulha, a máquina e ainda tem carisma e ele consegue chegar em todo mundo”.
Agustin ainda afirmou que a atitude de Flávio foi “deplorável” ao anunciar a pré-candidatura enquanto o pai, Jair Bolsonaro, estava internado para realizar uma cirurgia de hérnia inguinal.
— Uma das piores situações que eu vi. Todo mundo percebeu, mas ninguém comentou. Bolsonaro internado, vai passar por uma cirurgia de alto risco. E aí eu pego uma carta, tipo um testamento, e eu leio isso para imprensa na porta do hospital. Isso para mim é uma das situações mais deploráveis que o ser humano pode passar — disse o amigo da primeira-dama.
As declarações, feitas por alguém do círculo próximo de Michelle, ampliam a exposição pública de um racha que se arrasta desde pelo menos o fim de 2025, quando Jair Bolsonaro decidiu bancar o nome do filho como herdeiro político na disputa pelo Planalto. A escolha contrariou o movimento de ascensão da ex-primeira-dama dentro do PL e acirrou uma disputa interna por protagonismo. A escolha por Flávio contou ainda com uma ordem para que a ex-primeira-dama não se opusesse ao nome do enteado.
Antes da definição, Michelle vinha ganhando espaço na articulação política, interferindo em decisões estratégicas e sendo apontada por aliados como alternativa competitiva para 2026. A imposição do nome de Flávio reconfigurou esse cenário. Nos bastidores, a ex-primeira-dama passou a relatar desconforto com o novo arranjo e chegou a dizer que teria de “se contentar com o Senado”, frase que circulou entre dirigentes do partido.
Enquanto Flávio Bolsonaro se posicionava e buscava conversas relevantes, Michelle submergiu. A ex-primeira-dama se afastou do comando do PL Mulher, suspendeu viagens e reduziu a exposição pública, pausando a agenda que vinha sendo intensa.
Em comunicado na época, o PL Mulher havia frisado que “Michelle já vinha lidando com alterações em sua saúde” e que, nos últimos meses, “em especial em consequência das tensões envolvendo a prisão do marido e as constantes injustiças feitas contra ela e sua família”, sua imunidade teria sido afetada.
Em ato paralelo à nomeação de Flávio, Bolsonaro fez chegar ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, um aviso para que a ala do partido mais próxima ao dirigente, e que já se opôs às suas decisões, aceitasse Flávio como candidato. Valdemar repassou aos seus aliados que acataria a decisão do ex-presidente. Em publicações, Michelle e o dirigente endossaram a escolha por Flávio e transmitiram a mensagem de que o partido está "unido".
Valdemar publicou uma nota oficial confirmando que Flávio é o nome indicado por Jair Bolsonaro para representar o partido na disputa presidencial. Na nota, o presidente do PL afirma que o senador comunicou pessoalmente a decisão do ex-chefe do Executivo. “Se Bolsonaro falou, está falado”, escreveu. Michelle compartilhou a publicação e desejou sucesso a Flávio.
“Que Deus te abençoe, Flávio nesta nova missão pelo nosso amado Brasil. Que o Senhor te dê sabedoria, força e graça em cada passo, e que a mão d’Ele conduza o teu caminho para o bem da nossa nação”, afirmou.
A reconciliação entre Flávio e Michelle teve pedido de desculpas e momentos de choro e reza entre os dois. Bolsonaro disse ao filho que não aceitaria complô contra a esposa. Flávio pediu desculpas à madrasta e ouviu que ela não gostaria de ser novamente desautorizada publicamente pelos filhos de Bolsonaro.
No entanto, em março, interlocutores relataram que Michelle continuava mantendo resistência à estratégia de alianças liderada por Flávio e, em conversas reservadas, já indicou preferência por uma alternativa à sua candidatura, tendo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como principal referência. A relação entre os dois é antiga e próxima e, no entorno do PL, é vista como um contraponto ao núcleo político liderado por Flávio.
Em feverereiro, anotações feitas por Flávio sobre a formação de chapa no Distrito Federal expuseram mais um ponto de tensão entre o pré-candidato e a ex-primeira-dama. No esboço registrado durante reuniões na sede do partido, o apoio à vice-governadora Celina Leão (PP) para o governo local aparece condicionado a uma definição do governador Ibaneis Rocha (MDB) sobre disputar o Senado. A ressalva coloca em compasso de espera um arranjo que vinha sendo tratado como natural no entorno de Michelle, aliada política de Celina no DF.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), chegou a contemporizar os relatos de atritos entre o irmão e Michelle. Em Dallas para discursar na CPAC, conferência que reúne lideranças conservadoras de diversos países, o ex-parlamentar evitou comentar quem deve ser indicado como vice na chapa de Flávio e disse "receber com alegria" a possibilidade de ser chanceler num eventual governo do irmão. Eduardo jogou panos quentes sobre os possíveis desentendimentos entre os dois.
— Se ela ficou chateada por alguma ação do Flávio, eles têm que sentar para conversar e se entender — destacou, sem detalhar que ações poderiam ser essas, antes de mencionar indiretamente a escolha do senador como sucessor do pai na corrida ao Planalto. — Eu acho que a decisão para a Presidência do Jair Bolsonaro não via, essencialmente, que tivesse que passar por ela. Um partido é uma hierarquia.
A ida de Eduardo ao CPAC ocorreu em meio à previsão de alta hospitalar do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando passa a valer a prisão domiciliar. Na avaliação de aliados, a domiciliar pode ampliar o protagonismo de Michelle.
